sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Jihadistas faturam US$ 3 milhões por dia vendendo petróleo pela Turquia
José Miguel Calatayud - El País
Administrar um Estado autodeclarado em meio a uma guerra não é barato. Como não o é manter remunerados, coordenados e abastecidos entre 20 mil e 30 mil combatentes, como faz a milícia jihadista do autoproclamado Estado Islâmico (EI) nos territórios que controla na Síria e no Iraque, onde impôs um regime muito violento, segundo sua interpretação extremista do islamismo sunita.
Para financiar suas atividades, o EI se serve de campos petrolíferos e refinarias em seu poder.
"A parte leste da Síria é rica em petróleo e está sob controle do EI. Estima-se que essa área esteja produzindo entre 50 mil e 60 mil barris diários, e o EI trafica essa quantidade da Síria para a Turquia", afirma Luay el Khatteeb, fundador e diretor do Instituto de Energia do Iraque e assessor do Parlamento de Bagdá.
Por meio desse contrabando, o EI resolveria o problema de não poder vender legalmente esse petróleo fora de seu território. "O único lugar para traficar petróleo do Iraque e da Síria é a Turquia", insiste El Khatteeb, também investigador-visitante no Centro Brookings de Doha.
Além disso, serviços de inteligência ocidentais afirmam que podem rastrear o tráfico de petróleo do Iraque para território turco em caminhões-tanque, segundo informações publicadas na mídia americana nos últimos dias.
O Estado Islâmico controla pelo menos três campos de petróleo na Síria e cinco no Iraque. Também administra uma refinaria e está sitiando outra no lado iraquiano, além de ter "algumas refinarias pequenas e rudimentares na Síria", segundo El Khatteeb.
O EI fica com parte do combustível que produz e vende pequenas quantidades em seu território, mas exporta para a Turquia grande parte de sua produção. Para isso, os jihadistas usam as mesmas redes de contrabando que atuam nas porosas fronteiras da região há gerações. Estima-se que essas atividades lhe rendam cerca de US$ 3 milhões por dia.
Além disso, o EI arrecada impostos e gera receitas mediante resgates de reféns e outros mecanismos de extorsão e, supostamente, também por meio do tráfico de mulheres e menores como escravas sexuais, ao que Khatteeb acrescenta o tráfico de antiguidades.
O presidente dos EUA, Barack Obama, iniciou uma campanha de bombardeios contra o EI e estabeleceu uma coalizão internacional contra os jihadistas, cujos objetivos incluem interromper o negócio de petróleo do EI.
A Turquia é membro da Otan e compartilha 1.260 quilômetros de fronteira com a Síria e o Iraque. Era o único país muçulmano dos dez membros originais da coalizão contra o jihadismo. No entanto, até agora o governo turco insistiu em que vai manter um papel secundário e só participará de operações humanitárias e de logística, além de negar à coalizão o uso militar de suas bases aéreas.
Ancara se justifica indicando que o EI tem em seu poder pelo menos 46 reféns turcos (outras informações falam em 49), entre eles pessoal diplomático, forças de segurança e crianças, e também teme atentados jihadistas na Turquia. Além disso, os analistas afirmam que o governo turco não quer participar de operações que possam fortalecer alguns de seus inimigos que também lutam contra o EI, como o regime sírio do presidente Bashar al-Assad e a milícia do Partido dos Trabalhadores do Curdistão, formada por curdos procedentes de território turco.
Outras informações sugerem que a relação da Turquia com o EI é ainda mais complexa. A imprensa local afirmou no início de agosto que mais de mil cidadãos turcos haviam se unido ao EI, e atualmente essa cifra poderia chegar a 3.000. Além disso, no sul, a população local se aproveita dos baixos preços do combustível praticados pelos jihadistas, que pode custar menos da metade que o legal.
Nos últimos dias, vários membros do governo negaram todas essas acusações.
"Para nós, não é possível tolerar que o EI e outros grupos trafiquem petróleo", disse o presidente Recep Tayyip Erdogan.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Nenhum comentário: