Sobe para 140 o número de índios em ocupação alvo de ataque no MS
Renan Antunes de Oliveira* - UOL
Aral Moreira (MS)
Desde o desaparecimento do cacique Nísio Gomes, da etnia guarani kaiowá, no dia 18 de novembro, o número de índios que ocupam uma área entre Aral Moreira e Amambai, no sul do Mato Grosso do Sul, já chega a 140. A área reivindicada pelos índios pertence a fazendeiros e é usada para plantio de soja. Os índios afirmam que o cacique foi morto por pistoleiros encapuzados. O ataque está sendo investigado pela Polícia Federal.
Os novos caciques dividiram a tribo em dois grupos nas matas que cercam a fazenda, preparando-se para ocupar também a lavoura que ficou no meio, formando assim uma área contínua: “Precisamos de terra para plantar nossa roça”, disse o cacique Martin Gallo. Na maioria das invasões até aqui, os guaranis ocupavam apenas matas. Mas a estratégia mudou e eles agora avançam sobre área plantada.
Ontem (14) às 17 horas, Gallo liderou um grupo de 40 índios recrutados em Amambaí para formar a segunda aldeia Guaiviry na fazenda – a primeira já tem cem integrantes. Ele fretou um ônibus por R$ 250 para a mudança. Usando celulares e motocicletas, índios guiaram o comboio pelas estradas. A maioria dos recém-chegados era de mulheres e crianças, com muitas trouxas e pouca comida. O Grupo de Operações Especiais da polícia do MS chegou depois da invasão consumada e observou a ação à distância, sem interferir.
Como forma de intimidação, os funcionários da fazenda receberam ordens de pulverizar agrotóxicos no limite da área plantada, a 50 metros de onde se acomodava o novo grupo. Índios armados com lanças e flechas se postaram entre a máquina e a aldeia, em atitude ameaçadora, mas não houve incidentes.
Mais tarde, o tratorista que se identificou como Lídio disse que “o patrão já ligou e mandou a gente não fazer mais nada até que a Justiça decida o que fazer com os índios”.
O aumento do número de índios na fazenda preocupa o presidente do Sindicato Rural de Amambai, Christiano Bortolotto. Ele disse que “os fazendeiros da região têm títulos válidos e compraram suas terras em boa fé, não é justo que agora tenham que disputá-las com os índios”.
A morte de Nísio Gomes teve repercussão internacional. A Polícia Federal investiga o crime, sem resultados até agora. Os novos caciques que ocupam parte do espaço político deixado pelo cacique têm uma retórica mais agressiva e planejam novas ocupações: sem citar o local, prometem uma invasão para 4 de janeiro.
A sucessão provocou um racha com a disputa polarizada entre três caciques: Genilton, 29 anos, filho de Nísio, que ocupa a Guaiviry I, a invasão herdada do pai, e Martin e Francisco, que lideram a Guaiviry 2. Os dois últimos, na faixa dos 50 anos, reclamam que Jenito é muito jovem para comandar todo processo de ocupação, porque ele não saberia dizer onde eram as terras antigas.
Os dois aliados têm como trunfo na busca pelas áreas ancestrais uma índia que eles dizem ter 104 anos, chamada Preselta. Ela é chamada a participar das conversas dos caciques, fala em guarani e gesticula, apontando para as florestas e para o vazio dos campos de soja. “Ela disse que era aqui que viviam nossos antepassados”, traduz Francisco. “Ela tem o mapa da cabeça, é como nós vamos deixar o conhecimento para os mais jovens.”
Um antropólogo da Funai chamado Rubinho tem conversas frequentes com Preselta para mapear a área contestada. São 50 as fazendas invadidas no MS por guaranis que reclamam direitos ancestrais à terra, aguardando demarcação pela Funai.
*Com Ana Lúcia Mohr e Aline Torres
Do Blog:
Estão dando mole nesse negócio. Isso já deveria ter sido decidido.
Não duvido se essa indiada for despachada em direção a Tupã
(e já vai tarde).
Nenhum comentário:
Postar um comentário