Economia para de crescer, e recuperação vai demorar
Estagnação no terceiro trimestre reduz crescimento deste ano para 3% ou menos
Queda no consumo e nos investimentos indica que retomada da atividade nos próximos meses será muito lenta
FSP
A economia brasileira parou de crescer no terceiro trimestre deste ano e tudo indica que ela levará meses para voltar a crescer com vigor.
Estatísticas divulgadas ontem pelo IBGE mostram que a atividade econômica ficou estagnada entre julho e setembro, depois de crescer 0,7% no trimestre anterior.
A atividade se contraiu na indústria, que perde fôlego há meses, e nos serviços, setor mais dinâmico da economia na primeira metade do ano. Somente a agropecuária continuou crescendo.
O fraco desempenho foi resultado das decisões tomadas pelo governo no início do ano para conter a inflação, num momento em que a economia brasileira estava superaquecida e os preços pareciam fora de controle.
Para combater a inflação, o Banco Central restringiu a oferta de crédito e aumentou as taxas de juros, medidas cujos efeitos só começaram a se fazer sentir com mais força nos últimos meses.
Também contribuiu para a freada da economia a decisão do governo de conter despesas e reduzir investimentos. Mais recentemente, o pessimismo gerado pela crise na Europa fez empresários e consumidores desanimar.
Segundo o IBGE, o consumo das famílias diminuiu 0,1% no terceiro trimestre. É a primeira vez que o consumo sofre uma contração desde a crise mundial de 2008. Os investimentos do governo caíram 0,7%.
Bancos e consultorias reviram suas projeções após a divulgação dos números do IBGE e agora preveem que o país crescerá 3% ou menos neste ano. No início do ano, os economistas esperavam uma taxa de 4,5%.
A maioria acredita que a economia começará a se recuperar neste fim de ano, mas lentamente. As projeções apontam para uma expansão de no máximo 0,5% no último trimestre do ano.
"Houve uma desaceleração importante e uma mudança até da estrutura do que vinha acontecendo anteriormente", disse Rebeca Palis, gerente da área do IBGE responsável pelo PIB.
O BC começou a reduzir os juros em agosto, o governo removeu restrições à oferta de crédito e baixou medidas para estimular o consumo de eletrodomésticos.
Mas essas medidas devem demorar para produzir resultados, segundo os economistas, e a recuperação só deverá ganhar força no segundo semestre do ano que vem.
"O governo se antecipou à piora da crise e cortou juros, mas o impacto na economia leva tempo e deve ser gradual", afirma a economista Fernanda Consorte, do banco Santander.
O aumento do salário mínimo, que terá um reajuste de cerca de 14% em janeiro, também deverá contribuir para aumentar o consumo, mas ninguém espera que o país volte a crescer tão rápido como no ano passado.
"O emprego vai crescer mais devagar e o salário não seguirá no mesmo ritmo deste ano", diz economista Armando Castelar, da Fundação Getúlio Vargas. Ele prevê que as incertezas provocadas pela crise externa continuarão a deprimir os investimentos e o consumo.
(PEDRO SOARES, DENISE LUNA, MARIANA CARNEIRO E MARIANA SCHREIBER)
2012 será melhor que 2011, afirma presidente Dilma
FSP
A presidente Dilma Rousseff adotou tom otimista ao falar da economia e disse que o país terá um desempenho "necessariamente melhor" em 2012.
"Não só estamos encerrando o ano com estabilidade e crescimento, mas sobretudo com visão de que 2012 será necessariamente melhor do que 2011, o que não é pouca coisa diante da crise e da insensatez política que vivenciamos este ano nos EUA e na Europa", afirmou.
Sem mencionar o diagnóstico de estagnação no terceiro trimestre, ela exaltou a taxa de crescimento acumulado do PIB em 2011 ao receber o prêmio Brasileiro do Ano da revista "Istoé", em São Paulo.
"O PIB, que nós tivemos que deliberadamente diminuir o ritmo de aceleração que estávamos vivendo, cresceu 3,2%, apesar de todas as consequências da crise", disse.
O resultado do PIB no trimestre foi recebido com alívio pelo governo, que temia retração, e Dilma a orientar sua equipe a levar adiante estudos de medidas que evitem crescimento fraco no início de 2012.
O resultado fez ainda o governo abandonar previsões mais otimistas de crescimento em 2011.
