quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

PRIMAVERA ÁRABE OU INVERNO DA CIVILIZAÇÃO?

A "primavera" árabe e a crise econômica européia 
Heitor De Paola - MSM
“Find the beginning of things…And you will understand much”.

Abbie Farwell Brown

Para entender os problemas enfrentados por Israel no Oriente Médio (OM) é necessário voltar nossos olhos para a Europa e seu passado colonialista. Ou será que alguém é suficientemente ingênuo para acreditar que a crise financeira européia e as ocorrências no OM são fenômenos independentes? Hegel e Marx estavam errados: a história só se repete se não aprendermos com a experiência. O que vem ocorrendo nos quatro lados no Mare Nostrum (1) são fenômenos que podem ser entendidos à luz das ocorrências passadas.
Acostumadas a viver à larga a custa da exploração de suas “possessões”, as chamadas potências coloniais nunca se recuperaram de todo de sua perda, ao fim da I GM: os perdedores – impérios alemão, russo, austro-Húngaro e otomano – deixaram de existir. Aqui nos interessa apenas a sorte dos territórios do último, transformado em possessão dos vitoriosos, principalmente Reino Unido e França, tanto no OM como as colônias alemãs na África, pois os territórios perdidos pelos demais se transformaram em países independentes, como as possessões dos Habsburgs nos Bálcãs (inicialmente, 1918, Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, que passou a chamar-se Reino da Iugoslávia em 1929 dirigido pela dinastia real sérvia dos Karađorđević).

Já o Otomano foi fatiado artificialmente em pedaços que interessavam às metrópoles, deixando a Turquia livre e os povos árabes, há séculos escravizados pelas hordas orientais e depois pelos turcos, acabaram possuindo somente governos títeres, na verdade totalmente controlados de Londres e Paris e dos escritórios das grandes empresas petrolíferas anglo-americanas. Desde antes do fim da Primeira Guerra Mundial os árabes foram traídos em seus anseios de independência, prometida pelo Tratado McMahon-Husayn de 1915 - que garantia a independência dos seus territórios desde que estes se aliassem à Inglaterra contra os turcos - pois em 1916 britânicos e franceses firmaram secretamente o Tratado Sykes-Picot onde previam a divisão do Oriente Médio em áreas controladas diretamente por cada um dos dois países, algumas áreas de influência, e mandato misto na Palestina, não deixando a menor chance de independência árabe (2).
Enquanto isto a atual Arábia Saudita, um reino hachemita independente desde o século XIII, foi formada por um verdadeiro “trio das Arábias”, que secretamente passaram a se valer dos legítimos aparelhos do Estado para interesses corporativos. Harry St. John Bridger Philby, ou Jack Philby, pai do mais famoso “Kim” Philby, o terrorista e assassino da radical seita Wahabbita, Abdul-Aziz ibn Abdul-Rahman Al Saud, ou ibn Saud, operando sob o comando de T. E. Lawrence, e Allen Dulles, irmão de John Foster Dulles – mais tarde todo poderoso Secretário de Estado de Eisenhower. Os irmãos Dulles eram os advogados de John Rockfeller. Em 1925 ibn Saud toma Meca, exila Hussein para Amman e funda a Arábia Saudita (e a dinastia que leva seu nome).
Os interesses do trio se uniram com o dos grandes negócios: a prospecção de petróleo na Arábia Saudita. O trio consegue uma concessão para a Standard Oil of Califórnia (SOCAL), controladora da Gulf Oil. Na década de 30, com a Grande Depressão, o capital americano do qual Rockfeller e Averel Harriman eram grandes investidores, passou a migrar para onde havia mais lucro: a Alemanha em plena reconstrução, através do Grupo Thyssen. Dulles estabelece uma rede financeira que abarca os donos do petróleo americanos, a Arábia Saudita e os grupos que armavam os nazistas, principalmente Thyssen e I G Farben, onde futuramente se fabricou o Zyklon-B, gás usado nas câmaras de gás dos campos de concentração, baseado numa fórmula originalmente desenvolvida pela Standard Oil para fabricação de borracha sintética.
Nada surpreendente, já que todos eram fanaticamente anti-semitas e contrários ao crescente movimento sionista, baseado na Declaração Balfour que consideravam uma “sórdida traição”. Ao fim da Segunda Guerra Mundial renasce o nacionalismo árabe e o movimento sionista conquista o território ambicionado e cria o Estado de Israel. Contra a vontade, mas sensibilizados pelo terror do Holocausto e pelo fait accompli criado pelos primeiros judeus que se instalaram lá, os países reunidos na ONU “criam” o já criado Estado de Israel. O nacionalismo árabe se escora nas divisões artificiais criadas pelo colonialismo anglo-gaulês, e não segundo as tradições do velho Sultanato. A “primavera” é uma tentativa de recriá-lo.
Notas:
(1) Inicialmente os romanos usaram esta expressão para se referir ao Mar Tirreno. Em 30 a.C., a dominação romana já se estendia da Hispânia ao Egito, e a expressão passou a ser usada para todo o mar Mediterrâneo, termo revivido no século XX pelo Duce.
(2) Para mais detalhes ver meu Auschwitz e principalmente The Secret War against the Jews: how the Western Espionage betrayed the Jewish People, de John Loftus & Mark Aarons, St. Martins Griffin, NY, 1994.


