Temor e incerteza permeiam a vida dos gregos
Rachel Donadio - NYT
Em qualquer outro lugar, talvez aqueles fossem sinais de progresso: o trânsito andando mais rápido em ruas antes engarrafadas. O tabagismo em forte queda. Muito menos lixo sendo levado para os depósitos diariamente.
Mas estamos em Atenas, e as estatísticas são lembretes sombrios de uma classe média em rápido declínio. Muitos temem que as eleições, inclusive a votação marcada para este domingo (17), não ofereçam um caminho claro para a saída da crise política e econômica crescente. De seus subúrbios ricos ao Norte até as quadras de concreto no centro, há uma sensação de fim de jogo em Atenas.
"São os últimos dias de Pompeia", diz Aris Chatzistefanou, codiretor da "Debtocracy", um documentário provocativo de 2011 sobre a crise da Grécia, enquanto bebia um café em Exarchia, um bairro vibrante, coberto de grafite, cuja vida noturna continua sendo um raro bolsão de desafiadora alegria, diante da melancolia generalizada.
Para muitos gregos, a questão não é qual partido vencerá. Os próximos meses e anos serão difíceis, independentemente de qual seja o governo. Cada vez mais, eles se perguntam se conseguirão sair da crise com um futuro seguro. Giorgos, economista de 27 anos que não quis revelar seu sobrenome, disse que o sentimento de incerteza é opressor.
"Há uma depressão no povo grego, em todos meus amigos", disse Giorgos, que adiou planos de abrir uma loja de sorvete de iogurte. "Eles dizem sempre: 'Não aguento mais'. Há depressão com o trabalho, depressão no noticiário, depressão sobre a situação econômica, depressão em casa, depressão e briga entre amigos".
Ele tinha acabado de voltar de Munique, na Alemanha, onde, como muitas pessoas dos países altamente endividados, foi abrir uma conta no banco. "Não quero transferir todo meu dinheiro, mas se algo der errado aqui, não quero ficar pobre da noite para o dia", disse ele.
No metrô de Atenas, os cartazes de "Apocalypse", anunciando uma apresentação do Livro da Revelação na ilha de Patmos, capturam o ambiente de desespero. Na iluminada livraria Eleftheroudakis, no centro, cópias de "Vivendo no Fim dos Tempos", de Slavoj Zizek, o crítico cultural esloveno, são exibidas em local proeminente.
Uma vendedora conta que os livros de economia e os guias de como fazer as coisas sozinho estavam vendendo muito, assim como livros de suspense escapistas e de filosofia, especialmente as obras de Arthur Schopenhauer, conhecido por seu pessimismo e sua convicção que a experiência humana não é racional ou compreensível.
Com o peso das dívidas externas, a Grécia está em seu quinto ano consecutivo de recessão. A incerteza politica e econômica levou o país a um impasse. Os salários do setor privado caíram 22,5% em 2011, de acordo com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Novos números divulgados na semana passada mostram o desemprego em 22% e chegando a quase 30% entre 25 e 34 anos.
A sensação de que o país está prestes a sofrer um caos econômico ainda maior é inescapável. Jovens com alta escolaridade estão desesperados para emigrar. As famílias estão colocando suas propriedades à venda para pagar dívidas. Os bancos pararam há muito tempo de conceder empréstimos. Conversas casuais entre amigos acabam em lágrimas.
Chatzistefanou, o documentarista, está entre os que argumentam que a Grécia deveria abandonar o euro voluntariamente e voltar à dracma, sua moeda original. As pesquisas de opinião mostram consistentemente que mais de 70% dos gregos discordam.
Segundo as pesquisas, o Syriza, partido de esquerda que rejeita firmemente os termos do pacote de resgate que evitou a falência do país, mas impôs cortes orçamentários severos e mudanças estruturais, está empatado com seu rival conservador, o Nova Democracia, levantando temores que a Grécia deixe o euro. (Por lei, as últimas pesquisas de opinião foram feitas no dia 1º de junho, duas semanas antes das eleições).
Em conferência com a imprensa, o presidente do Syriza, Alexis Tsipras, disse que o partido não pretendia "ameaçar" os credores estrangeiros da Grécia. "Vamos até eles para convencê-los que um país da zona do euro está desmoronando", disse ele.