Saem de cena os 3,8% prometidos nos últimos dias pela Fazenda, que agora fala em fechar o ano com 3,2%.
O próprio ministro Guido Mantega (Fazenda) admitiu que o governo pode adotar novas medidas de estímulo, além das divulgadas na semana passada.
"O que nós apertamos, vamos flexibilizar mais", disse, indicando a continuidade da política de redução de juros, liberação de crédito e estímulo à produção e ao consumo.
Entre as medidas estudadas está desonerar o setor têxtil e dar estímulos ao automobilístico.
PIB ainda vai sofrer mais com crise externa
Produção brasileira foi até agora mais afetada por medidas de contenção do gasto do governo e do crédito
A Europa viverá pelo menos uma recessão breve. Ainda não se sabe o tamanho da freada chinesa, mas ela começou
VINICIUS TORRES FREIRE -FSP
A economia brasileira esfria desde o início do ano.
Esfriou tanto mais quanto mais Banco Central e governo tomaram medidas de contenção de crédito e de gasto.
O efeito de tais providências jamais é imediato, como se sabe. A julgar pelas estatísticas passadas, era previsível que tivessem maior impacto por volta de outubro.
Foi o que se viu -um pouco antes, decerto: o PIB não cresceu no terceiro trimestre.
A economia reagiu de modo normal ao freio imposto por juros mais altos (até agosto), restrições administrativas ao crédito (medidas "macroprudenciais") e pela contenção de gastos federais.
Vale lembrar que, até agosto, a Selic, o juro básico da economia, era 12,5% (está em 11% e deve cair a 9,5% no ano que vem). O gasto federal este ano deve crescer apenas a um terço do ritmo de 2010. Coisa rara, é possível que o aumento da despesa pública seja parecido com o do PIB.
Não houve, claro, um desastre. Nos últimos quatro trimestres, o PIB cresceu 3,7% (a média de crescimento do governo Lula foi de 4%).
Ainda assim, houve surpresas ruins, além do feio e previsível tombo industrial.
O consumo privado ("das famílias") sofreu uma queda rara neste trimestre. Nos anos PT, se vira tal coisa apenas na crise de 2003, num trimestre do fraco 2005 e nos meses seguintes à explosão de 2008.
Dependesse apenas da "demanda doméstica" (consumo privado, gastos do governo e despesas de investimento), o resultado do PIB seria ainda pior. Não o foi porque o Brasil teve superávit nas transações de bens e serviços com o exterior.
Como a crise mundial deve prejudicar o balanço externo do país, o resultado do PIB do último trimestre tende a ser fraco, o que deve frustrar a previsão oficial para 2011.
Para o ano fechar com crescimento de 3,2%, o desejo do governo, seria necessário um aumento de 1,6% do PIB no quarto trimestre. As estimativas mais certeiras giram em torno de 0,3%. Se for este o caso, o PIB do ano terá avançado apenas 2,8%.
CRISE EXTERNA
O grosso dos efeitos da baixa do crescimento mundial e o susto causado pela crise europeia ainda tendem a talhar ainda mais o crescimento brasileiro até meados de 2012.
Algum efeito "externo", difícil de medir, já houve. Pesquisas de confiança do empresariado e evidências anedóticas ("histórias") indicam que algum investimento foi adiado ou desacelerado, dada a incerteza provocada pela crise na eurozona.
Os efeitos financeiros fortes mais diretos desse tumulto, porém, começaram a ser sentidos apenas em outubro: crédito externo mais escasso e juros mais elevados.
Mas o tempo vai continuar ruim na economia mundial.
Na melhor das hipóteses, sem explosões financeiras, a Europa viverá ao menos uma recessão breve em 2012. Ainda não se sabe o tamanho da freada chinesa, que começou.
REAÇÃO BRASILEIRA
Desde agosto, o BC reduz a Selic. Mas seu efeito positivo tende a ser mais retardado que o negativo. Vai compensar os maus ventos da economia internacional? Quando?
Aparentemente, o governo vai retomar suas despesas de investimento diretas e por meio de estatais. No ano, o governo reduziu seu gasto "em obras" em quase 9%.
Mas essa retomada não é também imediata, nem desencadeia reações de pronto no restante da economia.
Em suma, parece difícil esperar reação firme da atividade econômica antes do meado de 2012, "tudo mais constante". Isto é, se a situação mundial não piorar além do até agora previsto.
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