Alemanha não tem uma força infinita, diz chanceler alemã
Juan Gómez e Walter Oppenheimer - El Pais
Em Berlim se espalhou a opinião de que a chanceler Angela Merkel está há dias, ou mesmo semanas, de muito mau humor. Sua aparição na câmara baixa do Parlamento (Bundestag) não abafa o rumor: vestida de cinza-chumbo e com cara de poucos amigos, a chefe do governo alemão traçou com gesto duro as linhas vermelhas de seu país diante da crise europeia. A Alemanha não tem "uma força infinita nem uma capacidade ilimitada" para sozinha levar a Europa adiante, ela disse.
"Os recursos da Alemanha são limitados", acrescentou. Dirigiu-se com ênfase aos que "creem que a crise se soluciona com bilhões e mais bilhões", advertindo-os de que "todas as medidas" adotadas até agora, assim como as verbas de resgate preparadas, "acabariam em fumaça" se arrebentasse a máquina da locomotiva econômica da Europa.
Como exemplo de "decisões irresponsáveis" que provocaram essa situação, Merkel recorreu aos "dez anos em que a Espanha permitiu que se inchasse sua bolha imobiliária". Depois de elogiar o "pedido de ajuda" espanhol para resgatar sua economia, Merkel lembra que "é claro que esta é sujeita a condições" para o sistema financeiro espanhol.
Enquanto os bônus para dez anos do Tesouro espanhol alcançavam perigosas cotações, nunca vistas desde a introdução do euro, Merkel elogiou a "determinação e a coragem" do governo de Mariano Rajoy na aplicação de reformas. No entanto, destacou que o caso espanhol também ilustra outro problema. As recentes provas de resistência ao setor financeiro organizadas pela Autoridade Bancária Europeia (EBA na sigla em inglês) não serviram para nada, "porque os supervisores nacionais tinham demasiada influência" no resultado.
Em consequência, passou despercebido o buraco dos bancos espanhóis, que agora será tapado com os 100 bilhões de euros emprestados pelos fundos europeus. Para Merkel, esta é uma prova de que se deve avançar na união política da Europa. "A responsabilidade assumida em comum deve andar junto com o controle comum." Ela se disse partidária de que o Banco Central Europeu (BCE) assuma competências para controlar os setores bancários da zona do euro, para que "os interesses nacionais" não obscureçam a visão. Quanto à solicitação formal do resgate espanhol, Merkel quer que chegue "o quanto antes", porque "os bancos precisam de capital para manter a fluidez de crédito", afirmou.
O comparecimento da chanceler deveria servir para esclarecer as posições alemãs diante da cúpula dos países mais industrializados e as potências emergentes (G-20) que se realizará no México na próxima semana. Merkel quer que todos os países do G-20 contribuam para combater a crise europeia. O resto dos temas mundiais, disse ela, "ficarão à sombra do mais importante, a crise europeia que nos preocupa há dois anos". A Alemanha está no centro da atenção "porque somos a principal economia".
A chefe do governo alemão afirmou que o país "põe seus esforços e sua potência a serviço da integração europeia e também da economia mundial". Em seguida, atacou diretamente os que propõem "soluções instantâneas" para a crise. De novo entoou sua litania contra a emissão de dívida conjunta europeia ou a disposição de um fundo de garantias bancárias comum para toda a zona do euro. Insistiu novamente na "consolidação orçamentária" como arma contra os problemas atuais da UE e do euro. Merkel comemorou a boa saúde econômica do país, que "é forte e é um motor econômico e uma âncora para a estabilidade da Europa", mas insistiu nas "limitações" objetivas para ajudar as economias mais afetadas pela crise.
Como obstáculo adicional, Merkel duvidou da "constitucionalidade" de algumas propostas de solução por parte de seus parceiros. A Europa "deve obedecer a suas próprias regras". Seu tom taxativo se dirigia aos que consideram que a dureza alemã é uma jogada estratégica antes de negociar com seus sócios europeus. Mas ela se referiu à "tarefa hercúlea" de avançar para uma maior integração política que sustente a união monetária, impedindo novas crises como a atual. Os acordos alcançados não bastam para que a Alemanha responda pelas dívidas de seus sócios.
