Se for declarado culpado, Ilham Tohti enfrentará pena entre dez anos de prisão e a morte
Macarena Vidal Ly - El País
Reuters
Homem da etnia Uigur monta um cavalo em Yili, região autônoma de Xinjiang, na ChinaAs autoridades judiciais chinesas começaram nesta quarta-feira (17) o julgamento por separatismo contra o importante catedrático uigur Ilham Tohti. Caso seja considerado culpado, a sentença poderá oscilar entre dez anos de prisão e a pena de morte. Tohti, de 44 anos, é uma das vozes mais conhecidas e moderadas entre os defensores dos direitos dos uigures, uma etnia de religião muçulmana majoritária na província de Xinjiang, no noroeste da China, onde se multiplicaram os incidentes de violência étnica nos últimos anos.
Tohti foi detido em sua residência em Pequim em 14 de janeiro passado, na presença de seu filho de 8 anos, e transferido para Urumqi. Só teve permissão para se reunir com os advogados cinco meses depois e teve que esperar oito meses para ver sua família. Antes de sua prisão, já tinha sido impedido de viajar para os EUA, onde ocuparia um cargo de professor visitante na Universidade de Indiana, e fora objeto de vários incidentes de assédio.
Catedrático de economia na Universidade das Minorias em Pequim, ele se pronunciou em diversas ocasiões contra o que considera políticas errôneas e discriminatórias do governo central contra seu povo, embora sempre tenha apostado em resolver as diferenças por meio do diálogo.
Tanto os EUA como a UE e diversas organizações pró-direitos humanos exigiram a libertação de Tohti. A organização Human Rights Watch indicou em um comunicado na terça-feira que o processo contra o acadêmico não só "representa um exemplo alarmante de julgamento politizado e de intolerância contra as críticas pacíficas", como também "agrava as percepções de discriminação contra os uigures".
Os críticos do julgamento alertaram sobre a possibilidade de que uma sentença condenatória contra Tohti possa contribuir para exacerbar ainda mais as tensões étnicas em Xinjiang.
"Ao maltratar e castigar o professor Tohti, a China vai queimar as pontes de reconciliação pacífica entre a população uigur (nativa de Xinjiang) e os colonos chineses e aumentará a tensão política", salienta em um comunicado Alim Seytoff, presidente da Associação de Uigures dos EUA, um dos países onde a comunidade uigur no exílio é mais numerosa.
Durante o último ano, as tensões em Xinjiang entre os uigures e a população chinesa de etnia han se tornaram cada vez mais fortes. Em outubro do ano passado, um veículo conduzido por separatistas uigures, segundo a versão oficial chinesa, atropelou vários pedestres na Praça Tianamen, o coração geográfico e histórico de Pequim, antes de se incendiar sob o retrato de Mao Tsetung, que domina o local, em um incidente no qual morreram três pessoas. Desde então ocorreram vários episódios de violência, tanto em Xinjiang como em províncias distantes, que as autoridades chinesas atribuem a separatistas uigures. O mais grave deles ocorreu em Urumqi, em maio, quando morreram 39 pessoas e 94 ficaram feridas em uma série de explosões em um mercado.
Os uigures se sentem discriminados na prática de sua língua e sua religião, assim como no campo trabalhista, devido à migração maciça de chineses da etnia han, majoritária no país, para Xinjiang, uma zona rica em recursos naturais. Os uigures, que já foram a maioria avassaladora na região que ficou sob o controle da República Popular em 1949, hoje representam apenas a metade da população da província.
O governo chinês respondeu com mão dura na hora de enfrentar a violência. Deteve e julgou centenas de pessoas e impôs penas firmes contra as que considera culpadas de separatismo. Na semana passada, condenou à morte três pessoas e à prisão perpétua uma outra, depois de declará-las culpadas de participar de um atentado contra a estação ferroviária de Kunming, no sudoeste da China, onde quase 30 pessoas morreram a facadas em março.
Ao mesmo tempo, tentou reduzir as diferenças no nível de vida entre hans e uigures mediante iniciativas econômicas. Uma das mais controvertidas é a estabelecida pelas autoridades locais do condado de Qiemo, no sul de Xinjiang, que oferecem até 10 mil iuanes (cerca de 1.200 euros) a serem pagos ao longo de cinco anos aos casais mistos que contraiam matrimônio. Em agosto, foi anunciada a construção de sete novas cidades na província, com o objetivo de gerar emprego, combater a pobreza e fomentar os intercâmbios interétnicos.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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