sábado, 17 de dezembro de 2011

O HORROR DA GUERRA RELATADO EM DOCUMENTOS OFICIAIS

Relatos de massacre no Iraque recuperados revelam sangre frio de soldados americanos
Michael S. Schmidt - NYT
Em Bagdá (Iraque)
Um a um, os fuzileiros navais se sentaram, juraram dizer a verdade e começaram a conceder entrevistas secretas discutindo um dos episódios mais horríveis da época norte-americana no Iraque: o massacre de civis iraquianos pelos fuzileiros navais na cidade de Haditha em 2005.
"Quero dizer, quer seja um resultado de nossa ação ou de outra ação, você sabe, descobrir 20 corpos, com as gargantas cortadas, você sabe, sem cabeça, 20 corpos aqui, 20 corpos ali", disse o coronel Thomas Cariker, comandante na província de Anbar na época, aos investigadores enquanto descrevia o caos no Iraque. Às vezes, diz ele, as mortes eram causadas por "ataques de granadas nos pontos de vigilância, você sabe, com morte de civis."
As 400 páginas de interrogatórios, antes guardadas como segredos de guerra, deveriam ter sido destruídas à medida que os últimos soldados norte-americanos se preparam para deixar o Iraque. Em vez disso, elas foram descobertas junto com resmas de outros documentos confidenciais, incluindo mapas militares mostrando as rotas de helicóptero e localização de radares, por um repórter do The New York Times num depósito de lixo nas cercanias de Bagdá. Um atendente estava usando os documentos como combustível para acender uma fogueira e fazer um jantar de carpa defumada.
Os documentos – muitos marcados como secretos – fazem parte da própria investigação militar interna e confirmam a maior parte do que aconteceu em Haditha, uma cidade no rio Eufrates onde os fuzileiros navais mataram 24 iraquianos, incluindo um homem de 76 anos numa cadeira de rodas, mulheres e crianças, algumas ainda de colo. Haditha se tornou um momento definitivo da guerra, ajudando a consolidar uma desconfiança perene dos iraquianos em relação aos Estados Unidos e um ressentimento de que nenhum fuzileiro naval nunca foi processado. Esta é uma das principais razões pela qual as tropas de combate dos EUA estão indo embora no fim de semana.
Mas os relatos são tão extremos, pois revelam o estresse extraordinário dos soldados que foram enviados para o país, suas frustrações e seus encontros frequentemente dolorosos com uma população que eles não entendiam. Em suas próprias palavras, o relatório documenta a natureza desumanizante da guerra, onde os fuzileiros navais passaram a ver 20 civis mortos não como algo "incomum", mas como rotina.
Civis iraquianos eram mortos o tempo todo. O major general Steve Johnson, comandante das forças norte-americanas na província de Anbar, em seu próprio testemunho, descreveu isso como "o custo de fazer negócios".
O estresse do combate deixou alguns soldados paralisados, mostraram os depoimentos. Soldados, traumatizados com o aumento da violência e se sentindo constantemente cercados, ficaram cada vez mais nervosos, matando mais e mais civis em encontros acidentais. Outros ficaram tão dessensibilizados e acostumados às mortes que atiravam deliberadamente em civis iraquianos enquanto seus colegas tiravam fotos, e eram enviados a corte marcial. Os corpos se empilhavam numa época em que a guerra ficou horrivelmente errada.

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