Escândalo de abuso sexual contra crianças em Rotherham expôs os perigos do isolamento cultural
Sarfraz Manzoor - TINYT
Um homem foi visitar recentemente o representante de Rotherham, Yorkshire, no Parlamento, com uma pergunta a fazer. Hoje com seus 50 anos de idade, ele chegou do Paquistão há três décadas. Depois de uma vida inteira de trabalho duro, ele não conseguia entender por que seus filhos não demonstravam os mesmos valores muçulmanos que ele tinha, por que não mostravam respeito nem queriam trabalhar tão duro quanto ele.
"Eu fiz de tudo para criá-los direito", disse o homem ao membro do Parlamento, "e não sei onde foi que eu errei".
O que deu errado em Rotherham, e que está dando errado com esta
comunidade paquistanesa, são as perguntas que estão sendo feitas com
frequência nas últimas semanas: como esta pequena cidade desamparada no
norte da Inglaterra se tornou o centro do abuso sexual de menores em uma
escala tão épica e horripilante?
De acordo com o relatório oficial publicado em agosto, houve cerca de 1.400 vítimas. E elas eram, na maioria, garotas brancas, pobres e vulneráveis, enquanto a grande maioria dos perpetradores eram homens, principalmente jovens, da comunidade paquistanesa da cidade.
Shaun Wright, comissário de polícia que era responsável pelos serviços para menores em Rotherham, apresentou-se diante do Parlamento depois de ter se recusado a renunciar por causa do escândalo. O escândalo custou o emprego tanto do diretor-executivo quanto do líder do conselho municipal, e quatro conselheiros municipais do Partido Trabalhista foram suspensos.
Uma explicação comum para o que a secretária de Interior, Theresa May, descreveu como uma "total negligência ao dever" por parte dos funcionários públicos de Rotherham seria o fato de que o conselho, controlado pelo Partido Trabalhista, não estava disposto a confrontar o fato de que os criminosos tinham origem paquistanesa, por motivos de ideologia e conveniência política. Diz-se que uma investigação adequada foi obstruída pelo politicamente correto --ou, nas palavras de um ex-membro local do Parlamento, uma cultura de "não querer perturbar o equilíbrio multicultural local".
Isso, contudo, é apenas uma explicação prática e partidária. Ela não responde como uma comunidade antes famosa por ser "mais inglesa que os ingleses" --virtuosa, despretensiosa e esforçada-- é agora condenada por abrigar o abuso sexual contra crianças em seu meio.
Os paquistaneses começaram a chegar em grande número a Rotherham no final dos anos 1950 e início dos 1960, em uma onda de imigração que levou homens do subcontinente indiano à Inglaterra, em grande parte para fazer trabalhos que a classe trabalhadora branca não queria mais fazer. Meu pai fez parte dessa primeira onda. Ele trabalhou na linha de produção da fábrica de carros Vauxhall em Luton, uma cidade pouco atraente ao norte de Londres. Em Rotherham, muitos homens paquistaneses acabaram trabalhando em meio ao pó e à sujeira na fundição de aço.
Os novos imigrantes vinham de vilarejos rurais, normalmente da Caxemira, a província ao norte que faz fronteira com a Índia; eram socialmente conservadores e trabalhavam duro. Quando eu cresci nos anos 1980, o estereótipo do paquistanês era de que nós éramos diligentes e dóceis.
A comunidade paquistanesa em Rotherham e em outros lugares da Inglaterra não seguiu o arco de narrativa usual dos imigrantes, de casamentos com os nativos e integração. O costume de casar os homens com suas primas de primeiro grau no Paquistão significava que a mentalidade patriarcal de vilarejo era continuamente revigorada.
A comunidade paquistanesa britânica costuma parecer parada no tempo; ela progrediu pouco e continua surpreendentemente pobre. A taxa de desemprego para os jovens muçulmanos sem muita escolaridade está perto dos 40%, e mais de dois terços dos lares paquistaneses estão abaixo da linha de pobreza.
Meus primeiros anos em Luton foram vividos dentro de uma bolha paquistanesa. Todo mundo que minha família conhecia era paquistanês, e a maioria dos meus colegas na escola era paquistanesa. Eu não consigo me lembrar de nenhuma pessoa branca que tivesse visitado nossa casa.
Rotherham tem a terceira população muçulmana mais segregada da Inglaterra: a maioria da comunidade paquistanesa, 82%, vive em apenas três colégios eleitorais do conselho municipal. O comparecimento às urnas chega a ser tão baixo quanto 30%, então as cadeiras podem ser conquistadas ou perdidas por um punhado de votos --uma situação que facilmente leva ao patronato e ao clientelismo.
Rotherham é fortemente Trabalhista; o último membro do Parlamento conservador perdeu sua cadeira um mês depois que Adolf Hitler foi eleito chanceler da Alemanha. Os políticos trabalhistas que governaram Rotherham na última década entraram na política durante o movimento antirracismo dos anos 1970 e 1980. Seu instinto político --e interesse próprio-- era o de não confrontar ou alienar os eleitores paquistaneses. Era bem mais fácil se aliar aos líderes conservadores da comunidade, que por sua vez mantinham o poder ficando do lado direito da comunidade.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que tão poucas pessoas falaram sobre a cultura que produziu os crimes --uma cultura de misoginia, criticada em 2012 pela baronesa Sayeeda Warsi, uma política conservadora que foi criada perto de Rotherham. Segundo ela, essa cultura permite que alguns homens paquistaneses considerem as jovens brancas "presas fáceis". Seria necessário um líder corajoso, paquistanês ou não, para dizer à comunidade paquistanesa que ela precisa lidar com essas questões, ou que o caminho para o progresso exigiria que os pais paquistaneses fossem menos rígidos e permitissem que seus filhos e filhas se casem.
Se os paquistaneses britânicos da classe trabalhadora tivessem sido mais bem representados nos grupos que os abandonaram --a classe política, a polícia, a mídia e as agências de proteção a menores--, pode-se argumentar que teria havido uma atitude menos melindrosa em relação ao multiculturalismo. Os paquistaneses britânicos podem estar atrasados por conta do racismo e da pobreza, mas, ao permanecerem fieis a preconceitos ultrapassados e temerem tanto a cultura dominante ao seu redor, eles segregam a si mesmos.
Eu devo muito ao fato de minha família ter deixado a monocultura paquistanesa de Luton e se mudado para um bairro de maioria branca, onde aprendi a questionar muitas das atitudes e expectativas que meus pais haviam instilado em mim. Uma brisa esclarecedora de modernidade precisa soprar por aqueles bolsões da Inglaterra que permanecem para sempre paquistaneses.
O repugnante em relação ao abuso sexual de menores é que ele não está limitado a um país, comunidade ou credo --veja os casos de astros brancos famosos da televisão que foram condenados pelo crime na Inglaterra e a experiência da Igreja Católica na Irlanda e nos Estados Unidos. A maioria dos homens paquistaneses, em Rotherham ou em outros lugares, não busca a criminalidade e nem decide viver abusando de menores. Mas os abusadores de Rotherham descobriram que sua etnicidade os protegia porque eles pertenciam a uma comunidade que poucos desejavam confrontar.
O que pode parecer uma história de raça e religião, contudo, está muito mais relacionada com poder, classe e gênero. Os paquistaneses que estupraram e atuaram como gigolôs saíram impunes porque tinham como alvo uma comunidade ainda mais marginal e vulnerável que a deles, uma comunidade com pouca voz e menos força: as jovens brancas da classe trabalhadora.
Na pressa em denunciar o multiculturalismo, seria mais sábio considerar não só o que deu aos perpetradores a licença para cometer os abusos, mas também refletir sobre o que levou as vítimas a serem tão desvalorizadas a ponto de seus gritos serem ignorados.
