terça-feira, 2 de setembro de 2014

Ku Klux Klan anuncia procura por novos membros na elite de Nova Iorque
Al Baker - NYT
Reprodução
Região dos Hamptons, o balneário preferido dos nova-iorquinos Região dos Hamptons, o balneário preferido dos nova-iorquinos
Ao longo das estradas bucólicas deste portão trabalhador para os mais opulentos Hamptons, os moradores concordam: não há nada sofisticado a respeito do esforço da Ku Klux Klan para recrutar novos membros.
Os panfletos que o grupo vem distribuindo parecem ter sido feitos no porão de alguém, impressos em papel amassado em uma impressora precisando de tinta. Eles são colocados em sacolas plásticas de sanduíches, juntamente com algumas balas Jolly Rancher, que servem como pesos, e atirados em frente às casas na calada da noite.
Entre os recebedores estão imigrantes latinos –o próprio alvo da campanha da Klan.
"Eles não pensaram muito sobre onde deveriam realmente fazer a campanha e onde não deveriam", disse Karen Fritsch, 56 anos, cujo marido descobriu um pacote dos Cavaleiros Brancos Leais da Ku Klux Klan no mesmo dia em que seus vizinhos, imigrantes colombianos, receberam o deles. "Se você é um grupo organizado com uma intenção, por que o jogaria em qualquer lugar?"
A distribuição de panfletos, do final de julho ao final de agosto, tem se limitado a duas ou três ruas e apesar de vários moradores terem encontrado os panfletos, apenas quatro se queixaram às autoridades.
Além de um formulário de recrutamento e um desenho rudimentar, havia uma "Introdução à Plataforma e Princípios" do grupo.
Isso inclui apoio "à lei nacional contra a prática da homossexualidade", ao posicionamento de tropas americanas "em nossas fronteiras para impedir a entrada de imigrantes ilegais" e à promoção de "nossa cultura (branca) europeia singular".
Como se trata de liberdade de expressão protegida pela Constituição, disse a polícia de Southampton, não há crime.
Dada a história da KKK como grupo de ódio, a polícia, autoridades eleitas, clero, defensores de imigrantes e vizinhos estão preocupados, em parte pelas lembranças do histórico de Long Island de atritos raciais nunca estarem longe da superfície.
Há duas décadas, Hampton Bays foi cenário de um esforço de panfletagem durante um momento de muitos crimes raciais por toda Long Island, que levaram à formação de um força-tarefa local antipreconceito.
E à medida que o grande número de imigrantes do México e da América Central, interessados em preencher as vagas de trabalho braçal nos setores agrícola e de serviços na região, transforma a demografia local, o afluxo às vezes provoca episódios terríveis.
Em setembro de 2000, dois diaristas mexicanos foram atraídos até um prédio abandonado por dois homens brancos, apunhalados e espancados com ferramentas, no que os promotores disseram ter sido um ataque com motivação racial. Um adolescente branco foi condenado pelo assassinato de um imigrante latino, Marcelo Lucero, em um ataque em 2008 em uma estação de trem que se tornou emblemático de crimes semelhantes contra latinos recém-chegados.
Neste ano, à medida que os panfletos apareciam nas propriedades em Hampton Bays, muitos levantaram a mesma questão: por que agora?
O deputado Timothy H. Bishop, um democrata que representa grande parte de Suffolk County em Long Island, notou que centenas de crianças desacompanhadas, detidas na fronteira com o México, foram enviadas para Suffolk County.
"Eu não estou associando os dois fatos", disse Bishop. "Só estou dizendo que é a única coisa nova que posso citar, nessa área de imigração, que poderia gerar atividade da Ku Klux Klan."
De fato, Robert J. Jones, que chamou a si mesmo de grão-dragão dos Cavaleiros Brancos Leais, que tem sede na Carolina do Norte, disse em uma entrevista que sua organização esteve por trás da campanha em Hampton Bays e que ela foi motivada pelo aumento da entrada de imigrantes no país.
