quinta-feira, 14 de junho de 2012

ITÁLIA É A BOLA DA VEZ

Itália luta para não ter que recorrer à União Europeia assim como a Espanha
Hans-Jürgen Schlamp - Der Spiegel
Depois da Espanha, o foco da crise do euro deslocou-se para a Itália, que está sofrendo com uma economia em declínio e um aumento das taxas sobre títulos financeiros. O primeiro-ministro Mario Monti nega que o seu país venha a solicitar um pacote de auxílio econômico da União Europeia, mas pouca gente manifesta otimismo em relação ao futuro da Itália.
Claudio Pesaro na verdade tinha grandes planos para este ano. Este italiano de 35 anos de idade, que ainda mora com os pais, desejava comprar a casa própria, casar-se com a namorada e ter filhos. Mas ainda que tenha juntado mais de um terço do dinheiro necessário para a aquisição da sua residência, ele não consegue encontrar um só banco disposto a financiar o restante do valor. O emprego dele também corre risco, já que a companhia para a qual trabalha está tendo prejuízos. Por causa disso, ele terá que arquivar por hora esses planos.
Marco Michelli desejava tornar-se empresário, abrindo uma microcervejaria e um bar. A cerveja é uma bebida popular na Itália, especialmente entre a população mais jovem. Mas as autoridades municipais o sobrecarregaram com exigências e taxas, e o banco recuou da sua promessa de financiar o negócio. Isso liquidou o seu projeto.
Estas são apenas duas histórias típicas da Itália, que atualmente encontra-se no seu quarto ano consecutivo de crise econômica. O clima no país é de depressão. O número de pessoas que se suicidam por razões econômicas está em alta. O entusiasmo com que os italianos receberam a adoção do euro como a sua moeda desfez-se há muito tempo. Agora, cerca de 65% da população do país manifesta ceticismo em relação à moeda comum europeia.
Assim, os italianos mostraram-se relativamente tranquilos nas suas reações à última "segunda-feira negra" nas bolsas de valores, quando as ações despencaram após o anúncio de que a economia italiana sofrera uma contração de 0,8% no primeiro trimestre de 2012. Na verdade, os italianos passaram a considerar tais quedas normais. Após a Espanha, o foco da crise do euro está se deslocando para a Itália. Os preços das ações italianas desabaram, e as taxas sobre os títulos do governo italiano retornaram ao elevado patamar de 6%. Especialistas no mercado de ações dizem que os fundos de hedge estão investindo quantias enormes em apostas contra o país, por acreditarem que as taxas continuarão subindo, intensificando assim a queda em parafuso na qual o país se encontra.
O primeiro-ministro italiano Mario Monti nega que o seu país venha a pedir um pacote de socorro econômico à União Europeia. Ele disse à rede de radiodifusão alemã Deutschlandradio Kultur na última quarta-feira (13) que entende que a Itália tem a reputação de ser um país "alegre e indisciplinado", mas que a nação é "mais disciplinada" do que vários outros países europeus – acrescentando que atualmente a Itália não se encontra "tão alegre assim".

Tendência de queda
A Itália viu as captações de 12 meses derivadas dos seus títulos subirem novamente em um leilão de 6,5 bilhões de euros (US$ 8,1 bilhões). As taxas de juros subiram de 2,34% no mês passado para quase 4% neste mês. A demanda, no entanto, continua intensa.
O país deseja também obter 4,5 bilhões de euros nesta quinta-feira (14) e 9,5 bilhões de euros na sexta-feira (15). No total, essas captações monetárias totalizarão mais de 20 bilhões de euros em novos empréstimos. Se a taxa de juros sobre esses títulos subirem apenas um ponto percentual, por exemplo, de 5% para 6%, isso custará ao Estado 200 milhões de euros adicionais. E esta é a mesma quantia que Corrado Passera, o ministro italiano do Desenvolvimento Econômico, não tem à sua disposição para financiar o seu programa de crescimento, que foi anunciado por ele algum tempo atrás. O programa encontra-se atualmente paralisado devido a discórdias internas do governo quanto ao seu financiamento.
A castigada economia da Itália necessita desesperadamente de estímulo econômico, mas a tendência de queda continua:
- A produção industrial italiana está caindo quase todo mês. Desde 2008, a produção total do país encolheu cerca de 25%.
- O índice de desemprego subiu de 8% para 10% nos últimos 12 meses. Entre a população com menos de 25 anos de idade, esse índice aumentou de 28% para 36%. Porém, é possível que esses números ainda não reflitam inteiramente a gravidade da situação: muitos dos desempregados desistiram de procurar empregos, o que significa que eles não estão mais sendo incluídos nas estatísticas.
- O produto interno bruto da Itália diminuirá neste ano em meio ao agravamento da recessão. O banco central italiano declarou que ficará satisfeito se essa queda não for maior do que 1,5%.
Diversos outros indicadores, incluindo a renda nacional líquida, a demanda dos consumidores e o padrão de vida, também estão caindo.
A única coisa que está crescendo é a enorme dívida italiana, que já equivale a 120% do produto interno bruto do país, e que provavelmente superará a marca dos 2 trilhões de euros neste ano. Enquanto a economia estiver encolhendo, será difícil sair desse círculo vicioso de dívidas, que produz quase que automaticamente novas dívidas.
Tentando adotar uma ótica positiva
O ministro Passera vem tentando minimizar a significância desses números. Ele diz que os dados econômicos negativos já eram esperados, e argumenta que as exportações na verdade estão apresentando um bom desempenho, que os bancos encontram-se estáveis e que os gastos do governo seguem de acordo com o planejado. Passera insiste que a situação na Itália é melhor do que a de outros países atingidos pela crise. Infelizmente, os mercados não parecem reconhecer essa distinção sutil.
Enquanto isso, o entusiasmo que vários italianos sentiam pelo governo tecnocrático de Mario Monti na sua fase inicial se desfez. Muitos italianos reclamam, dizendo que Monti e o gabinete dele falaram muito sobre economizar, mas na prática quase que só aumentaram impostos e outras taxas. Eles poucos fizeram até o momento no sentido de reduzir os gastos, como por exemplo aqueles relativos à ampla gama de subsídios desnecessários e ao sistema política e administrativo que é generosamente pago com o dinheiro do contribuinte. E as reformas prometidas da fossilizada economia italiana continuam paradas nos seus estágios iniciais.
As tentativas de Passera de adotar uma ótica positiva em relação à situação fez com que ele se tornasse alvo de críticas, zombarias e ridicularizações dos seus compatriotas, incluindo em fóruns de discussão em websites de jornais: "O dia em que nós tivermos políticos sérios será um grande dia", escreveu um leitor do website do jornal conservador-liberal "Corriere della Sera". O comentário faz lembrar aqueles que eram feitos durante a era Berlusconi.
"Angela Merkel, você não pode continuar agindo desta forma"
Os acossados políticos italianos estão tentando transferir para outros fatores a responsabilidade pela situação. Por exemplo, o recente terremoto ocorrido no norte do país foi responsabilizado pelas agruras italianas. O terremoto causou de fato danos e uma considerável queda de produção. Mas são principalmente os alemães que têm sido identificados como culpados, sendo que a dura chanceler Angela Merkel vem sendo um foco particular de ressentimentos. Segundo vários italianos, todas as ideias que os países altamente endividados da zona do euro desejam ou propõem – incluindo os euro-bonds, uma união bancária ou programas de investimento e crescimento financiado por dívida emitida conjuntamente – são recebida com um teimoso "Nein" de Berlim.
As coisas precisam mudar, declarou o jornal de economia italiano "Il Sole 24 Ore", em um comentário publicado nesta semana, ecoando os atuais sentimentos políticos no país. "Angela Merkel, você não pode continuar agindo desta forma", disse o jornal no artigo que trazia o título em alemão "Schnell, Frau Merkel" ("Rápido, Dona Merkel"). "Você não irá muito longe se continuar indiferente à fúria dos gregos e se persistir em manter-se alheia ao orgulho ferido dos espanhóis, aos temores dos italianos e às ansiedades dos franceses". O comentarista apela diretamente à chanceler para que ela haja, argumentando: "Uma Alemanha forte e saudável não tem como existir em meio às ruínas de países europeus".
No entanto, o motivo pelo qual Angela Merkel não está agindo rapidamente é explicado pelo jornal "La Repubblica", segundo o qual Monti teria dito que Merkel está adotando uma linha dura devido às próximas eleições nacionais de 2013 na Alemanha. Mas, de acordo com o jornal, Monti declarou: "A Europa não tem como esperar mais. O período para a hesitação terminou".
Tradutor: UOL

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