sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

A CHINA EM CRISE?

O panorama atual da China: inquietação crescente com crescimento estagnado
Wieland Wagner - Der Spiegel
Os líderes chineses estão enfrentando atualmente uma queda na demanda, uma dívida crescente e uma bolha imobiliária. Algumas fábricas estão demitindo trabalhadores, sofrendo perdas financeiras ou até fechando, enquanto secam as encomendas da Europa, afligida pela crise. As dificuldades econômicas estão frustrando os trabalhadores e consumidores do país, ameaçando a política e o milagre econômico de Pequim.
Uma unidade de força especial da polícia surge subitamente. Um trabalhador chamado Liu (seu nome verdadeiro foi omitido para proteger sua identidade) está marchando na frente da prefeitura da cidade de Gongguan, na China, com cerca de 300 colegas da fábrica falida Bill Electronic. “Devolvam-nos o dinheiro de nosso sangue e suor!”, gritam.
No momento seguinte, seus gritos viram berros quando alguns policiais equipados com capacete, escudos e cassetetes, junto com forças de segurança à paisana, pulam das vans verde oliva da polícia. Os líderes da manifestação, inclusive Liu, são cercados por cães da polícia. Em poucos minutos, as autoridades comunistas sufocam a manifestação.
Os homens e mulheres, na maior parte adultos, são forçados a entrar em ônibus amarelos e são levados de volta para a fábrica, onde o governo exerce enorme pressão. À tarde, eles são obrigados a aceitar 60% dos salários devidos pelo escritório de emprego. Qualquer um que recuse, não receberá nada, advertem as autoridades.
A nova crise mundial alcançou a China. Os problemas da dívida na Europa, o maior parceiro comercial do país, estão começando a reduzir as perspectivas desta na nação que efetivamente se tornou a fábrica do mundo. A economia instável dos EUA e a ameça de uma guerra comercial entre as duas superpotências tornam a situação ainda mais incerta. Enquanto a campanha para as eleições presidenciais norte-americanas começa a esquentar, os políticos americanos estão tentando superar um ao outro em declarações protecionistas em relação ao seu rival comunista.
Outubro último foi o terceiro mês seguido de queda nas exportações chinesas. Junto com isso, estão evaporando as esperanças dos fabricantes alemães que o crescimento do mercado asiático pudesse ajudá-los a sair da crise global como fez em 2008 também. Desta vez, a China enfrenta enormes desafios próprios – uma bolha de mercado imobiliário e dívidas do governos das províncias- que podem até impor um risco à economia mundial.
Trabalhadores desiludidos
Para Liu, o operário da fábrica falida, o milagre econômico do país certamente terminou. Até recentemente, ele trabalhava 12 horas por dia montando acessórios para aparelhos de DVD. Mas aí o trabalho foi diminuindo e, há pouco tempo, o chefe informou aos trabalhadores que havia menos encomendas da Europa.
Depois que a polícia reprimiu a manifestação, Liu, agora amedrontado, vagueia pelas ruas empoeiradas da cidade, atravessando fileiras e fileiras de fábricas e prédios residenciais. “Só queríamos nossos salários, mas eles colocaram a polícia em cima de nós”, disse ele. Ele perdeu a fé no partido e no governo.
Especialmente aqui, na região exportadora de Guangdong, um laboratório das experiências capitalistas chinesas, quase não se passa um dia sem novos protestos e falências. A fábrica de sapatos Yue Chen em Dongguan, que produz tênis esportivos para uma companhia em Taiwan, que por sua vez fornece a marcas como New Balance, está em estado de emergência. Com as encomendas em queda, a fabricante demitiu 18 gerentes. Os operários viram as horas extra acabarem, e os salários normais quase não são suficientes para sobreviver. A frustração está tão grande que alguns funcionários da fábrica de sapatos também foram protestar diante da prefeitura. Cerca de 10 deles foram feridos no confronto com a polícia, segundo algumas mulheres da fábrica.