"Muitos americanos já estão cheios da imigração", ele disse. "Esse problema da imigração, a entrada de imigrantes na América, está destruindo este lugar."
Esforços semelhantes estão em andamento por todo o país, disse Jones. Em Hampton Bays, disse Jones, o trabalho está sendo feito por um "ciclope exaltado ativo" de 32 anos, um homem que ele não quis identificar, mas que, segundo ele, vive na cidade, onde dirige uma klavern, ou divisão local, que é uma das três no Estado de Nova York.
Várias pessoas, disse Jones, enviaram o formulário preenchido para o endereço listado nos folhetos, em Pelham, Carolina do Norte, ou ligaram para o telefone indicado.
"Eu nunca vi a Klan se expandindo tanto quanto agora", ele disse.
Apesar do sucesso alegado por Jones, a KKK atualmente é um grupo débil, segundo aqueles que monitoram grupos de ódio. As inscrições na Klan por todo o país são de cerca de 5 mil distribuídos em mais de uma dúzia de grupos, disse Mark Potok, um membro do Southern Poverty Law Center. Em comparação, a Klan tinha cerca de 4 milhões de membros em meados da década de 20, quando foi unificada.
O Cavaleiros Brancos Leais, formado em 2012, é o maior grupo da Klan no país, disse Potok, mas os vários grupos costumam disputar e brigar por membros. Ele disse que os grupos estão usando o debate da imigração para chamar atenção.
"É quase como se estivessem recebendo a mensagem da narrativa existente", disse Potok, "É oportunista."
A irmã Mary Beth Moore, que dirige o Centro Coração de Maria, um grupo de defesa sem fins lucrativos com sede em Hampton Bays, considerou a distribuição de panfletos como "algo desagradável" e "perturbador", mas apenas outro problema enfrentado pelos imigrantes locais.
Muitos imigrantes vivem na pobreza, ocupam "os imóveis mais modestos" e enchem as escolas públicas com crianças que têm dificuldade para ler e falar inglês, ela disse.
À medida que o número deles cresce nesta cidadezinha de 13 mil, o atrito entre os nascidos no exterior e os antigos moradores –a maioria cidadãos de Long Island de classe média e aposentados com renda fixa– se torna palpável.
"Eles não são aceitos", disse Moore. "Há tensão, particularmente em Hampton Bays, porque é a mais pobre dos Hamptons, e as pessoas aqui vivem de modo modesto. Elas se sentem exploradas, porque temos a maior população de latinos."
Anna Throne-Holst, a supervisora municipal de Southampton, disse que a panfletagem "não reflete a comunidade em que vivemos". Mas ela acrescentou que não pode ser ignorada, e os líderes municipais estão considerando a realização de um comício. "Certamente é ofensivo", ela disse.
É assim que vê Andrea Londono, 17 anos. Suas mãos tremiam enquanto permanecia no lado de fora de sua casa na quinta-feira, segurando os panfletos que seu pai encontrou ali dias antes.
Seu pai, Carlos, 58 anos, veio da Colômbia para os Estados Unidos em 1984, trabalhou como lavador de pratos, depois em empregos em construção e comprou a boa casa de estuque da família aqui há oito anos. Ele se orgulha de Andrea estar concluindo o ensino médio e ter planos de estudar astrofísica na faculdade.
A tinta no panfleto estava borrada e as palavras um pouco apagadas. Mas Andrea entendeu o desenho rudimentar de três homens, um judeu, um afro-americano e um latino, acima das palavras: "Nós queremos seus empregos – Nós queremos suas casas – Nós queremos seu país".
"Isso é vil", disse Londono, ao lado de sua irmã, Carina, 10 anos, e do pai delas na entrada da garagem deles na Columbine Avenue. "É realmente um estereótipo", disse Andrea, "e não tem nada a ver com as pessoas que conheço".
Tradutor: George El Khouri Andolfato

Nenhum comentário: