Uma mistura explosiva
O Estado de S.Paulo
Não se pode dizer que foi uma surpresa a
baderna que tomou conta do centro da cidade durante 12 horas, na
terça-feira - das 6 horas até o começo da noite -, provocada pela
resistência à reintegração de posse, ordenada pela Justiça, do imóvel no
antigo Hotel Aquarius, na Avenida São João, esquina com a Avenida
Ipiranga, ocupado por 200 famílias de sem-teto ligadas à Frente de Luta
por Moradia (FLM). Tais episódios vêm se tornando corriqueiros. Mas
esse, além de particularmente violento, apresentou características que
mostram para que terreno perigoso essas ações, promovidas pelos ditos
movimentos sociais, estão caminhando.
Segundo o
comandante do policiamento da capital, coronel Glauco Araújo de
Carvalho, a tropa da Polícia Militar (PM) chegou ao local às 6 horas e
até as 8 horas tentou convencer os sem-teto a deixarem pacificamente o
local. Tanto o que diz é procedente que o tumulto só começou por volta
das 8 horas, quando os ocupantes do imóvel começaram a atirar pedras,
móveis e até aparelhos eletrodomésticos sobre os policiais, que reagiram
com bombas de gás lacrimogêneo. A alegação dos sem-teto para sua
resistência à desocupação foi de que a PM não levou ao local os 40
caminhões prometidos para ajudar na mudança. A PM assegura que os
caminhões estavam lá, embora uma parte deles, nas imediações, pois não
havia como estacionar todos perto do imóvel.
Até aí, esse
lamentável afrontamento parecia estar dentro dos limites do que vem
ocorrendo nesses casos. A situação degenerou quando entraram em cena
outros atores, os mais diversos - integrantes de outros movimentos,
estudantes, black blocs, usuários de drogas, ladrões e infratores. Um
ajuntamento explosivo que levou a atos de violência que se espalharam
pelas imediações, do Viaduto do Chá à Praça da República, e que nada
tinham a ver com a desocupação daquele imóvel - depredações e saques de
lojas e agências bancárias e incêndio de ônibus. A PM respondeu, além
das bombas de gás, com balas de borracha.
A desordem tomou
conta da região, levou o comércio a baixar as portas e tumultuou o
trânsito numa ampla área da cidade. Uma situação que perdurou até o fim
da tarde e começo da noite, com momentos alternados de baderna de maior e
menor intensidade. Ao final, 9 pessoas haviam sido presas e 75 levadas a
delegacias e soltas pouco depois. Outras 12 ficaram feridas, entre elas
5 PMs, o que torna inconsistente a acusação de excesso repressivo da
polícia. O que houve foi uma verdadeira batalha, iniciada pelos
sem-teto, da qual a PM, evidentemente, não podia fugir.
Há
duas coisas altamente preocupantes nesse episódio. Uma é a reunião de um
grupo heterogêneo como esse - de sem-teto a bandidos, passando por
black blocs - numa situação como essa, que pode se repetir tanto no
centro como em outras regiões onde existem imóveis invadidos. É uma
combinação explosiva que, além de contaminar qualquer reivindicação, tem
tudo para semear o pânico e o vandalismo na cidade, como já se viu, e
cedo ou tarde acabar em tragédia.
Outra é o caráter
marcadamente político e partidário que vem adquirindo a ação de grupos
como a FLM, que tem notórias ligações com políticos petistas, como os
deputados Adriano Diogo (estadual) e Renato Simões (federal). Ficar
repetindo, como eles fazem, que os imóveis ocupados não cumprem função
social só serve para incentivar novas ocupações e tentar atribuir a
culpa pelo problema habitacional ao governador do Estado, que é do PSDB e
comanda a PM. Ora, ele não tem nada a ver com a reintegração de posse.
Ela é uma ordem judicial que o governador - seja Geraldo Alckmin ou
qualquer outro - é obrigado a cumprir, acionando a PM. E, diante da
resistência dos ocupantes, só resta à PM retirá-los do local pela força.
Não há outra saída para esse tipo de situação.
Se os
petistas ligados aos sem-teto quisessem mesmo resolver o seu problema,
poderiam começar pressionando o prefeito Fernando Haddad, que é seu
correligionário, a investir mais em programas habitacionais. Deixar
Haddad de lado e insinuar que a culpa é de Alckmin não é sério.
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