quarta-feira, 28 de março de 2012

A POLÍTICA DOS EUA ENGATA UMA LAMBANÇA ATRÁS DA OUTRA!

Coluna do Thomas L. Friedman
Política internacional americana: um festival de mentiras 
O historiador Victor Hanson escreveu recentemente um artigo brutalmente esclarecedor no “The National Review”, analisando as diferentes abordagens dos Estados Unidos para Iraque, Irã, Líbia, Síria, Egito, Paquistão e Afeganistão, e como, infelizmente, não se pode dizer que algumas delas funcionaram.
“Vamos rever as várias opções de políticas americanas para o Oriente Médio ao longo das últimas décadas”, escreveu Hanson. “Assistência militar ou intervenção punitiva sem ações posteriores em grande parte fracassaram. O veredicto ainda não foi proferido a respeito da muito mais cara construção de nação. Tentar ajudar insurgentes populares a derrubarem ditadores impopulares não garante algo melhor. Apoiar ditadores com ajuda militar é tanto odioso quanto contraproducente. Evitar regimes maníacos leva ou a aquisição de capacidade nuclear ou genocídio --ou a 6,5 hectares de escombros em Manhattan. O que aprendemos? Tribalismo, petróleo e fundamentalismo islâmico são uma mistura ruim, que deixa os americanos doentes e cansados do Oriente Médio --tanto quando intervém quanto quando tentam se manter de fora dele.”
E esse é o motivo para ser hora de repensarmos tudo o que estamos fazendo lá. O que o Oriente Médio mais precisa dos Estados Unidos atualmente são escolas modernas e verdades duras, e não encontramos uma forma de oferecer nenhuma delas. Porque Hanson está certo: o mal atual do Oriente Médio é a mistura tóxica de tribalismo, sectarismo xiita-sunita, fundamentalismo e petróleo --e o petróleo é o que constantemente nos tenta a intervir ou a apoiar ditadores.
Esse coquetel mina todas as exigências de uma sociedade que olha à frente --que são instituições que possam proporcionar um governo decente, política consensual que proporcione rotatividade no poder, direitos da mulher e uma ética de pluralismo que proteja as minorias e permita educação moderna. O Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe das Nações Unidas, de 2002, realizado por alguns corajosos cientistas sociais árabes, também disse algo semelhante: o mal do mundo árabe é o deficit de liberdade, o deficit de ensino moderno e um deficit de empoderamento da mulher.
Logo, ajudar a superar esses deficits deveria ser a política americana, mas parecemos incapazes de sustentar isso. Veja o Egito: mais da metade de suas mulheres e um quarto de seus homens não sabem ler. Os jovens egípcios que promoveram a revolução estão desesperados por ferramentas de ensino e liberdade para serem bem-sucedidos no mundo moderno. Nossa resposta deveria ser o deslocamento da ajuda financeira de equipamentos militares para a construção de colégios e faculdades comunitárias por todo o Egito.
Em vez disso, um ano depois, nós estamos na situação maluca de pagar US$ 5 milhões de fiança para a junta egípcia para soltar da cadeia os americanos defensores da democracia lá, ao mesmo tempo em que certificamos que a junta é liberalizadora e merece US$ 1,3 bilhão em ajuda para armamentos. Nós daremos mais US$ 1,3 bilhão em armas para um país cujos únicos predadores são o analfabetismo e a pobreza.
No Afeganistão, eu caio na gargalhada toda vez que ouço o governo Obama explicando que apenas precisamos treinar mais soldados afegãos para combate e então poderemos sair do país. Há algo mais engraçado? Os homens afegãos precisam ser treinados para lutar? Eles derrotaram os britânicos e os soviéticos!
O problema é que fizemos vista grossa para o fato de o presidente Hamid Karzai ter roubado a eleição e operar um regime corrupto. Então o presidente Barack Obama declarou que nossa política era promover um aumento de tropas americanas para eliminar o Taleban, para que o “bom” governo afegão pudesse entrar e tomar nosso lugar. Não existe esse governo. Nosso problema não é o fato dos afegãos não saberem lutar, mas sim que não existem pessoas suficientes com força de vontade para lutar pelo governo que eles têm. Quantas pessoas lutariam por Karzai se a gente não as pagasse?
E assim prossegue. No Paquistão, nós pagamos o exército paquistanês para ter duas caras, caso contrário, ele teria apenas uma cara e seria totalmente contra nós. No Bahrein, nós demos as costas enquanto os linhas-duras sunitas do governo esmagavam o movimento xiita que exigia maior participação no poder e assistimos em silêncio nosso aliado Israel construir mais assentamentos na Cisjordânia, o que sabemos que é um desastre para a democracia judaica.
Mas não dizemos a verdade para o Paquistão porque ele tem armas nucleares. Nós não dizemos a verdade para os sauditas porque somos viciados no petróleo deles. Não dizemos a verdade ao Bahrein porque precisamos de sua base naval. Não dizemos a verdade ao Egito porque tememos que ele abandone o Acordo de Camp David. Não dizemos a verdade para Israel porque ele tem votos. E não dizemos a verdade a Karzai porque Obama teme que John McCain o chame de banana.
Lamento, mas nada de bom pode vir de um solo tão rico em mentiras de nossa parte, e tão rico de sectarismo, tribalismo e fundamentalismo alimentado pelo petróleo por parte deles. Não me entenda mal. Eu acredito que mudança é possível e estou pronto para investir nela. Mas é preciso que eles a queiram, para começar. Eu apoiarei qualquer um na região que realmente compartilhe nossos valores --e a agenda do Relatório de Desenvolvimento Humano Árabe-- e esteja pronto para lutar por eles. Mas estou cheio de apoiar pessoas apenas por parecerem menos piores do que os outros e que, no final, acabam sendo igualmente ruins.
Onde as pessoas não compartilham nossos valores nós deveríamos nos isolar reduzindo nossa dependência de petróleo. Mas devemos parar de querer um bom governo mais do que eles, fazer vista grossa para comportamento ruim, nos dizer que no ano que vem será diferente, permanecer em uma guerra ruim por temor de sermos chamados de bananas ou de vender mais tanques para pessoas que não sabem ler.
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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