A situação na porta do complexo da fábrica cinzenta é tensa. Seguranças não uniformizados guardam a entrada, fotografando e intimidando qualquer um que fale com os trabalhadores. Dentro da fábrica, o impasse entre patrões e empregados continua. Os funcionários ficam sentados nas salas sem alegria das fábricas. A gerência desligou o fornecimento de energia de alguns dos setores onde os trabalhadores em geral costuram e colam os tênis.
No resto da China também, cada vez mais as linhas de montagem estão parando. Em Wenzhou, no Leste da China, uma cidade conhecida por fazer isqueiros, sapatos e roupas baratos, um grande número de empresários estão fugindo de seus credores, os bancos privados que lhes concederam empréstimos. Alguns desses empresários até mesmo removeram suas máquinas das fábricas secretamente antes de fugirem.
Queda da demanda na Europa e na China
As indústrias chinesas também estão sentindo o peso da queda da demanda europeia. A Suntech Power Holdings, por exemplo, que fabrica painéis de energia solar em Wuxi, perto de Xangai, informou perdas de US$ 116 milhões (em torno de R$ 200 milhões) no terceiro trimestre. No mesmo período do ano passado, a empresa gerou US$ 33 milhões de lucros.
Recentemente, o principal exportador da Ásia era objeto de admiração de executivos e políticos estrangeiros, um vitorioso na crise financeira mundial. Alguns até acreditavam que o capitalismo autoritário de Pequim tinha encontrado uma alternativa superior às economias de mercado ao estilo Ocidental, abatidas pela crise.
Os fabricantes de automóveis alemães, em particular, se deixaram levar pelo crescimento da China e fizeram enormes investimentos. A China é o mercado mais importante da Volkswagen e a empresa espera vender 2 milhões de unidades no país neste ano.
O boom nesse mercado, porém, está caindo. “Não recebemos um único pedido em nove dias”, admite um elegante vendedor na revendedora Porsche de Dongguan. “Nunca passamos por isso antes”. Muitos empresários estão sem dinheiro, acrescenta. “Eles costumavam pagar em dinheiro, mas agora preferem comprar a prazo”.
As marcas baratas chinesas, como a BYD (“Build Your Dreams”) também estão tendo dificuldades em vender seus carros. Incentivos importantes do governo para a compra de automóveis acabaram no ano passado, e importantes cidades como Pequim estão tentando aliviar suas ruas congestionadas restringindo o número de carros novos. Em outubro, os chineses compraram quase 7% menos carros do que no mês anterior.
Erros econômicos?
A princípio, parecia que os capitalistas de Pequim tinham encontrado a receita mágica para um rápido e eterno crescimento. Em 2009, eles bombearam 4 trilhões de yuans (o equivalente a 430 bi) – o maior pacote de estímulo da história da China- para construir estradas ainda mais modernas, estações de trem e aeroportos. Os incentivos fiscais levaram milhões de produtores rurais a comprarem geladeiras e computadores pela primeira vez.
Mais ou menos sob ordens do partido, os bancos jogaram seu dinheiro aos pés das pessoas, e os governos das províncias ficaram quase livres para se endividarem. No final de 2010, a dívida estava em 10,7 trilhão de yuans – quase um quarto de todo o PIB da China.
A maior parte desses fundos foi, direta ou indiretamente, para a construção imobiliária. Os governos locais descobriram que vender terras para construir era uma fonte lucrativa de renda - e de garantias para que os bancos continuassem a emitir novos empréstimos. Milhares de agricultores foram expulsos de seus campos para que mansões e prédios pudessem ser construídos.
Muitos desses projetos de desenvolvimento, muitas vezes empreendimentos megalomaníacos desde o início, hoje são cidades fantasma. Nas 15 maiores cidades da China, o número de terrenos recentemente leiloados em outubro deste ano caiu 39% em relação a outubro de 2010.
Enquanto muitos no Ocidente sustentam esperanças que a China possa resolver a crise da dívida do euro e do dólar com suas reservas em moedas estrangeiras, a diferença entre ricos e pobres no país está crescendo. A “sociedade harmônica” prometida por Hu Jintao, chefe de governo e do Partido Comunista, está em jogo.
