Após protestos, Paquistão vira o ''país do contêiner'', com vários espalhados pelas ruas
Após semanas de levante no Paquistão, caixas gigantes enchem a capital Islamabad
Bina Shah - TINYT
Faisal Mahmood/Reuters
Manifestantes derrubam barricada de contêiner durante protesto no início do mês contra o governo em Islamabad Em uma eleição paquistanesa, cada partido é representado por um ícone na cédula --o Partido do Povo do Paquistão é uma flecha, a Liga Muçulmana-Nawaz do Paquistão é um tigre, o Partido Nacional Awami é uma lanterna-- para que os eleitores analfabetos possam identificar os candidatos. Pode ser apenas questão de tempo até que um partido adote um contêiner de carga como a imagem mais ubíqua da política paquistanesa. Após um mês de levante em Islamabad, as caixas gigantes desajeitadas agora enchem a capital, após terem sido usadas como bloqueios de rua para frustrar os manifestantes, como plataforma de onde incitá-los --e em tamanha profusão que alguns paquistaneses estão chamando seu país de "Conteineristão". Em meados de agosto, o Movimento por Justiça no Paquistão, um partido comandado pelo ex-astro do críquete Imran Khan, iniciou os protestos, com pedidos pela renúncia de Nawaz Sharif, o atual primeiro-ministro, e por ampla reforma eleitoral, com o argumento de que a eleição dele em 2013 foi manipulada. O líder religioso Muhammad Tahir-ul Qadri, que lidera o Movimento do Povo do Paquistão, se juntou a Khan. Os dois acamparam em Islamabad ao lado de seus simpatizantes, onde permanecem, apesar de em número cada vez menor. Antes dos protestos, Khan podia viajar as três horas de carro de Lahore e chegar até fora da zona vermelha de Islamabad, uma área de segurança que abriga os prédios do governo do Paquistão e as missões diplomáticas. Mas poucos dias antes dos protestos, as agências de segurança colocaram contêineres de carga nos bulevares que levam à zona. A meta: impedir que multidões tentassem se reunir ali. "Isto não faz parte do Paquistão?" reagiu Khan, transformando o bloqueio em outro ultraje a ser condenado. No silêncio do governo, a resposta ficou clara: bem-vindo ao Conteineristão. Essa não foi a primeira vez que um líder paquistanês usa contêineres de carga como bloqueios de rua. Em um programa da "BBC", o jornalista paquistanês Fahad Desmukh rastreou o fenômeno até 2007 e um conflito entre o general Pervez Musharraf, o presidente na época, e o ministro chefe da Supremo Corte, Iftikhar Muhammad Chaudhry. O jurista chegaria ao aeroporto de Karachi em 12 de maio daquele ano, onde faria um comício. Mas da noite para o dia, dezenas de contêineres apareceram nas ruas, impedindo que os manifestantes fossem ao aeroporto para recebê-lo. Tiroteios ocorreram entre os simpatizantes de Musharraf e os simpatizantes do ministro-chefe; 40 pessoas morreram.
Então os contêineres se transformaram de bloqueios de rua em residências revolucionárias: Qadri morou em um durante sua própria longa marcha, em 2013, e durante os atuais protestos. Khan já morou em outro. Mas essas habitações não são contêineres comuns; elas mais se parecem com os trailers dos astros de cinema, feitos de material à prova de bala e contendo ar-condicionado e banheiros. O de Khan teria custado 74 mil libras, ou cerca de US$ 120 mil. Eles são transportados de uma cidade a outra para comícios. À noite, o ocupante sobe nele e faz seu discurso enquanto multidões aplaudem, dançam e acenam bandeiras e cartazes. As coisas certamente mudaram desde os tempos de Benazir Bhutto, cujas longas marchas eram conduzidas sobre um caminhão especialmente adaptado que, apesar de sólido, oferecia pouca proteção contra bombas terroristas. Ela foi assassinada em 27 de dezembro de 2007, enquanto deixava um comício em um veículo ainda menor.
No início dos atuais protestos, os seguidores de Khan arrumaram um guindaste para mover os contêineres que os bloqueavam; então as multidões seguiram para a zona vermelha. Pode não ter sido tão glorioso quanto a tomada da Bastilha em 1789. Mas por um momento na manchada história política do Paquistão, as imagens de pessoas comuns sobrepujando as barricadas inspiraram os cidadãos a se perguntarem se elas poderiam ser mais importantes para sua república do que os governos desinteressados pelo povo que os governavam.
Os líderes dos dois partidos então convocaram comícios noturnos em D-Chowk, uma praça gramada diante da Supremo Corte que foi comparada, de uma forma um tanto simplista, à Praça Tahrir do Cairo. Passadas duas semanas e sem uma solução em vista, Khan e Qadri disseram aos seus simpatizantes para marcharem pacificamente até a residência do primeiro-ministro. De novo, o guindaste veio para abrir caminho. Mas dessa vez, a polícia prendeu seu operador e atirou gás lacrimogêneo contra os manifestantes, que se defenderam com paus e estilingues. Centenas ficaram feridos e vários morreram. Os caos político paralisa Islamabad desde então.
Agora, enquanto os protestos perdem força e a cidade começa a voltar ao normal, a única coisa que parece permanente é a presença dos imensos contêineres nas ruas. Como relatou Desmukh, eles vieram para ficar. Em tempos comuns, a experiência do Paquistão com contêineres de carga é bem menos grandiosa: caminhões gigantes carregando contêineres presos de forma precária ameaçam os pedestres e outros motoristas em uma via movimentada, com a possibilidade do contêiner poder se soltar e cair sobre você a qualquer momento. Famílias inteiras já foram esmagadas quando contêineres caem sobre carros.
Essa é uma metáfora involuntariamente apta para a vida no Paquistão atualmente, graças à arrogância e indiferença das pessoas que nos governam, sejam ditadores ou democratas. Independente dos políticos paquistaneses desafiarem o contêiner ou o adaptarem para seu próprio uso, nós saberemos que as coisas mudaram para melhor apenas quando todos os contêineres voltarem para os estaleiros de onde pertencem.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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