Ginia Bellafante - NYT
Gordon M. Grant/The New York Times
Estudantes deixam escola East Hampton High School, em East Hampton, Nova York (EUA)
Em uma noite da semana passada, durante o final das férias de verão,
385 pessoas chegaram aos estúdios da "LTV", uma programadora de TV a
cabo em Wainscott, no East End de Long Island, para uma reunião
municipal para discutir a crescente poluição sonora dos helicópteros
indo e vindo de Manhattan. O assunto tem acirrado os ânimos durante toda
a temporada –especialmente nas comunidades de Shelter Island, Springs e
de partes de North Fork, áreas onde grande parte do ruído é absorvido e
onde a percepção local é menos voltada à ostentação e indulgência como
em outras partes no East End.
"Em 2007, nós proibimos
helicópteros", me disse Jim Dougherty, o supervisor municipal, apontando
que nenhum de seus eleitores se queixou da proibição. "Logo, é o cúmulo
da ironia agora nos tornarmos a lixeira do aeroporto de East Hampton."O tráfego de helicópteros ao aeroporto neste verão americano aumentou perto de 40% em comparação ao ano passado, e com isso veio um aumento comparável na tensão entre os muito abastados e os excepcionalmente ricos.
"A qualidade de vida está realmente sendo deteriorada pela ganância comercial e para a conveniência das mesmas pessoas que arruinaram a economia", me disse um antigo residente de verão de Shelter Island.
"Quando olho para o alto e vejo os pequenos aviões e helicópteros, eu vejo um frota de dedos médios cruzando o céu."
Na virada do século passado, era a burguesia de Nova York e de outras grandes cidades que via gestos semelhantes de desprezo direcionados a eles pelos ricos e poderosos, os "barões do roubo", como eram apelidados, que fugiam para Saratoga e Newport em julho e agosto por seus próprios meios de transporte caros e elaborados da época, vagões privados de trem ou iates.
Richard Hofstadter, em sua obra clássica de análise histórica "The Age of Reform", publicada em 1955, argumentou que foram a repulsa e perturbação sentidas por aqueles que antes ocupavam as fileiras mais altas da ordem social em relação à nova classe substituta de banqueiros e industriais esbanjadores que, no final, permitiram o florescimento do movimento progressista. A queda de status radicalizou os antes complacentes, e a classe política se moldou porque um segmento da população tinha tanto dinheiro a ponto dos apenas respeitáveis agora poderem se identificar com os pobres de fato.
"Enfrentar a insolência do chefe local ou magnata em uma cidade onde sua família antes era proeminente era irritante o bastante", escreveu Hofstadter, "e era ainda mais difícil de suportar em um momento em que toda fortuna, toda carreira, toda reputação, parecia cada vez menor e menos significativa quando comparada aos Vanderbilts, Harrimans, Goulds, Carnegies, Rockefellers e Morgans". Um levantamento feito pelos líderes do Partido Progressista em 1912, ele notou, revelou quão esmagadoramente urbanos e de classe média eles eram. Nenhum deles era fazendeiro e apenas um vinha da classe operária.
É fácil, é claro, zombar das queixas daqueles que dirigem seus Volvos de US$ 40 mil até suas casas de verão de US$ 1 milhão contra aqueles que gastam milhares em viagens de helicóptero até suas casas de US$ 10 milhões como distinções sem diferença.
Todo outono, essa dinâmica de inveja-repulsa encontra contexto renovado no mundo das escolas particulares dos bairros mais exclusivos da cidade, onde os pais que levam seus filhos a pé à escola se irritam com aqueles que os levam seus filhos em sedãs de luxo; e pais que gastam US$ 2 mil por ano em professores particulares para o SAT (o exame semelhante ao ENEM para ingresso nas universidades), exibem seu ultraje com aqueles que podem pagar 10 vezes isso ou mais. (Na semana passada, um artigo no "Business Insider" fez o perfil de um professor particular de Manhattan que cobra US$ 1.500 por aulas de 90 minutos dadas pelo Skype.)
Como no início do século 20, o assunto da desigualdade, especialmente em Nova York, começou a dominar a conversa em nossa era assim que aqueles perto do topo, mas longe de reinarem nele, começaram a se sentir profundamente afetados por ele. E hoje, a classe média-alta urbana novamente anima a política progressista. Um exemplo atual é a candidatura de Zephyr Teachout, uma acadêmica legal de Manhattan, que com seu colega de chapa, Tim Wu, outro acadêmico legal de Manhattan, está desafiando o governador Andrew M. Cuomo na primária democrata, como base de que ele é submisso demais aos interesses do grande dinheiro, e que Wall Street exerce influência demais –grande parte dela perniciosa– na vida dos nova-iorquinos.
"Mike Bloomberg era um grande pragmático, e há algo que precisa ser dito sobre isso", Wu me disse em um ônibus de campanha na semana passada, pouco antes de sua candidatura à vice-governador ser endossada pelo conselho editorial do "The New York Times". "Mas nós precisamos ir além do pragmatismo, ir além das ideias do Partido Democrata dos anos 90 para lidarmos com as margens do capitalismo."
Esse foi obviamente o sentimento compartilhado pelos nova-iorquinos que elegeram Bill de Blasio como prefeito no ano passado. Na ocasião, nos meses que antecederam as primárias para prefeito, um corretor imobiliário de imóveis de luxo no centro explicou para mim sua inclinação à esquerda, e os motivos que o levavam a votar em De Blasio. Entre eles, segundo ele, estavam as dificuldades enfrentadas por famílias com "apartamentos de US$ 2,5 milhões", que precisavam pagar pela escola dos filhos e assim por diante. Na primária, segundo sugeriram as pesquisas de boca de urna, De Blasio recebeu percentuais semelhantes de votos tanto entre aqueles que ganhavam mais de US$ 100 mil quanto entre aqueles que ganhavam entre US$ 50 mil e US$ 100 mil.
A luta contra os helicópteros em Long Island envolve pela primeira vez muitos na política local e empodera outros a perceberem que podem pedir ao governo para que retifique os desequilíbrios, que podem parecer variações de estilo de vida, mas que têm reflexos mais amplos. O que pode não resultar em uma vitória fácil pode, no final, servir como incentivo para um ativismo mais amplo.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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