domingo, 10 de setembro de 2017
TOCAR UM TANGO ARGENTINO
Alexandre Garcia - puggina.org Rodrigo Janot, nos seus 10 últimos dias como Procurador-Geral e na
última sessão como Presidente do Conselho Federal do Ministério Publico,
confessou que fizera o anúncio de véspera não por coragem, mas por medo
de errar. Ele se referia à revelação, descoberta pela Polícia Federal
em gravações telefônicas, de que seu auxiliar, o procurador Marcelo
Miller, já orientava a JBS nos acordos de leniência e delação premiada,
mesmo antes de se retirar para trabalhar no escritório que negociou
esses instrumentos. Com isso, confirmou a ilação de Temer, de que
Marcelo Miller saíra da PGR para ganhar um dinheirão e costurar o acordo
com a empresa dos irmãos Batista. Janot deve ter tido medo de ser
acusado de omissão pela nova equipe da Procuradoria-Geral, que assume
dia 18. Fica melhor ter coragem de revelar tudo agora, enquanto é o
chefe. Marcelo Miller teria cometido o crime de improbidade, e
isso seria descoberto mais cedo ou mais tarde. E Janot o de omissão, se
deixasse o cargo sem denunciar isso. Ou foi ingênuo e agiu de boa-fé, o
que é pecado para quem tem que ser um cético guardião da lei. O anúncio
de Janot preveniu o que iria aparecer mais tarde, na administração de
Raquel Dodge. Acordos de leniência e de colaboração premiada viciados,
pelo jeito. E homologados pelo relator Ministro Fachin. Deixou mal o
relator. Imagino Temer, lá na China, depois de declarar que recebe tudo
“com serenidade”, subindo para o quarto do hotel, fechando-se no
banheiro e dando barrigadas de tanto rir. Fico imaginando o
prejuízo causado ao país por esse apressado acordo de delação, movido
pelo desejo de atirar flechas enquanto houver bambu. Em maio, quando a
economia se recuperava, sado-masoquistas chamaram o Joesley e os números
do PIB desandaram, assim como a confiança dos investidores. Agora se
recupera de novo, de modo mais firme, com a bolsa, a queda de juros, os
valores ainda decimais do PIB, a recuperação do emprego e a atlética
balança comercial, mesmo sob a ameaça de mais flechas. Mas a corda do
arco de Janot ficou frouxa e dificilmente suas flechas terão força
nesses derradeiros dias. Quem paga o prejuízo econômico e do emprego,
por atrapalhar a recuperação? E daqui a pouco ainda saberemos a real
história da mala de Rocha Loures: para que existiu? Por falar em
mala, a Polícia Federal descobriu num apartamento usado por Geddel
Vieira Lima em Salvador, um depósito de dinheiro que parece a sala de
banho do Tio Patinhas. Sete malas e seis caixas de papelão abarrotados
com notas de cem e cinquenta reais que, segundo a polícia, vieram dos
tempos em que Geddel fora vice-presidente da Caixa Econômica Federal.
Com todas essas tristes surpresas diárias, fico comparando o Brasil com o
enfermo Manuel Bandeira, em seu poema Pneumotórax”: O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado. Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax? Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário