A realidade do ebola a um mundo de distância
Adam Nossiter - TINYT
Ahmed Jallanzo/Efe
Familiares choram pela morte de um homem vítima do vírus ebola no hospital John F. Kennedy, em Monróvia, capital da LibériaHá duas realidades a respeito da atual epidemia de ebola no Oeste da África - uma dentro da zona infectada, outra fora dela.
Fora da zona, uma droga milagrosa - ZMapp ou alguma versão dela - está chegando para afastar o problema. A narrativa ocidental de progresso científico exige nada menos. Dentro da zona, aldeões e moradores urbanos temerosos continuam escondendo parentes doentes, a cruzar fronteiras carregando a infecção e a tocar os cadáveres infectados nos funerais. Mais pessoas são infectadas e mais pessoas morrem. A epidemia avança, não a ciência.
Dentro da zona, a atenção está concentrada em permanecer vivo e lidar com a situação, não em atribuir culpa. Dentro da zona, a Médicos Sem Fronteiras, uma organização em grande parte europeia, já atingiu seu limite e é forçada a rejeitar doentes de ebola; os Centros para Controle e Prevenção de Doenças do governo dos Estados Unidos colocaram cientistas na luta contra o ebola - dezenas já foram enviados para a região, segundo os CDC -; e até mesmo a criticada Organização Mundial da Saúde enviou médicos, epidemiologistas e funcionários de saúde, que estão se colocando em risco.
Fora da zona, a histeria em torno do ebola levou a uma estigmatização coletiva de um grande pedaço do continente africano. Qualquer pessoa proveniente do Oeste da África é suspeita de ser portadora da doença. Dentro da zona, a vida prossegue, e as pessoas fazem compras nos mercados - mesmo que não exatamente do modo normal, mas pelo menos o mais normal que os mecanismos humanos de sobrevivência permitem. Perto dos portões do centro de tratamento do ebola em Guéckédou, Guiné, por exemplo, onde a epidemia teve início, um bar de aspecto licencioso chamado "Deuxième Bureau" ("Segundo Escritório"), uma referência local à casa onde se mantém uma mulher ou amante - ainda recebia clientes em meados de julho, mesmo enquanto doentes moribundos de ebola eram transportados diante dele.
O choque entre essas duas realidades era esperado, diante das circunstâncias extremas. É isso o que acontece quando um canto em desvantagem do mundo é atingido por uma calamidade, e o resto do mundo olha, de modo ansioso e imperfeito, de uma posição favorável na qual ninguém se preocupa com a ordem relativa, conta com fornecimento constante de eletricidade, água e com ar condicionado. Mas o contraste é particularmente notável desta vez, porque não há risco em simplesmente descer dos poucos aviões que ainda voam para Freetown, Conacri e Monróvia - diferente do que algumas pessoas no Ocidente parecem acreditar.
Mas aqui é onde as duas narrativas se encontram: porque há um medo real, dentro e fora da zona. Dentro da zona do ebola, o medo é baseado em uma realidade potente. O ebola mata cerca da metade de suas vítimas, a epidemia segue desenfreada e os recursos médicos em solo, em grande parte provenientes de outros lugares, não conseguem acompanhar o ritmo. Na verdade, eles estão perdendo terreno.
Essa verdade é difícil para as pessoas no Ocidente compreenderem. O mal-entendido é compreensível, porque um dos vírus mais mortais do mundo está afligindo as sociedades mais fracas e menos preparadas do mundo. As consequências desse confronto não poderiam ser menos que temíveis. Nada agora impede o avanço da doença, exceto agências de ajuda internacionais sobrecarregadas.
É difícil para as pessoas no Ocidente imaginarem a extensão da desorganização nesses países. Há uma ausência quase total de instituições que funcionem de modo eficaz, muito menos dedicadas ao atendimento de saúde. Anos de exploração por elites roubadoras - seguidos por guerras civis brutais que foram, de certo modo, a consequência inevitável - substituíram a construção de nação e de instituições na Libéria e Serra Leoa, os dois países mais duramente atingidos. Na Guiné, um ditador sinistro, ideologicamente motivado, governou o país com mão de ferro por um quarto de século.
A lição para os habitantes sitiados do país foi a mesma que a de seus vizinhos, uma lição que agora se desdobra com consequências terríveis. O Estado e as instituições sempre foram fontes de sofrimento, não de socorro.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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