Tradutor: Eloise De Vylder
De acordo com o relatório oficial publicado em agosto, houve cerca de 1.400 vítimas. E elas eram, na maioria, garotas brancas, pobres e vulneráveis, enquanto a grande maioria dos perpetradores eram homens, principalmente jovens, da comunidade paquistanesa da cidade.
Shaun Wright, comissário de polícia que era responsável pelos serviços para menores em Rotherham, apresentou-se diante do Parlamento depois de ter se recusado a renunciar por causa do escândalo. O escândalo custou o emprego tanto do diretor-executivo quanto do líder do conselho municipal, e quatro conselheiros municipais do Partido Trabalhista foram suspensos.
Uma explicação comum para o que a secretária de Interior, Theresa May, descreveu como uma "total negligência ao dever" por parte dos funcionários públicos de Rotherham seria o fato de que o conselho, controlado pelo Partido Trabalhista, não estava disposto a confrontar o fato de que os criminosos tinham origem paquistanesa, por motivos de ideologia e conveniência política. Diz-se que uma investigação adequada foi obstruída pelo politicamente correto --ou, nas palavras de um ex-membro local do Parlamento, uma cultura de "não querer perturbar o equilíbrio multicultural local".
Isso, contudo, é apenas uma explicação prática e partidária. Ela não responde como uma comunidade antes famosa por ser "mais inglesa que os ingleses" --virtuosa, despretensiosa e esforçada-- é agora condenada por abrigar o abuso sexual contra crianças em seu meio.
Os paquistaneses começaram a chegar em grande número a Rotherham no final dos anos 1950 e início dos 1960, em uma onda de imigração que levou homens do subcontinente indiano à Inglaterra, em grande parte para fazer trabalhos que a classe trabalhadora branca não queria mais fazer. Meu pai fez parte dessa primeira onda. Ele trabalhou na linha de produção da fábrica de carros Vauxhall em Luton, uma cidade pouco atraente ao norte de Londres. Em Rotherham, muitos homens paquistaneses acabaram trabalhando em meio ao pó e à sujeira na fundição de aço.
Os novos imigrantes vinham de vilarejos rurais, normalmente da Caxemira, a província ao norte que faz fronteira com a Índia; eram socialmente conservadores e trabalhavam duro. Quando eu cresci nos anos 1980, o estereótipo do paquistanês era de que nós éramos diligentes e dóceis.
A comunidade paquistanesa em Rotherham e em outros lugares da Inglaterra não seguiu o arco de narrativa usual dos imigrantes, de casamentos com os nativos e integração. O costume de casar os homens com suas primas de primeiro grau no Paquistão significava que a mentalidade patriarcal de vilarejo era continuamente revigorada.
A comunidade paquistanesa britânica costuma parecer parada no tempo; ela progrediu pouco e continua surpreendentemente pobre. A taxa de desemprego para os jovens muçulmanos sem muita escolaridade está perto dos 40%, e mais de dois terços dos lares paquistaneses estão abaixo da linha de pobreza.
Meus primeiros anos em Luton foram vividos dentro de uma bolha paquistanesa. Todo mundo que minha família conhecia era paquistanês, e a maioria dos meus colegas na escola era paquistanesa. Eu não consigo me lembrar de nenhuma pessoa branca que tivesse visitado nossa casa.
Rotherham tem a terceira população muçulmana mais segregada da Inglaterra: a maioria da comunidade paquistanesa, 82%, vive em apenas três colégios eleitorais do conselho municipal. O comparecimento às urnas chega a ser tão baixo quanto 30%, então as cadeiras podem ser conquistadas ou perdidas por um punhado de votos --uma situação que facilmente leva ao patronato e ao clientelismo.
Rotherham é fortemente Trabalhista; o último membro do Parlamento conservador perdeu sua cadeira um mês depois que Adolf Hitler foi eleito chanceler da Alemanha. Os políticos trabalhistas que governaram Rotherham na última década entraram na política durante o movimento antirracismo dos anos 1970 e 1980. Seu instinto político --e interesse próprio-- era o de não confrontar ou alienar os eleitores paquistaneses. