sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Alemanha se prepara para lidar com combatentes do EI que retornam ao país
Jörg Diehl, Hubert Gude, Jörg Schindler, Fidelius Schmid e Wolf Wiedmann-Schmidt - Der Spiegel
Thomas Kienzle/AFP
Os cinco meses que Kreshnik B. (à dir.) passou na Síria lutando pelo Estado Islâmico são agora tema de um julgamento em Frankfurt. Ele é acusado de se filiar a uma organização terrorista e de "preparar um ato grave de subversão violenta" Os cinco meses que Kreshnik B. (à dir.) passou na Síria lutando pelo Estado Islâmico são agora tema de um julgamento em Frankfurt. Ele é acusado de se filiar a uma organização terrorista e de "preparar um ato grave de subversão violenta"
Centenas de islamitas radicais da Alemanha foram para a Síria e o Iraque para lutar pelo Estado Islâmico (EI). Muitos voltaram para casa desde então. Agora o sistema judiciário do país está se preparando para as batalhas legais que virão - e enfrentando uma miríade de desafios.
Os jogadores do TuS Makkabit Frankfurt lembram-se de Kreshnik B. como um zagueiro confiável. Como integrante do time-B juvenil do clube judaico de futebol, ele confrontava jogadores longe de sua área e até chutava a gol de vez em quando. Kreshnik B., que é muçulmano, gostava de usar a camisa azul do time, apesar de ela estar decorada com letras hebraicas e a estrela de Davi. "Ele tinha orgulho de entrar em campo com a estrela", diz o líder do clube Alon Meyer.
Menos de três anos depois de jogar para a equipe, Kreshnik trocou o campo de futebol pelo campo de batalha. Em nome de Alá, ele supostamente se juntou à organização radical Estado Islâmico na luta para estabelecer um califado islâmico no Oriente Médio. "A jihad hoje em dia é um dever individual", ele escreveu para sua irmã do Oriente Médio e pediu que ela rezasse para que ele pudesse sucumbir como um mártir. "Estou curtindo, lutando, cumprindo minha missão por Alá. Pego meu Kalashnikov e bismillah [em nome de Deus]", ele rimou.
Os cinco meses que Kreshnik B., agora com 20 anos, passou na Síria lutando pelo Estado Islâmico são agora tema de um julgamento que começou em Frankfurt na segunda-feira. Ele é acusado de se filiar a uma organização terrorista e de "preparar um ato grave de subversão violenta".
Seu julgamento marca a primeira vez que um suposto combatente do Estado Islâmico se apresenta diante de um tribunal alemão. Não será a última. O número de jihadistas que deixaram o país para ir à Síria, junto com o número de apoiadores do Estado Islâmico na Alemanha, já é bem maior do que era durante o conflito no Afeganistão. Atualmente, há cerca de 140 investigações em curso na Alemanha contra combatentes ou apoiadores do Estado Islâmico. E o número está crescendo. Promotores públicos federais assumiram 33 casos envolvendo mais de 60 suspeitos, mas a enxurrada de casos começou a entupir o sistema por todo o país.
Políticos também começaram a considerar formas de impedir os jihadistas e sua propaganda cada vez mais ousada que promove a "guerra santa". Na sexta-feira passada, o ministro de interior da Alemanha, Thomas de Maizière, tornou ilegal qualquer forma de apoio ao Estado Islâmico, e uma associação de grupos de trabalho do estado de Hesse sob a liderança do ministro de interior estadual está atualmente buscando formas de prevenir que jovens muçulmanos entrem para o cenário militante islamita. O objetivo é combater o aumento constante do número de jovens muçulmanos que se juntam à jihad.

"Diga à mãe que ela não precisa ter medo"

Sob muitos aspectos, Kreshnik B., filho de refugiados de Kosovo, é um típico representante da jihad "Made in Germany". A acusação alega que ele embarcou em Frankfurt em um ônibus com destino a Istambul com outros seis em 2013. De lá, eles seguiram para a Síria.
Eu não ligo para qual grupo eu vou acabar lutando", escreveu Kreshnik para sua irmã durante a jornada. "O mais importante é que eu lute pela Sharia e que eu possa realizar muitos feitos para servir a Deus". O destino quis que ele se juntasse ao Estado Islâmico próximo à cidade síria de Aleppo.
Outros grupos extremistas se recusavam a aceitar homens inexperientes do Ocidente, a maioria dos quais não falava árabe. Mas o Estado Islâmico admitiu quase todos eles, como alimentadores de canhões, homens-bomba ou, se fosse necessário, como reféns para conseguir dinheiro com resgate.
Kreshnik B. passou por um programa de treinamento com armas, cumpriu turnos como guarda e lutou. Na Alemanha, seus pais foram à polícia e estavam aparentemente prontos para viajar para a Síria para convencer seu filho a voltar para casa. "Diga à mãe que ela não precisa ter medo, porque carrego minha arma comigo", escreveu Kreshnik para a irmã.
Mas a diversão da jihad não durou muito. Logo, Kreshnik começou a reclamar para sua irmã de estar sendo atormentado pelo comandante, de brigas e tediosos turnos de vigília. Um dia, ele contou, "três ou quatro pessoas" de seu grupo morreram. Nós "atiramos em tanques e tentamos de tudo, mas nada funcionou".
Então, o chefe do grupo chegou e disse: "preciso de quatro pessoas para ira para lá, que não voltarão vivas". O jihadista alemão não estava preparado para uma missão desse tipo e voltou para Frankfurt em 12 de dezembro de 2013, onde foi preso.