A "primavera" árabe e a crise econômica européia - II: de volta ao presente
Heitor De Paola - MSM
"O bem-estar do povo tem sido um excelente álibi para os tiranos."
Albert Camus
Mil e quinhentos anos depois do fim do Império Romano grande parte da história européia e do Oriente Médio (OM) ainda gira em torno do Mare Nostrum. Os países mais atingidos pela crise econômica, com exceção de Irlanda e Islândia, são os da franja ocidental e norte: Espanha, com Portugal a reboque, Itália e Grécia. E as expectativas da França não são das melhores(1). Por outro lado, os países que se vêem às voltas com a “primavera” são exatamente os das praias do sul e orientais: Tunísia, Líbia, Egito e Síria – a Argélia está sob ameaça constante, pois é uma panela de pressão prestes a explodir. Ao mesmo tempo, as ameaças se estendem principalmente a Israel, abominado por todos os governos "primaveris" que substituíram ditadores com retórica antissemita, mas com os quais Israel podia conversar, por partidos islâmicos radicalmente antissionistas. Só não viu isto a tempo quem não conhece a história do Islam ou estava mesmerizado pela mágica da palavra democracia. Democracia de forma nenhuma é sinônimo de liberdade; não passa de uma forma variável de escolha de dirigentes e só. E o Islam é incompatível com qualquer noção de liberdade individual, portanto é improvável, senão impossível, o estabelecimento de um regime semelhante às democracias ocidentais, em que predominam o respeito aos direitos individuais e o rule of law.
Como eu já havia previsto (2), as maiorias muçulmanas estão vencendo todas as eleições. Até mesmo na Tunísia, onde se poderia esperar algo mais parecido com a noção ocidental, o líder do partido vencedor, al-Nahda, Rashed Ghannouchi, assegurou que a condenação do Sionismo consta de um acordo entre os partidos vencedores. Ghannouchi nega que tal princípio será incluído na futura Constituição, mas ele mesmo faz parte de uma União Internacional de scholars muçulmanos liderada por Yussuf al-Qaradawi, e apoiou a anexação do Kwait por Saddam Hussein, além de ameaçar com ataques contra os EUA(3).
Os países em crise na Europa eram antigos colonizadores que continuaram após a descolonização, com interesses econômicos: a França, na Argélia, Líbano e Síria, a Espanha, no Marrocos, a Itália, na Líbia e a Inglaterra que está em melhor situação – melhor seria dizer ‘menos ruim’ – no Egito e no Iraque. Além de tudo estão expostas à avalanche imigratória muçulmana, o que põe o equilíbrio político interno e o equilíbrio diplomático numa sinuca de bico. O Egito, a maior potência regional, envolvido em conflitos internos, principalmente depois das eleições, em que o poder se dividiu entre a Fraternidade Muçulmana e o partido salafista Hizb al-Nour(4), sofre uma influência indireta dos aliados EUA e União Européia. Mas estes países jamais se atreveram a intervir militarmente como fizeram na Líbia e agora ameaçam a Síria. Quem disser que a intervenção era por razões humanitárias merece ganhar um pirulito, pois acreditam em Papai Noel – ou então são da mídia brasileira, que gravita há anos-luz de qualquer laivo de inteligência. Por que mataram mais civis do que todas as tropas de Kadhafi e deixaram intactos os campos de petróleo? Por que, mais recentemente, a empresa petrolífera francesa Total encerrou suas atividades na Síria “até que retorne a democracia”?
Os países em crise mais aguda precisam do petróleo do OM como um bebê precisa mamar.
Além disto, a crise européia é não só econômica, mas também política: o embate entre líderes nacionalistas e europeístas. Os que vibraram com as derrotas de Zapatero e Berlusconi não sabem que Rajoy e Mario Monti não passam de sátrapas da UE e do globalismo mundial oriundos das gerações política e emocionalmente comprometidas com a idéia de uma Europa unida e o fim do nacionalismo. E estão percebendo do que os povos ainda se julgam franceses, italianos, espanhóis, etc., e ameaçam voltar às suas moedas originais, mandando o Euro, que só serve à elite européia, às favas.
O que poucos perguntam é quem está por trás desta união espúria: lamentavelmente a velha Deutschland, para sempre antissemita, de onde partiu o novo design europeu. De Berlim partiram as pressões para a derrubada de Papandreu e Berlusconi e o financiamento da campanha espanhola(5). Será coincidência que a Turquia esteja simultaneamente tentando restaurar o Império Otomano(6)?
Mas isto é assunto para outro artigo.
Notas:
* - No artigo anterior, por ato falho ou negligência, pulei cinqüenta anos de história, afirmando que as colônias alemãs na África tinham se tornado independentes, quando o foram somente após a Segunda Guerra Mundial. Na verdade, foram protetorados britânicos e franceses também. Peço desculpas aos leitores.
(1) Enquanto escrevo este artigo as agências de avaliação de risco já pensam em rebaixar seu grau de confiabilidade de investimentos. Ver em http://www.lemonde.fr/election-presidentielle-2012/article/2011/12/07/sarkozy-tance-les-socialistes-et-parle-d-un-risque-d-explosion-pregnant-en-europe_1614517_1471069.html#ens_id=1268560
(2) Ver http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/oriente-medio/12517-israel-e-o-verdadeiro-alvo-da-qprimaveraq-arabe.html e principalmente http://www.midiasemmascara.org/artigos/internacional/oriente-medio/12293-analise-estrategica-das-revoltas-nos-paises-arabes.html.
(3) Ver em http://www.defenddemocracy.org/media-hit/a-tunisian-islamist-looks-to-the-future/
(4) Fui o primeiro no Brasil a falar neste partido e sua importância (ver nota 3).
(5) Ver http://www.stratfor.com/analysis/20111115-problems-facing-germanys-designs-europe
(6) Ver http://www.todayszaman.com/news-264801-turkey-to-restore-ottoman-mosques-in-middle-east.html

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