Elise Vincent -Le Monde
Joshua Lott/Reuters
Grupo
vestindo camisetas com fotos de Michael Brown aguardam sua vez em uma
fila para participar do funeral do jovem negro que foi morto durante uma
ação policial na cidade norte-americana de Ferguson, no Estado de
Missouri, na semana passada. A morte de Brown causou revolta na
comunidade negra da região e resultou em diversos protestos e prisões
Os Estados Unidos enterraram na segunda-feira (25), duas semanas após
sua morte, o jovem afroamericano Michael Brown, morto no dia 9 de agosto
por um policial branco. Seu falecimento, na pequena cidade de Ferguson
(Missouri), desencadeou mais de dez dias de manifestações e confrontos
com a polícia como o país não via há anos.
É sempre grande a
tentação de se comparar as condições das minorias visíveis na França com
a dos afroamericanos, mas na verdade, os negros dos Estados Unidos e os
negros da França são irmãos ilusórios.Primeiramente, existe a diferença numérica. Apesar da rigidez das estatísticas étnicas na França, os poucos dados oficiais permitem estimar entre 3 e 5 milhões o número de pessoas que se consideram "negras" no país (4,5% a 7,5% da população). É pouco, comparado com o peso dos 42 milhões de afroamericanos (14% da população).
Violência policial
A história entre as duas margens do Atlântico também forjou comunidades de passados extremamente distantes. Comparar as consequências de dois séculos de escravidão em solo americano com as sequelas do colonialismo francês requer muito cuidado. É grande, por exemplo, o constrangimento quanto ao tratamento reservado aos atiradores senegaleses, mas nunca houve na metrópole vagões de trem reservados aos brancos ou bebedouros proibidos aos negros, como aconteceu nos Estados Unidos até os anos 1960.Se existe um ponto em comum entre negros franceses e americanos, são suas relações com a polícia e a Justiça. Nos dois países, eles estão representados de maneira excessiva na população carcerária e nas batidas policiais. Ainda que a dimensão da violência policial na França não seja em nada comparável com a da polícia americana, nos últimos anos o abuso de poder e a falta de transparência reforçaram a desconfiança em vários bairros populares franceses.
Um grupo heterogêneo
Da mesma forma, afroamericanos e a minoria negra francesa têm em comum a triste experiência do abandono. Os últimos números do Insee, publicados em 2012, são aterradores. Mais de 35% dos lares cujo chefe de família é oriundo de imigração africana estão em situação de pobreza, contra 13% no resto da população; 25% deles e de seus descendentes residem em zona urbana problemática, contra 4% do resto da população. Sobretudo, mais de 40% declaram ter sido vítimas de discriminações nos últimos anos, um número 10% a 20% maior que entre outras minorias visíveis.Mas assim como nos Estados Unidos, os negros da França não constituem um grupo uniforme. Entre aqueles oriundos de territórios ultramarinos, por exemplo, cujos ancestrais viveram a escravidão, o índice de desemprego na metrópole é equivalente ao do resto dos franceses. Ainda que criticada, a Agência para o Desenvolvimento das Imigrações nos Departamentos Ultramarinos [DOM] – que administrou a partir dos anos 1960 e durante vinte anos a imigração dos habitantes dos departamentos ultramarinos para a metrópole – permitiu que metade deles trabalhassem hoje no funcionalismo público.
"Insiders" contra excluídos
A exemplo das diásporas magrebinas e turcas, também em dificuldades, os negros oriundos da imigração africana na verdade precisaram lidar com duas pressões que os afroamericanos não encontraram: a imigração – uma angústia em si – e a crise econômica pós-1973. A maioria chegou à França após a Segunda Guerra Mundial. Então a primeira geração mal teve tempo de juntar dinheiro, antes que a virada do crescimento entravasse a ascensão de seus filhos, uma situação que só agravou o racismo crescente.Os motivos das dificuldades dos afroamericanos são quase inversos. Em um país onde ele é uma virtude cardeal, o liberalismo oferece às minorias que partem do nada mais oportunidades do que o sistema francês, superprotetor dos "insiders" em detrimento dos excluídos. Portanto, o infortúnio dos negros americanos foi menos terem sido vítimas desse sistema liberal do que terem sido afastados dele por causa do racismo e da segregação.
A expansão de uma elite
Mas muitos negros franceses olham com inveja para seus "irmãos" americanos. As persistentes agruras da classe baixa afroamericana tendem a ser ofuscadas pela máquina de sonhos alimentada pela afirmação progressiva de uma elite negra, simbolizada pela eleição de Obama. Essa elite é antiga: nascida com os negros livres durante o período escravagista, ela se ampliou com o movimento dos direitos civis e a discriminação positiva – ainda que esta última tenha favorecido mais a classe média do que os pobres.Na França também está surgindo uma classe superior negra, mas o fenômeno é mais recente. Sua expansão se deve ao efeito combinado da renovação geracional e do aumento no número de estudantes estrangeiros (mais de 25 mil por ano), com o crescimento do continente africano.
Essa "elite", no entanto, tem se expandido pelo menos tão rápido quanto a marginalização dos mais pobres. O caso Brown revelou a necessidade de se tirar os afroamericanos o mais rápido possível do círculo vicioso da exclusão. Para os negros da França, o mais urgente é evitar que eles se afundem ainda mais nele.
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