Aqueles que dizem que a sociedade árabe muçulmana não está pronta para a democracia deveriam se lembrar das ditaduras europeias do século 20
Alaa Al Aswany - TINYT
Thomas Hartwell/AP
Especialistas divergem sobre a possibilidade de uma democracia na sociedade árabe muçulmana
"Soprei alguns anéis de fumaça enquanto me lembrava daquela época. A
maconha ajudava, e a cerveja; talvez um tirinho quando tinha dinheiro...
E se o barato não resolvia o que quer que estava me deixando pra baixo,
pelo menos ajudava a rir da loucura do mundo e enxergar através de toda
hipocrisia, papo furado e moralismo barato."
Este testemunho
não vêm de um ex-viciado ou de um artista boêmio, mas da autobiografia
do presidente Obama, "A Origem dos Meus Sonhos". Ele não tem vergonha de
confessar que, nos momentos de fraqueza, recorria ao uso de drogas, mas
então saiu daquele túnel escuro por vontade própria e começou a
construir o caminho que o levaria à Casa Branca.
Como milhões,
eu fiquei entusiasmado quando Obama se tornou o primeiro presidente
afro-americano. Mas talvez também como outros milhões, minhas esperanças
foram desapontadas por seu desempenho no governo, particularmente em
relação ao Oriente Médio. Ainda assim, sua autobiografia continua sendo
uma comovente peça literária, e contém uma lição importante.Seria impossível ler uma confissão semelhante à de Obama vinda de um governante árabe. Os governantes árabes não costumam escrever autobiografias, mas quando o fazem, não falam de nada além de seu próprio heroísmo e conquistas históricas. Você jamais leria sobre suas loucuras e fraquezas pessoais.
Um exemplo disso é o presidente que governou o Egito de 1970 a 1981, Anwar el-Sadat, que publicou um livro de memórias. Na introdução, ele elogia a si mesmo dessa forma: "Cada passo que dei ao longo dos anos foi pelo bem do Egito, e foi concebido para servir à causa da justiça, da liberdade e da paz."
A diferença entre as abordagens dos dois presidentes em relação à autobiografia reflete a diferença entre seus sistemas políticos. Um presidente em uma democracia é um funcionário público que trabalha a serviço do povo; este último examina suas ações e o obriga a responder por seus atos. Um ditador, por outro lado, posiciona-se como um herói nacional e um líder inspirador - acima das críticas e da responsabilidade. O mundo árabe já teve mais ditadores do que a parte que lhe cabia.
Quanto tempo essas autocracias resistirão? Desde 2011, a revolução irrompeu em vários países, para estabelecer, na esperança de alguns, uma ordem democrática. Mas será que a sociedade árabe muçulmana está pronta para isso?
Os extremistas islâmicos, certamente, não acreditam na democracia. O Partido da Libertação Islâmica (também conhecido como Hizb ut-Tahrir), de atuação global, argumenta que há vários pontos fundamentais de incompatibilidade entre o Islã e a democracia. A maioria dos extremistas islâmicos compartilha desta visão; no momento em que tomam o poder, estabelecem uma teocracia quase fascista.
Um professor de estudos do Oriente Médio na Universidade de Haifa, David Bukay, argumentou que "o mundo islâmico não está pronto para absorver os valores básicos da modernidade e democracia" porque "os direitos e liberdades individuais inerentes à democracia não existem em um sistema onde o Islã é a fonte máxima da lei". Por sua vez, o intelectual iraquiano Abdel Khaleq Hussein considera que a cultura árabe islâmica impõe um padrão de relações patriarcais abaixo da autoridade absoluta da figura do pai, que também é o chefe tribal. Nessa visão, o estado árabe é uma extensão da tribo.
Outros pensadores argumentaram, ao contrário, que o Islã não é menos compatível com a democracia do que qualquer outra religião. A principal organização de pesquisa em direito do Egito, Dar al-Ifta, publicou um estudo em 2011 afirmando que, enquanto sistema de governo, a democracia é coerente com os princípios islâmicos. Onde está a verdade entre essas opiniões contraditórias?
A acusação de que os árabes e muçulmanos não estão prontos para a democracia é menos uma hipótese científica do que uma declaração preconceituosa. Não nos esqueçamos de que alguns dos mais notórios ditadores do século 20, que detiveram o poder por décadas em países avançados do Ocidente, eram europeus e não muçulmanos: Antonio de Oliveira Salazar de Portugal, o general Francisco Franco da Espanha, e Nicolae Ceausescu da Romênia. Ditaduras existiram tanto no Ocidente quanto no Oriente, independentemente da cultura ou da religião.
Então por que um ditador emerge e como ele faz o povo se submeter à sua vontade? Em seu livro de 1895 intitulado "A Multidão: Um Estudo da Mente Popular", o psicólogo social francês Gustave Le Bon escreveu que as multidões, em oposição aos indivíduos, não têm capacidade de pensar e em vez disso agem impulsivamente. Dessa forma, uma multidão precisa de um líder para controlá-la e incentivá-la à ação, quer para feitos de heroísmo ou de criminalidade. Em sua obra "Discurso da Servidão Voluntária", o pensador francês do século 16 Étienne de La Boétie escreveu que a persistência das ditaduras se deve não ao poder ou o prestígio de um ditador, mas ao fato de as pessoas renunciarem a seu direito à liberdade. Ele comparou esta subserviência a uma doença. Com a passagem do tempo, La Boétie argumentou, o ditador pode até fazer as pessoas se acostumarem à ideia de um poder hereditário.
A única cura para tal submissão, escreveu La Boétie, é o surgimento de uma nova força social para reiniciar a luta por liberdade. No Egito, foi necessária uma nova geração, que tinha uma perspectiva diferente e se agitou para a reforma, para derrubar o presidente autocrático Hosni Mubarak em 2011.
Aparentemente, contudo, as pessoas com a doença da subserviência precisam de um período de convalescença para que a cura completa surta efeito. No Egito, há um grupo chamado "Sentimos muito, presidente", cujos membros consideram Mubarak um herói nacional. Eles se arrependem da revolução de 2011, que consieram um desastre completo - obra de filhos ingratos que se voltaram contra seu pai maravilhoso.
Esta condição não é única ao Egito. Em 2007, uma pesquisa conduzida por um canal de televisão em Portugal descobriu que 41% dos telespectadores concordavam que Salazar, que governou o país de 1932 a 1968, foi o "maior português da história".
A democracia é o corpo político com boa saúde; a ditadura é uma doença de longo prazo. As nações ocidentais já foram curadas dela, mas as nações árabes ainda estão lutando teimosamente por uma recuperação que certamente chegará.
Tradutor: Eloise de Vylder
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