segunda-feira, 18 de junho de 2012

A GUERRA QUE NINGUÉM QUER

Falta ação para acabar com a "guerra civil" que se deslancha na Síria
Bernard Kouchner - Herald Tribune
Dizem-nos que devemos evitar a guerra civil na Síria, mesmo enquanto ela se desenrola diante de nossos olhos. Nós ameaçamos, mas não agimos. Fazemos uma reunião internacional depois da outra, mas cada uma delas produz apenas um pequeno número de sanções e comentários mais fortes.
Nos relatórios sobre Houla e Al-Kubeir, de Mazraat al-Qubeir e al-Heffa, os ministros de relações exteriores, impotentes, acrescentam seus adjetivos: os massacres são "vis", "escandalosos", "revoltantes", até "inaceitáveis". O horror se torna um exercício de vocabulário. Os abusos continuam sem nenhuma preparação militar visível para nos tranquilizar. Ou para nos alarmar.
Na realidade, ninguém quer uma guerra. Os norte-americanos têm memórias do Iraque, e o presidente Barack Obama enfrenta uma campanha eleitoral difícil. Os russos apoiam fortemente o último regime secular na região. A Europa, envolvida numa grave crise financeira, prefere a indignação televisionada – uma fachada de unidade política e protestos populares fracos. Só a Inglaterra e a França mostram algum engajamento.
Tal relutância é compreensível, dado que o Oriente Médio está sempre prestes a explodir em chamas, especialmente uma vez que esta seria uma guerra entre duas grandes correntes do Islã, xiitas e sunitas. O norte do Líbano, ao redor de Trípoli, já está envolvido em confrontos, e todas as comunidades estão armadas. Os dois aliados de Damasco – Hezbollah e Irã – recorreriam às armas. Qatar, Arábia Saudita, os Estados do Golfo – já envolvidos indiretamente no conflito – entraram na dança da morte. Nem o Egito, o maior dos países vizinhos, nem o Iraque, conseguiriam se manter fora. Nem a Turquia e Israel. Estamos preparando uma conflagração como esta para impedir a guerra civil na Síria? Não.
Sem unanimidade no Conselho de Segurança da ONU, não há recurso ao Capítulo 7, não há cobertura militar da ONU. E a Otan está em silêncio. Só alguns bravos observadores de boinas azuis correm para testemunhar os prejuízos, sempre tarde demais. E eles próprios são atacados por foguetes do Exército Sírio. O direito a intervir e a responsabilidade de proteger são parte da doutrina da ONU desde 1988 e 2005, e tornaram-se populares. Mas os direitos humanos recuaram, vítima de experimentação amadora e manobras políticas. A assistência humanitária para a Síria nem sempre chega, e o plano de paz de Kofi Annan está morrendo.
Será que a opinião pública cansada desses massacres continuará em alerta por muito tempo? Acho que não. O que acontecerá então? A urgência da crise demanda um apelo à justiça internacional, que é a companheira de viagem do direito de intervir. Isso pode parecer retórico, mas é o único caminho ainda aberto por enquanto. Sabemos que o Tribunal Penal Internacional abre casos a pedido do Conselho de Segurança, e sabemos que no momento a Rússia e a China impediriam isso.
Mas o secretário geral da ONU pode recomendar uma investigação à promotoria do TPI (Tribunal Penal Internacional). E as próprias vítimas têm o direito de entrar com um caso no tribunal. É imperativo que as apoiemos, que persistamos, que amplifiquemos seus protestos e soemos os gritos das famílias nos corredores do TPI. Todas as testemunhas precisam se apresentar. Todas as organizações de direitos humanos precisam pedir que a Justiça internacional seja cumprida. O TPI precisa iniciar uma investigação.
Nós fizemos isso, com sucesso, nos Bálcãs, na Libéria e mais recentemente na Guiné. E os signatários do Tratado de Roma devem apoiar as vítimas com todo o poder de sua diplomacia.
Na frente política, precisamos encorajar Kofi Annan a realizar uma conferência internacional com os russos, chineses e até iranianos. E não devemos fingir indignação: já estamos conversando com Teerã.
Nesse estágio, é irrealista e ilusório pedir a saída de Bashar Assad, que garantiria o fracasso. Para fazer a paz, é sempre necessário falar com o inimigo.
* Bernard Kouchner é ex-ministro de exterior da França e fundador dos Médicos Sem Fronteiras.
Tradutor: Eloise De Vylder

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