sexta-feira, 15 de junho de 2012

SENHORES DA GUERRA: EUA E RÚSSIA FOMENTAM A GUERRA NA SÍRIA (E LUCRAM MUITO COM ISSO)

Enquanto os diplomatas se esquivam, Síria intensifica guerra
Natalie Nougayrède - Le Monde
O grupo de contato idealizado pelo emissário Kofi Annan provoca negociações entre russos e ocidentais a respeito do Irã. O fornecimento de armas russas a Damasco aumenta a tensão.
Para além dos gritos de indignação suscitados pela série de atrocidades na Síria, os diplomatas ocidentais têm encontrado dificuldades para esconder seu desamparo e sua impotência. Nas chancelarias esse comentário é recorrente como um refrão, já ouvido em março durante uma coletiva de imprensa conjunta do presidente dos Estados Unidos e do primeiro-ministro britânico, David Cameron: a questão síria é "muito frustrante".
Com um balanço estimado em 13 mil mortos e dezenas de milhares de torturados em prisões, desde março de 2011, o afundamento da Síria em uma "guerra civil" – termo usado por uma autoridade francesa na ONU e repetida pelo ministro francês das Relações Exteriores, Laurent Fabius - vem acompanhado de uma antologia de gestos diplomáticos que aparentemente consistem em querer reconfigurar continuamente os limites dentro dos quais o "caso" da Síria é discutido. Mas sem que, para isso, surja uma solução concreta para a tragédia.
A ideia de um grupo de contato lançada por Kofi Annan, o emissário das Nações Unidas e da Liga Árabe, agora ocupa o centro dos debates – não sem retomar uma terminologia que lembra como a crise dos Bálcãs, no início dos anos 1990, foi tratada. A França, como confirmou Fabius, durante uma coletiva de imprensa convocada às pressas para responder a um acachapante relatório da ONU sobre os martírios infligidos às crianças pelas forças sírias, apoia esse novo formato.
Mas todo o problema está em estabelecer os contornos. A Rússia, ao ver que a participação do Irã foi recusada pelos ocidentais, informou que ela consequentemente rejeitava a inclusão da Arábia Saudita. Fabius, em um comentário que enfatizava o "imbróglio" das questões do Oriente Médio, disse que o Irã, se também tivesse uma plataforma como essa, também a utilizaria como argumento na questão nuclear. Nesse caso, observou o ministro, "não somente não se avançaria na questão da Síria, como também não se avançaria na questão do armamento nuclear". Ele não mencionou outra análise, que tem circulado discretamente: a Rússia, ao insistir em que seja considerado o Irã, grande aliado de Damasco, estaria buscando um meio de desviar parte das críticas que lhe são feitas pelos ocidentais quanto à questão síria. Se o Irã for incluído, ela deixará de aparecer como a única causa da inação geral...
"Situação semelhante à do Iêmen"
Já a administração Obama parece dividida. De um lado, a ambição de incluir Moscou em uma "situação semelhante à do Iêmen" na Síria – que implicaria um afastamento negociado do presidente Bashar al-Assad, talvez por um exílio na Rússia, país cujos "interesses" na Síria seriam preservados, em troca. De outro, o banimento da mesma "parceira" russa, por ela continuar fornecendo armas ao ditador sírio.
Como Barack Obama e o presidente russo, Vladimir Putin, devem se encontrar em breve no México, paralelamente ao G20, o papel de crítico está sendo assumido pela secretária de Estado Hillary Clinton, que acusa publicamente Moscou de atiçar a guerra civil ao fornecer helicópteros de combate a Damasco no mesmo momento em que o regime passou a usar tais aparelhos contra a população. No entanto, nota-se que nesse campo Hillary Clinton praticamente não é endossada pelos dirigentes do Pentágono, que têm em mente as rotas "nórdicas" de evacuação do contingente americano do Afeganistão, para as quais a boa vontade russa é indispensável.
"Existe o fornecimento de armas, e isso dos dois lados" no conflito na Síria, comenta Fabius, que garantiu diante da imprensa que, se por ventura equipamentos militares franceses vendidos à Rússia forem encontrados na Síria, "isso nos levaria a reagir imediatamente". Na véspera, militantes de direitos humanos haviam denunciado um contrato da empresa Thales destinado a equipar tanques russos com câmeras térmicas. A França tem pedido pela suspensão total do fornecimento de armas ao governo sírio, como já havia sido feito em abril, durante uma reunião internacional sobre as sanções, organizada em Paris.
Os dirigentes franceses parecem, de qualquer forma, muito mais céticos do que certas pessoas em Washington, a respeito do advento de uma "situação iemenita" na Síria. São somente os russos capazes de realizar tal "evacuação" política de Assad? Durante seu encontro com o presidente François Hollande, no dia 1º de junho no Eliseu, Vladimir Putin em nenhum momento procurou convencer de que isso seria algo certo. Ele repetiu a seus interlocutores, em Paris e em Berlim, que ele não era especialmente afeito ao dirigente sírio, mas que todo o perigo estava no "pós-Assad", onde os russos preveem que o país cairá nas mãos de extremistas islamitas.
A Rússia, no entanto, ainda se recusa a aderir ao grupo dos Amigos do Povo sírio, que deve se reunir em Paris no dia 6 de julho, tendo como tema central a consolidação da oposição síria para fazer dela uma “alternativa possível”. Moscou prefere convocar sua própria conferência internacional.
Agora que a França pede para que o plano de Annan seja objeto de uma resolução da ONU sob o capítulo 7, para tornar sua implantação “obrigatória, sob pena de sanções muito fortes”, a ameaça de uma extensão regional do conflito parece crescer. Segundo uma fonte ocidental de alto escalão, o regime de Bashar al-Assad trouxe para a Síria, como reforços, combatentes do Hezbollah libanês.
Tradutor: Lana Lim

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