Não há garantias que as eleições parlamentares de domingo vão fazer dissipar a nuvem que envolveu o país desde as eleições inconclusivas do dia 6 de maio. Incertos sobre o futuro, os gregos adiaram todo tipo de decisão. "Como se já não estivesse ruim por causa da recessão, as coisas ficaram completamente congeladas desde que as eleições foram convocadas. Se o mercado pudesse falar, ia implorar por um governo", disse Leftheris Potamianos, corretor imobiliário.
Com a aproximação das eleições, o país está se tornando mais polarizado politicamente entre esquerda e direita. Desde a semana passada, as conversas na Grécia se voltaram para como Ilias Kasidiaris, porta-voz do partido neonazista e anti-imigração Amanhecer Dourado, atacou fisicamente duas congressistas de esquerda ao vivo na televisão, jogando água na cara de uma e dando uma série de tapas na cara da outra.
Ele então evitou a prisão por vários dias, levando os críticos a sugerirem uma cumplicidade entre o grupo de direita e a polícia. (A polícia negou tais elos). Em uma reviravolta bizarra, Kasidiaris processou as duas congressistas que ele atacou, alegando que foi provocado.
Ainda assim, a vida continua. Diante do Parlamento dissolvido, os guardas cumprem suas coreografias, com seus kilts e sapatos com pompons. Os turistas passeiam pela Acrópole. Os cafés estão lotados. As temperaturas estão subindo, e as lojas apresentam uma vasta gama de protetores solares. Uma vendedora contou que as vendas em geral estavam baixas, mas que o protetor estava atraindo as pessoas.
"A praia é a única coisa que nos restou", disse a vendedora da loja de departamentos Hondos Center. "É de graça".
Para outros, é o futebol. Na partida de estreia da Euro 2012, a Grécia, a economia que mais encolhe da União Europeia, empatou com a Polônia, a economia que mais cresce. Os fãs se reuniram em um shopping para assistir, levantando os pulsos em desespero diante do pênalti perdido. O técnico da Grécia levou as mãos ao rosto, em um gesto que capturou o sentimento nacional. (Mas, no jogo seguinte, a Grécia perdeu para a República Tcheca).
A crise continua a erodir a economia e o padrão de vida. Os noticiários gregos informaram uma queda de 27% na coleta de lixo em Atenas e um declínio agudo no fumo, com o consumo caindo de 3,1 milhões de cigarros em 2007 para 2,3 milhões em 2011. O uso de transporte coletivo caiu em dois dígitos.
"No início, você entra em pânico, depois você entende que pode viver com muito menos", disse Nikos Hlepas, professor de administração pública da Universidade de Atenas, que disse que seu salário foi fortemente reduzido. "Você deixa de ir ao restaurante, deixa de ir à ópera. Você visita os amigos e cozinha muito mais. Tem seus aspectos positivos. Você não usa o carro. Não faz viagens". Após vários aumentos de impostos, a gasolina custa cerca de R$ 4,30 por litro.
No mercado de carnes de Atenas em recente manhã, Yiannoula e Tasos Siskos, de 52 e 57 anos e desempregados, disseram que tinham pego o metrô do subúrbio para economizar. "É a primeira vez que viemos aqui", disse Siskos. "É mais barato do que no supermercado". Ela era costureira e ele trabalhava na construção civil, e o seguro desemprego que receberam por um ano acabou. "Temos uma hipoteca, mas paramos de pagar", disse ela.
Perguntada se tinha medo do futuro, Siskos revirou os olhos e deu um longo suspiro, uma afirmativa que foi além da linguagem.
A recessão também atingiu os mais abastados. O mercado de automóveis, que antes era alimentado pelo crédito fácil, desmoronou. Com a desaceleração e fortes aumentos de impostos sobre os carros de alta cilindrada, os carros de luxo estão sendo vendidos a preços de barganha.
Na Fasta and Fashion, uma revendedora em Atenas, Dimitris Karanastasis, 31, apontou para um Porsche preto 911 turbo no showroom. "Em 2008, vendemos esse carro por US$ 210.000", disse ele. "Hoje o cliente trouxe ele de volta para ser vendido por US$ 97.000".
Os gregos parecem resignados, conscientes que sua economia está indo para trás, apesar de ainda não se saber se para os níveis dos anos 90, 70 ou 50. Perguntado, Karanastasis deu de ombros e citou uma expressão grega: "Faça de mim um oráculo e eu o tornarei rico", disse ele.
Tradutor: Deborah Weinberg
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