1 ano depois, êxito islâmico é como espectro sobre revoluções
A subida dos islâmicos alimenta e é alimentada por jogos de poder na região
SALEM H. NASSER ESPECIAL PARA A FOLHA
Desde que começaram as revoltas que vêm sacudindo o mundo árabe, eram esperadas grandes vitórias dos movimentos islâmicos quando as populações árabes fossem às urnas votar livremente.
E foi o que aconteceu na Tunísia, no Egito e também no Marrocos.
Essas vitórias decorrem da combinação de uma consciência generalizada e profunda da identidade religiosa com uma razoável incompetência dos demais grupos políticos que disputam a lealdade dos cidadãos.
No Ocidente, essas vitórias esperadas eram percebidas como um espectro a pairar sobre as revoluções árabes.
O temor declarado era de que, por meio de um procedimento democrático -as eleições-, os árabes escolhessem mal, elegendo islamistas, e fechassem para si as perspectivas de construírem sistemas democráticos.
Esse susto, por um lado, parece ignorar o caráter autoritário dos regimes contra os quais os revoltosos se levantam, ou, como essa ignorância é de difícil sustentação, deixa entender que autoritarismo islâmico seria pior do que outros, por ser islâmico; um dos estereótipos favoritos em nosso tempo.
Por outro lado, enquanto se cantam as odes à liberdade, parece emergir a tese de que os árabes não deveriam ser livres para errar, se de fato se tratar de erro.
Desafios de monta aguardam os povos árabes, alguns relacionados à construção de sociedades e sistemas políticos novos, num contexto em que a cultura e a identidade muçulmanas são centrais.
Como nesse exercício o direito tem papel fundamental, e como nessas sociedades tenderá a haver um retorno em força do direito islâmico, caberá aos árabes representar e interpretar esse direito de modo a garantir direitos fundamentais, a dignidade humana e a liberdade.
Respeitado o direito dos árabes de escolher livremente, não deve, no entanto, restar dúvida de que a subida dos movimentos islâmicos alimenta e é alimentada por jogos de poder na região.
Vários interesses parecem convergir em favor dos islamistas. A Arábia Saudita, que sempre teve ligações privilegiadas com os grupos islâmicos conservadores, vê uma chance de incrementar seu poder e sua influência na região, marcando pontos contra o Irã e contra a Síria.
A Turquia oferece a replicação de seu modelo como receita e visa com isso incrementar seu status e poder.
As potências ocidentais passam a enxergar a Irmandade Muçulmana e o modelo turco como as melhores alternativas de estabilidade, quando os regimes clientes vão sucumbindo, e como potenciais aliados contra a percebida ameaça iraniana. O espectro vai assim aparecendo mais simpático, para alguns.
SALEM H. NASSER é coordenador do Centro de Direito Global da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas
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