A tarefa de integrar a Europa "será longa, difícil e esforçada", segundo salientou, enumerando os adjetivos com os dedos. Mas "devemos romper o círculo vicioso de endividamento e infrações aos acordos comuns". Merkel vê a Europa em "uma corrida com os mercados", que está sendo travada "dia após dia". Por isso, segundo disse, "o pacto fiscal é importante como primeiro passo na harmonização europeia". Pela enésima vez, a chanceler recitou seus dois lemas de prosopopeia europeísta: "A Europa é nosso destino e nosso futuro" e "Se o euro fracassar, a Europa fracassará".
Para evitar semelhante cenário, Merkel pediu o envolvimento de "todos, na Europa e fora dela". Com isto respondia indiretamente a seus críticos transatlânticos, com os quais se verá cara a cara na cúpula do G-20 em Los Cabos, México. O presidente americano, Barack Obama, assim como o primeiro-ministro britânico, David Cameron, pediram que Berlim aprove mais medidas extraordinárias para lutar contra a crise.
As pressões americanas não conseguiram mover Merkel, mas contribuíram para a tensão em um governo alemão cada vez mais influente, mas paradoxalmente também mais isolado no olho do furacão da crise continental que açoita alguns de seus principais parceiros. Um estudo recente do banco Crédit Suisse revela que a Alemanha arrisca mais de 400 bilhões de euros nos diversos fundos de estabilidade europeus, dos quais mais de 110 bilhões já estão comprometidos.
Somando-se a essas quantias a queda das exportações provocada pelos problemas do euro, não é de estranhar que o chefe da oposição no Bundestag, o social-democrata Frank-Walter Steinmeier (SPD), advertisse os alemães de que "a crise já chegou" a seu país. Steinmeier acusou Merkel de passividade diante dos problemas europeus e de não prestar atenção ao "segundo pilar" da recuperação, que é "o crescimento e a luta contra o desemprego".
Londres pede que Grécia deixe o euro
O ministro britânico do Tesouro e chanceler do Exchequer, George Osborne, defendeu nesta semana que a Grécia abandone o euro e pôs sobre a mesa uma proposta com quatro pontos para acabar com a crise da moeda europeia: solidariedade, recursos comuns, união bancária e, como corolário, união fiscal. Naturalmente, tudo isso entre os países da zona do euro e oferecendo garantias aos demais de que as decisões que afetam o mercado interno serão tomadas pelo conjunto da UE, e não só pelos países do euro.
"A solução na zona do euro não tem por que ser o completo desenvolvimento de uns Estados Unidos do Euro, mas se quiser ter êxito deve incluir a maioria dos mecanismos que fazem funcionar outras moedas em países como Reino Unido e EUA", disse.
E passou a enumerar esses mecanismos: mais apoio das economias mais fortes para ajudar o ajuste das mais frágeis; mais colocação em comum dos recursos, seja através de eurobônus ou outros mecanismos; uma barreira compartilhada para o sistema bancário para fortalecer os bancos e proteger os depósitos, que mais adiante definiu como união bancária na zona do euro. E, em consequência de tudo isso, uma supervisão coletiva muito mais estreita das políticas fiscais e econômicas.
Na linha das declarações anteriores, embora de forma mais explícita que nunca, Osborne defendeu a conveniência de que a Grécia abandone o euro. "O paradoxo político que a Europa enfrenta hoje é este: algumas ou todas essas coisas são necessárias para que os países da zona do euro consigam que sua moeda funcione, mas talvez a Grécia tenha que sair para que isso possa ocorrer. Essa é uma decisão da zona do euro e da Grécia." "Chegou a hora de tomar decisões", acrescentou.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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