O banco central do país aumentou as taxas de juros cinco vezes desde meados de 2010 para segurar a inflação, enquanto ao mesmo tempo forçou os bancos a manterem maiores reservas de fundos. Pequim espera com este método orquestrar uma “suave aterrissagem” para seu próprio crescimento econômico. A manobra, entretanto, tem seus riscos. Junto com a indústria de construção, que vinha sendo o motor da economia chinesa, outros setores, tais como produção de cimento, aço e móveis também devem perder a vitalidade.
A classe média em ascensão vai se voltar contra o governo?
Se a bolha imobiliária furar, certamente vai fazer a classe média chinesa voltar-se contra o governo. Até agora, os novos ricos viam o Partido Comunista como garantia de sua prosperidade. Recentemente, porém, proprietários de imóveis revoltados organizaram uma manifestação no centro de Xangai, protestando contra o declínio no valor de suas propriedades.
Wang Jiang, 28, aponta para um prédio quase pronto em Anting, um dos subúrbios da cidade. O gerente de uma empresa de software comprou um apartamento no 16º andar do prédio por 138.000 euros (cerca de R$ 330.000) em setembro. Era um preço alto para 82 metros quadrados, especialmente pelo prédio estar localizado na zona industrial, cercado de fábricas e autopistas. Mas Wang esteava determinado a participar do crescimento imobiliário. Ele nem se deu o trabalho de visitar o complexo antes de comprar o apartamento. Afinal, onde ele deveria investir seu dinheiro, se não em imóveis?
Atualmente, os bancos estatais chineses estão pagando seus clientes juros negativo e o mercado de ações de Xangai é considerado um casino de alto risco, onde os poucos grandes investidores governamentais manipulam os índices.
O apartamento de Wang nem está terminado, mas ele já não fica feliz em se mudar – agora que a imobiliária está oferecendo apartamentos similares no mesmo complexo por cerca de 20% a menos.
Wang está decepcionado com o valor de revenda de seu apartamento. “O que eles estão pensando?”, pergunta. “Certamente não podem simplesmente apagar parte de meus bens?”
Mas podem.
Wang e muitos outros proprietários furiosos foram à loja da imobiliária para protestar contra a queda dos preços. Subitamente, diz Wang, alguém começou a destruir as maquetes dos apartamentos. Depois, em um piscar de olhos, os guardas da empresa o agarraram e o levaram junto com os outros manifestantes para a polícia em um micro-ônibus. “Fomos interrogados até 2h da manhã”, conta Wang. Alguns dos manifestantes ainda estão presos, e as autoridades nem informam às famílias.
Um dilema político
Seja em Dongguan ou em Xangai, parece que as falhas estão se formando em toda parte na sociedade chinesa. Enquanto a ditadura de um partido manteve o crescimento em dois dígitos, a maior parte das pessoas aceitava sua falta de liberdade. Agora, porém, Pequim está enfrentando um dilema. A forte repressão policial dificilmente vai conter as consequências da economia em estagnação sob controle no longo prazo. Mas tampouco os subsídios do governo são suficientes para estimular a economia. Parece que nem o dinheiro nem a força vão ajudar.
O premiê chinês, Wen Jiabao, recentemente anunciou uma “sintonização” de sua política econômica: os bancos devem dar empréstimos mais generosos, especialmente para pequenas e médias empresas de exportação, disse ele.
A situação econômica hoje é muito mais complicada do que era após a crise financeira global de 2008, diz o economista Lin Jiang. Em 2008, as exportações chinesas desmoronaram, e quase 25 milhões de trabalhadores migrantes tiveram que voltar das fábricas para suas províncias de origem.
Em Dongguan, as autoridades não têm razões no momento para temer mais protestos por parte de Liu, o operário da fábrica. Ele está ocupado demais procurando um lugar para ficar. Quando perdeu o emprego, perdeu também sua vaga em uma das residências da fábrica de eletrônicos.
Tradução: Deborah Weinberg

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