sexta-feira, 19 de setembro de 2014

A realidade do ebola a um mundo de distância
Adam Nossiter - TINYT
Ahmed Jallanzo/Efe
Familiares choram pela morte de um homem vítima do vírus ebola no hospital John F. Kennedy, em Monróvia, capital da Libéria Familiares choram pela morte de um homem vítima do vírus ebola no hospital John F. Kennedy, em Monróvia, capital da Libéria
Há duas realidades a respeito da atual epidemia de ebola no Oeste da África - uma dentro da zona infectada, outra fora dela.
Fora da zona, uma droga milagrosa - ZMapp ou alguma versão dela - está chegando para afastar o problema. A narrativa ocidental de progresso científico exige nada menos. Dentro da zona, aldeões e moradores urbanos temerosos continuam escondendo parentes doentes, a cruzar fronteiras carregando a infecção e a tocar os cadáveres infectados nos funerais. Mais pessoas são infectadas e mais pessoas morrem. A epidemia avança, não a ciência.
Fora da zona, alguém deve ser culpado pela pior epidemia de ebola na história: os Estados Unidos ou a Europa, por não fornecerem ajuda ou dinheiro suficiente, ou as agências de saúde internacionais, por não dedicarem recursos suficientes ou por ainda não tê-la contido.
Dentro da zona, a atenção está concentrada em permanecer vivo e lidar com a situação, não em atribuir culpa. Dentro da zona, a Médicos Sem Fronteiras, uma organização em grande parte europeia, já atingiu seu limite e é forçada a rejeitar doentes de ebola; os Centros para Controle e Prevenção de Doenças do governo dos Estados Unidos colocaram cientistas na luta contra o ebola - dezenas já foram enviados para a região, segundo os CDC -; e até mesmo a criticada Organização Mundial da Saúde enviou médicos, epidemiologistas e funcionários de saúde, que estão se colocando em risco.
Fora da zona, a histeria em torno do ebola levou a uma estigmatização coletiva de um grande pedaço do continente africano. Qualquer pessoa proveniente do Oeste da África é suspeita de ser portadora da doença. Dentro da zona, a vida prossegue, e as pessoas fazem compras nos mercados - mesmo que não exatamente do modo normal, mas pelo menos o mais normal que os mecanismos humanos de sobrevivência permitem. Perto dos portões do centro de tratamento do ebola em Guéckédou, Guiné, por exemplo, onde a epidemia teve início, um bar de aspecto licencioso chamado "Deuxième Bureau" ("Segundo Escritório"), uma referência local à casa onde se mantém uma mulher ou amante - ainda recebia clientes em meados de julho, mesmo enquanto doentes moribundos de ebola eram transportados diante dele.
O choque entre essas duas realidades era esperado, diante das circunstâncias extremas. É isso o que acontece quando um canto em desvantagem do mundo é atingido por uma calamidade, e o resto do mundo olha, de modo ansioso e imperfeito, de uma posição favorável na qual ninguém se preocupa com a ordem relativa, conta com fornecimento constante de eletricidade, água e com ar condicionado. Mas o contraste é particularmente notável desta vez, porque não há risco em simplesmente descer dos poucos aviões que ainda voam para Freetown, Conacri e Monróvia - diferente do que algumas pessoas no Ocidente parecem acreditar.
Mas aqui é onde as duas narrativas se encontram: porque há um medo real, dentro e fora da zona. Dentro da zona do ebola, o medo é baseado em uma realidade potente. O ebola mata cerca da metade de suas vítimas, a epidemia segue desenfreada e os recursos médicos em solo, em grande parte provenientes de outros lugares, não conseguem acompanhar o ritmo. Na verdade, eles estão perdendo terreno.
Essa verdade é difícil para as pessoas no Ocidente compreenderem. O mal-entendido é compreensível, porque um dos vírus mais mortais do mundo está afligindo as sociedades mais fracas e menos preparadas do mundo. As consequências desse confronto não poderiam ser menos que temíveis. Nada agora impede o avanço da doença, exceto agências de ajuda internacionais sobrecarregadas.
É difícil para as pessoas no Ocidente imaginarem a extensão da desorganização nesses países. Há uma ausência quase total de instituições que funcionem de modo eficaz, muito menos dedicadas ao atendimento de saúde. Anos de exploração por elites roubadoras - seguidos por guerras civis brutais que foram, de certo modo, a consequência inevitável - substituíram a construção de nação e de instituições na Libéria e Serra Leoa, os dois países mais duramente atingidos. Na Guiné, um ditador sinistro, ideologicamente motivado, governou o país com mão de ferro por um quarto de século.
A lição para os habitantes sitiados do país foi a mesma que a de seus vizinhos, uma lição que agora se desdobra com consequências terríveis. O Estado e as instituições sempre foram fontes de sofrimento, não de socorro. 
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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