Parte do movimento salafista

O que exatamente impulsiona leva pessoas como Kreshnik B. a arriscarem suas vidas em guerras distantes foi, durante muito tempo, um mistério para as autoridades alemãs. Mas oficiais de segurança recentemente elaboraram um relatório de 18 páginas examinando o processo de radicalização. Ele fornece algumas respostas iniciais, e suas descobertas, em alguns casos, são surpreendentes.
O relatório observa que, entre as 378 pessoas que foram para a Síria com "motivações islamitas" até o fim de junho, mais de 40% eram mulheres. Dezesseis eram menores, e os mais novos tinham acabado de fazer 15 anos. Quase dois terços nasceram na Alemanha e cerca de metade partiu com a intenção de se juntar à jihad. As autoridades acreditam que a grande maioria, 84%, pertençam ao movimento salafista.
Ao contrário do que se poderia pensar, nem todos os muçulmanos radicais alemães estavam à margem da sociedade ou eram pessoas sem futuro. Mais de 100 deles haviam se formado antes de partir, sendo que 41 haviam completado o Abitur, o curso preparatório para a universidade na Alemanha. Quarenta e três estavam matriculados em universidades.
O "fator mais importante para a radicalização" são os amigos, revelou o estudo. Em 114 casos, eles tiveram um efeito significativo sobre aqueles que partiram para se juntar à jihad. De fato, descobriu-se que o círculo de amigos de um jihadista é mais importante do que o trabalho dos recrutadores ou dos pregadores radicais nas mesquitas salafistas. Em dois terços dos casos, a internet desempenhou um papel importante no processo de radicalização.
Fica evidente que o relatório, encomendado pelo Ministério do Interior, não oferece ideias de como lidar com o número crescente de islamitas fanáticos. O fato de que levou mais de um ano para que a vasta maioria se radicalizasse - teoricamente fornecendo tempo suficiente para intervir - oferece um vislumbre de esperança. Mas os familiares, amigos não-islamitas, professores e assistentes sociais só percebem raramente as mudanças sutis que ocorrem nas pessoas próximas que se radicalizam.

"Eu amo mais a Alá"

Ismail I. é uma espécie de exceção - sua transformação aconteceu extremamente rápido. Ele provavelmente será o próximo alemão a responder diante de um tribunal por ter supostamente se juntado à jihad na Síria. O julgamento está marcado para começar no final de outubro em Stuttgart.
O rapaz de 24 anos, nascido do Líbano, não teve muito sucesso em sua vida. Ele conseguiu se formar no segundo grau, embora em uma Realschule mais fraca, mas não conseguiu encontrar um estágio depois. As drogas e o ócio o levaram a ser expulso de um colégio vocacional, depois do que ele trabalhou por períodos curtos em uma padaria e numa franquia do KFC em Stuttgart. Seu casamento durou apenas alguns meses.
Ismail I. então conheceu várias figuras importantes do cenário salafista da Alemanha, incluindo o pregador Sven Lau, que recentemente ganhou as manchetes por enviar uma "Polícia da Sharia" para patrulhar Wuppertal. Depois de participar de uma peregrinação com Lau, acredita-se que Ismail I. tenha viajado de Dusseldorf para a cidade turca de Gaziantep em 22 de agosto de 2013. De lá, ele teria entrado em um ônibus em direção à fronteira síria. Ele deixou uma carta para sua família que dizia: "Amo vocês, mas amo mais a Alá."
Na Síria, ele supostamente teria se juntado ao Jaish al-Muhajireen wal-Ansar, um grupo de combatentes muçulmanos dominado por tchetchenos que se fundiu ao Estado Islâmico durante o ano passado.
No outono de 2013, Ismail I. aparentemente voltou para Suttgart sob ordem do grupo. Lá, ele saiu às compras para a guerra, adquirindo grande quantidade de roupas camufladas, aparelhos de visão noturna, bisturis e Celox, um medicamento que desacelera o sangramento. Por 850 euros, ele também comprou um carro velho com o qual ele e um ajudante planejavam levar suas compras de volta à Síria. Mas eles não chegaram muito longe. Foram presos em 13 de novembro em uma área de descanso da rodovia entre Stuttgart e Ulm.
O caso de Ismail I. ilustra o desafio que o poder judiciário alemão enfrenta à medida que aborda a confusa guerra civil da Síria a 3 mil quilômetros de distância. Vários grupos diferentes, subgrupos e sub-subgrupos estão envolvidos no conflito e não é fácil dizer quais são afiliados ao Estado Islâmico.
Os promotores federais, que acusaram Ismail I. em maio, precisam conduzir investigações precisas. Eles são responsáveis por todos os casos relacionados a crimes cometidos por afiliação ou apoio a uma organização terrorista estrangeira.

"Desafios singulares"

A história mostrou que muitos desses julgamentos duram mais do que um ano. Oficialmente, a promotoria federal os descreve como "desafios singulares para as investigações criminais". Não oficialmente, os promotores federais recentemente alertaram Ministério da Justiça - se o número desses casos continuar crescendo, a promotoria cedo ou tarde ficará sobrecarregada.
No caso de Kreshnik B., está sendo negociado um acordo que pode oferecer algum alívio para todos os envolvidos. O tribunal indiciou esta semana que Kreshnik B. pode pegar uma sentença leve caso forneça uma confissão ampla. Antes do julgamento, seu advogado de defesa e os promotores teriam se encontrado com o juiz para abrir o caminho para tal acordo. De qualquer forma, dada a possibilidade de que Kreshnik B. seja condenado pela lei juvenil, sua sentença não deverá ser severa. O advogado do réu, Mutlu Günal, disse à Spiegel que está aberto a um acordo.
Mas os formuladores de políticas enfrentam um desafio ainda mais difícil do que os juristas no que diz respeito aos turistas da jihad. Oficiais acreditam que 120 pessoas voltaram da Síria para a Alemanha até agora, mas em muitos casos não está claro o que a pessoa em questão estava fazendo na Síria - se lutou ou não e para quem. Mais importante que isso, não está claro em todos os casos se eles representam uma ameaça agora que voltaram para a Alemanha. O relatório compilado por oficiais de segurança observa que apenas duas dúzias dos que voltaram estão "cooperando com as autoridades". Os outros se recusam a falar - e se recusam a responder se têm a intenção de trazer a luta do Estado Islâmico para a Alemanha.
Os responsáveis pelas diretrizes políticas falaram recentemente em "banir" o Estado Islâmico na Alemanha. Mas para fazer isso, é necessário provar que o grupo construiu estruturas semelhantes a uma agremiação no país - o que ainda não aconteceu. Na última quinta-feira, oficiais de inteligência de todo o país fizeram uma teleconferência para discutir que regras devem ser colocas em prática. No dia seguinte, o ministro de Interior Mazière anunciou que todos os atos de apoio ao Estado Islâmico serão banidos.
Resta ver se a proibição será eficaz na luta contra os ativistas do Estado Islâmico. O decreto certamente ajudará a prender por até dois anos apoiadores individuais do Estado Islâmico caso eles exibam a bandeira do grupo, usem seus símbolos ou divulguem seus vídeos de propaganda na internet. Mas banir o Estado Islâmico como um grupo não é possível porque um ainda não existe um grupo formado na Alemanha. Assim, Maizière está operando em uma área cinzenta da lei. "Queremos cortar pela raiz o estabelecimento de estruturas de terror organizadas", disse ele na semana passada.

"Efeito desencorajador"

Outro problema é a necessidade de estabelecer uma fronteira clara entre os logos do Estado Islâmico e os símbolos da fé muçulmana. Nos casos individuais, isso pode ser complicado, um motivo pelo qual a proibição permaneceu sob consideração por tanto tempo. "Queríamos garantir que não ofenderíamos as sensibilidades religiosas dos muçulmanos", disse Maizière. Ele espera que o decreto agora tenha um "efeito desencorajador".
Outras propostas foram ainda mais além. Uma que é particularmente popular entre os membros dos Democratas Cristãos da chanceler Angela Merkel seria estabelecer uma cláusula ao código penal que já foi usada antes para combater o terrorismo do grupo esquerdista alemão Rote Armee Fraktion (RAF).
"Temos mais uma vez que criminalizar a solicitação de simpatia a organizações terroristas", diz o especialista em política interna do CDU, Armin Schuster. "Isso provavelmente atingiria mais duramente os apoiadores do Estado Islâmico na Alemanha."
A oposição em Berlim, contudo, continua rejeitando um endurecimento maior das leis antiterrorismo. Já existem "instrumentos suficientes disponíveis para impor proibições e limitações" sobre os terroristas e seus apoiadores, diz a especialista em política interna do Partido Verde Irene Mihalic. "Eles só precisam ser aplicados com mais rigor."
Tradutor: Eloise de Vylder

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