Como o mundo foi conquistado: a americanização de todos os lugares
Josef Joffe - Prospect
Saul Loeb/AFP
Influência dos EUA, de Barack Obama, vai além do poderio militar e econômico do paísEm séculos passados, o alcance cultural dos poderosos terminava exatamente em suas fronteiras militares. Os impérios Romano, Habsburgo e Otomano não se irradiavam além de suas conquistas, nem tampouco o colosso soviético. Contudo, a cultura norte-americana não precisa de arma para viajar. Em termos de influência histórica, apenas a França vem à mente como uma distante segunda colocada. Nos séculos 17 e 18, sua língua, arquitetura e maneiras se estenderam bem além de suas terras, embora diferentemente da norte-americana, sua cultura jamais penetrou nas massas.
"No início", imaginou John Locke em seu "Segundo Tratado", "todo o Mundo era América". Ele quis dizer que a América não pertencia a ninguém e, portanto, à maioria. Hoje, todo o mundo é a América no sentindo do que ouve, fala, assiste, veste, dança e come coisas norte-americanas. Nós lemos livros por cortesia da Amazon e Kindle. Comunicamo-nos via Twitter e Instagram. Nós imitamos as últimas modas das escolas de administração norte-americanas e assimilamos costumes informais e a cultura jovem dos Yanks. O pós-modernismo francês se tornou o dogma du jour só depois de um desvio revigorante passando pelos departamentos de humanidades dos Estados Unidos. Pais ambiciosos sonham com Harvard e Stanford para seus filhos. Até o pobre bagel, originalmente cozido e assado na Polônia do século 15, varreu a Europa como uma genuína importação dos Estados Unidos.
Conrad é particularmente bom em cinema. O capítulo sobre "Americanofilia" leva o leitor a um tour pela história do cinema no século 20, seguida pela história de como Hollywood destronou a nouvelle vague francesa e derrubou o realismo italiano e britânico. A Alemanha não está nessa rota, uma vez que seus maiores diretores --Fritz Lang, Douglas Sirk e Billy Wilder-- tiveram o bom senso de desmontar acampamento para a Califórnia quando Leni Riefenstahl assumiu nos anos 30.
Conrad conta a história de forma elegante, usando como exemplo "À Bout de Souffle" de Jean-Luc Godard, aquele encontro trágico entre um gângster francês (Jean-Paul Belmondo) e uma estudante americana (Jean Seberg) em Paris. Belmondo "é um criminoso que aprendeu os truques do ofício com os filmes americanos" e que "imita sem sucesso [Humphrey] Bogart". O filme captura um período em que os avatares do cool existencial não era mais heróis saídos de uma peça de Jean-Paul Sartre, mas Bogey, Gary Cooper e James Dean, depois Marlon Brando e Steve McQueen. E Lauren Bacall. Não é de se surpreender que os filmes europeus nunca mais se recuperaram de verdade.
Naturalmente, a Europa, tendo dominado o mundo por meio milênio, não sucumbiu com entusiasmo. Quanto mais o hoi polloi [as pessoas comuns] preferia tudo o que era americano, mais ferozmente a intelligentsia lutava contra --como ainda faz, por exemplo, quando levanta a bandeira da "exceção cultural" nas negociações de comércio livre. O antiamericanismo sempre foi o lado B do que Sartre denunciou como "americanismo".
O mundo hoje é culturalmente mais americano do que foi no auge do poder dos EUA em 1945. Mas esta vitória avassaladora leva à pergunta: por que o "americanismo" ganhou o dia, conquistando sem guerra, mesmo enquanto a supremacia estratégica dos EUA retrocedeu no curso do século 20? Conrad alega com razão que "a América ganhou o mundo conquistando-o, às vezes com doces e jeans, e na maior parte do tempo com imagens e sons". Observe que isso não quer dizer "com a força bruta", embora a pura influência estratégica certamente desempenhou um papel essencial. Luxemburgo não atiça a imaginação do mundo. Mas nem a Rússia ou a China. Então por que os EUA? A teoria de Conrad da "América-Sedutora" é indubitavelmente parte do motivo. Também ajuda o fato de ser a primeira nação moderna do mundo --uma novus ordo seclorum, um lema tomado de Virgílio e inscrito no Grande Selo dos Estados Unidos. Verdade, os EUA começaram como um transplante da Inglaterra, copiando fielmente os costumes, leis e instituições da terra mãe. Mas ao cruzar o oceano, muitas outras coisas foram jogadas no Atlântico. Para o mar foi o feudalismo e o despotismo, bem como os grilhões das associações fechadas de comércio, regras sociais rígidas e poderes religiosos (os EUA, diferentemente de boa parte das nações, nunca teve uma religião estatal).
Aliados desse peso, os jovens americanos podiam de fato começar algo novo. Eles poderiam inventar a praticar a modernidade --aquela que os europeus eventualmente abraçariam também, quando a era democrática nasceu do outro lado do oceano. Os norte-americanos apenas chegaram lá mais rápido, e assim, por uma simples sorte histórica, estabeleceram o modelo.
O que é a modernidade se não a destruição do velho e a criação inexorável do novo, especialmente da cultura de massa que agarra o resto do mundo? Não que os norte-americanos sejam de alguma forma mais espertos que os europeus. Mas dada a liberdade dos EUA para improvisar e agir rápido, pode ser simplesmente mais fácil inventar o iPad e o YouTube, obter capital para ideias e vender o produto, do que no Velho Mundo.
Ajuda também, além disso, ser a primeira "nação universal" povoada por imigrantes que ansiavam deixar o antigo país para trás, mantendo, entretanto, suas histórias, tradições e sensibilidades. Será que os WASPs [brancos protestantes anglo-saxões] teriam se saído tão bem em interpretar o sonho norte-americano no celuloide para o resto do mundo? Os judeus russos, com um pé em cada cultura, tiveram êxito, construindo o império de Hollywood nesse processo. O dom especial de uma nação universal é uma queda por se insinuar nas mentes e desejos das outras. Basta ver o Super-Homem e um monte de outros super-heróis dos quadrinhos. Essas figuras são profundamente incrustadas na consciência humana, mas diferente de Medeia ou Aquiles, não é preciso uma educação clássica para apreciá-los.
A América é a Grande Sedutora, não um rolo compressor. A conveniência talvez seja o maior hit de exportação do país. Jeans, vidros elétricos para carros, transmissões automáticas e ar condicionado eram originalmente fabricados nos EUA. Não surpreende que o resto do mundo tenha os seguido na sociedade de massa e no consumismo. Por outro lado, ressentimo-nos daqueles que nos seduzem, da mesma forma que nos recriminamos por ceder à tentação. É por isso que, 60 anos atrás, Hannah Arendt chamou os EUA de "um sonho e um pesadelo", que a Europa queria ou temia se tornar.
Ainda assim, Conrad acerta quando conclui: "encontros na e com a América podem ser desconcertantes ou esmagadores, mas normalmente abrem os olhos e são... divertidos. É por isso que existe este lugar de auto-renovação perpétua --para confundir nossas concepções [e para] engrandecer nossas ideias." Ou apenas para nos lembrar, em um nível muito prático, de uma vida sem coisas e jeitos americanos: esta resenha foi escrita em um PC Dell, no Microsoft Word e com a assistência da pesquisa do Firefox e Google.
Tradutor: Eloise de Vylder
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