domingo, 4 de dezembro de 2011

A DONA PORCA E OS SEUS RATINHOS

O desabamento do ‘puxadão’ em Guarulhos mostra que a empresa do amigo de Dirceu e Sérgio Cabral está fazendo que Dilma fez
Augusto Nunes - Veja
Em julho, a Delta foi premiada pelo governo federal com um contrato sem licitação para a construção, no aeroporto de Guarulhos, de “um novo terminal remoto de passageiros”. Essa é a expressão criada para disfarçar o que não passa de um “puxadão” forjado pela repaginação dos antigos galpões de carga da Vasp e da Transbrasil, distantes dois quilômetros dos terminais de verdade. Escolhida para executar outro assombro do PAC, a empresa de Fernando Cavendish ─ que prospera com a ajuda dos garotos-propaganda José Dirceu e Sérgio Cabral ─ embolsou R$ 85,75 milhões. A quantia é 163% maior do que os R$ 32,5 milhões fixados originalmente pela Infraero.
Em compensação, explicou a presidente numa entrevista no Planalto, a obra ficaria pronta em seis meses. Para abrandar os horrores de fim de ano no maior aeroporto do país, o governo resolvera que o terminal remoto seria inaugurado em 20 de dezembro. “Se a Delta não concluir, vai se tornar inidônea”, ameaçou em dilmês rústico. (Segundo o dicionário, inidôneo é quem não merece confiança, mente muito, não cumpre o que promete. Serve para empresas ou pessoas.) “O terminal tem de ficar pronto no dia combinado”, reiterou. Não vai ficar, informou nesta sexta-feira o desabamento de parte da estrutura do puxadão.
Se for considerada inidônea, a mina de ouro de Cavendish será impedida por cinco anos de fechar contratos com o governo federal. Para escapar do perigo, o amigo de Dirceu e Cabral poderia exibir, em sua defesa, o vídeo reproduzido na seção História em Imagens, gravado em julho de 2007. Caprichando na pose de gerente de país, Dilma aparece anunciando o início das obras de ampliação de Guarulhos e Congonhas, e garantindo que o terceiro aeroporto de São Paulo havia enfim começado a sair do papel. Passados quatro anos e meio, o que há de novo na paisagem são puxadinhos e puxadões menos confiáveis que uma explicação de Carlos Lupi.
A superexecutiva de araque sabe pelo menos desde 2007 que o sistema de transporte aéreo está em frangalhos. Não fez nada que prestasse. Há meses, alegando que a aproximação da Copa de 2014 exige pressa, evocou a iminência do colapso e descobriu as vantagens do Regime Diferenciado de Contratações. É o outro nome da roubalheira sem perigo de cadeia: o empresário presenteado com a obra primeiro ganha o contrato, depois faz o preço, inflado por aditivos criminosos. Faz o preço e também o prazo, sucessivamente dilatado por desculpas e desabamentos.
Dilma mentiu há quatro anos e meio. A Delta mentiu há seis meses e mente agora. Ao prometer o que não cumpriria, a construtora está fazendo o que a presidente fez. Ambas são inidôneas. E ambas têm certeza de que os pagadores de impostos vão bancar com mansidão bovina a conta da inidoneidade. Esse palavrão significa, em língua de gente, pouca vergonha. Ou nenhuma.

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