Rael, Ashe e Úrsula
O Imortal ficou paralisado em meio
ao infinito rochedo da eternidade;
por tempos e tempos; em uma noite muito longa:
nervoso, reprimido, insensível, desumano.
Até que não suportou mais
dura servidão, e rachou: rachou o imenso rochedo
num estrondo de uma imensidão a outra.”
William Blake
(Trad. Paulo Mello)
Eu não sou de beber. Mas naquela sexta-feira as coisas fugiram ao meu controle. Peguei uma garrafa do uísque da marca predileta do meu pai e fiz como ele fazia, tomei a bebida sem gelo. Quando já estava bêbado o suficiente para ir dormir, levantei-me da banqueta do bar e fui para a biblioteca. Lá adormeci. No outro dia de manhã, quando fui sair da biblioteca, levei uma pancada muito forte na cabeça. No chão, olhando para o teto, vi o meu agressor: era um dos jardineiros que trabalhavam em casa. Nesse momento a Úrsula começou a gritar:
- Rael!
Ela também tinha sido rendida. Eu fui levado até a sala e fiquei numa poltrona, a Úrsula tinha sido posta num sofá. O mordomo, o motorista, as duas empregadas e o outro jardineiro estavam mancomunados.
Eu não podia fazer nada, nem a Úrsula, pois eles estavam com armas de fogo de alto calibre encostadas nas nossas cabeças. Enquanto os homens no mantinham sob a mira das armas, as empregadas colocavam em sacos de lona todos os objetos de valor que nós possuíamos em casa.
O motorista disse para mim:
- Depois eu quero que você abra o cofre e nos dê todas as jóias e o dinheiro que eu sei que vocês guardam lá dentro.
A Úrsula gritou:
- Vai se ferrar, seu porco maldito!
O mordomo deu um soco no rosto da Úrsula e o que mais me deixou impressionado é que ela sangrou! Nós não temos sangue!
Em meio a toda essa confusão, ainda tive espírito para observar as armas que os bandidos portavam. Era um pequeno arsenal.
O mordomo portava um pistola Automag III, .30-M1 Carbine. O motorista tinha uma Automag V, .50. Os jardineiros estavam armados com pistolas Automag IV .45. As empregadas estavam desarmadas. As pistolas Automag eram de ação simples... Onde ladrões comuns conseguiriam essas armas em Honolulu? Pensei no meu pai: o que ele faria numa situação dessas?
Depois de abrir uma garrafa de bourbon em nosso bar e beber um terço da garrafa, o motorista começou a se engraçar com a Úrsula. Ele disse:
- Gostosa do jeito que você é, não trepar com um homem de verdade como eu, é puro desperdício! Nunca vi um homem nesta casa e você não sai com ninguém a não ser com o seu irmão. Você deve estar desejosa, carente de homem, a não ser que vocês transem entre si, estrangeiros nojentos!
O motorista continuou a falar e parecia que isso o excitava cada vez mais. Ele disse para mim:
- Olha bem para ver como se faz moleque!
Rasgou o vestido da Úrsula, deixando-a apenas de calcinha, que logo foi arrancada. E começou a desafivelar o cinto, baixou as calças e quando avançou sobre ela pegando-a pelos seios alguma coisa arrebentou a porta do hall. O motorista mandou um dos jardineiros averiguar o que estava acontecendo. O jardineiro engatilhou a Automag e foi. Escutamos três disparos.
Um silêncio, daqueles que antecedem as grandes tormentas, caiu sobre todos nós. Foi quando ele apareceu. Contra a luz do sol, que passava pelas imensas vidraças da sala de estar, nós conseguíamos ver apenas uma figura grande usando um trench-coat. Uma das empregadas fez um gesto brusco e a figura com um só tiro acertou a sua testa e arrancou a parte posterior da cabeça dela.
A figura sinistra falou:
- Eu vou matar todos vocês, seus bastardos!
A voz! Não podia ser! Mas era a voz do Ashe!
A outra empregada saiu correndo e aconteceu outro disparo. O projétil entrou pela nuca da desgraçada e quando saiu levou consigo toda a parte frontal da cabeça daquela imunda!
A figura misteriosa deixou o revólver cair no chão. O último jardineiro aproveitou o momento e sacou a sua arma. Foi o suficiente. Eu nem vi a figura sacar outro revólver da sua cintura, tal a rapidez do saque. Dois disparos, as balas entraram pela face do bandido e só uma parte da mandíbula inferior ficou grudada pela pele do pescoço. O restou se esparramou pelo tapete.
A figura falou para o motorista:
- Deixe-os em paz e eu te dou uma chance de me matar.
Depois que disse isso, a figura voltou o revólver para o coldre.
O motorista, ainda com as calças arriada, com o pinto murcho, com a calcinha da Úrsula na mão, tentou pegar a arma que estava sobre a mesa do centro da sala. A figura não titubeou: disparou três vezes no maldito. Dois projéteis no peito e um na cabeça. A massa disforme e sanguinolenta desabou no centro da sala. A figura misteriosa deixou o segundo revólver cair no chão.
O mordomo criou corgem tentou engatilhar a sua arma, mas a Úrsula já havia pegado a arma do motorista e atirou várias vezes nele. Eu peguei a arma do jardineiro e atirei também. No total foram 14 disparos, sete .50 e sete .45!
Automaticamente, eu e a Úrsula gritamos:
- Ashe!
Completamente nua, no meio da sala, a Úrsula se jogou nos braços do meu pai. O meu pai havia retornado do mundo dos mortos. Ele estava vestindo jeans, camiseta branca, um trench-coat preto de couro, botas Doc Martens pretas, dois coldres presos à cintura. Uma coisa bem sombria.
- Pai – eu disse. O que aconteceu com o senhor?
Ele nada falou. Apenas tirou o trench-coat e cobriu a nudez da Úrsula.
- Ashe fala comigo e diz que eu não estou sonhando! Fala que você voltou mesmo! Por favor!
Se ele não falasse logo com a Úrsula, ela ia ter um treco!
- Eu voltei menina-flor. Eu só não sei como!
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