sexta-feira, 15 de junho de 2012

GREGOS SE PREPARAM PARA O CAOS

Às vésperas das eleições presidenciais, gregos estocam alimentos em casa e sacam dinheiro dos bancos
Eric González - El País
A Grécia tem pela frente eleições gerais, no domingo. Será a segunda vez que os gregos vão às urnas em um mês, sem grande entusiasmo. Simplesmente se preparam para qualquer eventualidade. Acelera-se a retirada de dinheiro do banco, estoca-se comida em casa e observa-se com muita atenção a crise geral do euro. O plano de austeridade quase não tem mais defensores: inclusive os conservadores da Nova Democracia, paladinos do europeísmo e do cumprimento dos compromissos, dizem que é preciso renegociar o que foi assinado.
Os cortes impostos pelos credores (Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional) demonstraram ser um fator recessivo. Quanto mais se corta o gasto, mais minguam as receitas e mais difícil é pagar a dívida. O Estado arrecadou no último exercício, de maio de 2011 a maio de 2012, 19,4 bilhões de euros, 1 bilhão a menos do que no ano anterior e 660 milhões a menos do que havia previsto. A Grécia fez o que lhe foi exigido e reduziu seu déficit primário para 2,4 bilhões, quando o objetivo era de 4,2 bilhões. Mas quando se somam a esse déficit os juros da dívida, inclusive depois do perdão de uma parte da mesma, as metas atingem níveis estratosféricos.
Segundo dados publicados na terça-feira pelo Ministério das Finanças, o Estado só está pagando salários de funcionários e aposentadorias: todo o resto foi deixado de lado, de medicamentos a afiliados à Seguridade Social até as obras públicas imprescindíveis. E mesmo assim só resta dinheiro até julho. A Inspeção do Trabalho também é pessimista. Estima que mais de um terço do emprego se refugia na economia informal e que, apesar do corte de salários de quase 25%, o trabalho no mercado negro cresce de forma constante.
Não é estranho que os cidadãos saquem dinheiro dos bancos. A agência de notícias Reuters, citando fontes das maiores entidades bancárias, disse na quarta-feira (13) que até 800 milhões de euros deixavam diariamente as contas correntes para se deslocar para títulos em dólares, bônus alemães, caixas de segurança ou esconderijos domésticos. Outras fontes reduzem a cifra de saques à metade. Em todo caso, apesar de quatro em cada cinco gregos se declararem partidários de continuar com o euro, diminui a confiança em que se possa manter a união monetária. Quem pode acumula em casa euros e provisões para o caso de a situação explodir.
Impera a sensação de que os dias que faltam para as eleições são tempo perdido. E não existe garantia de solução. Ninguém obteve uma maioria suficiente na convocação eleitoral de maio, e o perigo de um novo fiasco hoje é o maior medo. O que aconteceria se, apesar do prêmio de 50 lugares para o partido mais votado, ninguém também pudesse governar? Haveria outras eleições? Os credores exigiriam uma ditadura tecnocrática? Alguém apelaria ao exército? Não há nada previsto.
Tanto o partido conservador Nova Democracia como os esquerdistas do Syriza se declaram seguros da vitória. Não devem estar tanto assim, observadas suas manobras políticas e seus esforços para captar até o último voto indeciso. A Nova Democracia costumava prometer rigor econômico, europeísmo total e cumprimento estrito dos acordos com os credores. Hoje, porém, admite abertamente que o plano de austeridade assinado pelo governo anterior, o chamado protocolo, torna impossível pagar a dívida e anuncia uma "renegociação amistosa" com os parceiros europeus e o FMI. Algo muito parecido ao que vinha propondo Alexis Tsipras, líder do Syriza. Tsipras insiste na renegociação, mas também fala em um grande "programa para o crescimento", sem que se saiba de onde ele tirará o dinheiro para realizar investimentos públicos e ao mesmo tempo devolver as aposentadorias, os subsídios e os salários ao nível anterior aos cortes.
As pesquisas, que a lei eleitoral impede de divulgar na Grécia há duas semanas, preveem um resultado muito semelhante para Nova Democracia e Syriza. A noite da contagem poderá ser longa. Tanto a direita como a esquerda concordam, entretanto, que o contexto do euro muda com rapidez e que a crise generalizada abre um resquício de esperança para os gregos. Seu país é o que está pior dentro da zona do euro, e de fato se afundou na quebra, mas há outros envolvidos. Abriu-se inclusive a opção da intervenção "à la carte" com a ajuda aos bancos espanhóis, e nem sequer os políticos alemães podem deixar de ver que a moeda, e com ela mais de meio século de construção europeia, pode ir para o buraco em pouco tempo.
A ideia de combinar austeridade e estímulos ao crescimento (com a contrapartida de uma desvalorização do euro e uma maior inflação) já não é uma excentricidade de um grego populista como Tsipras, mas uma proposta formal de presidentes como o da França e o dos EUA.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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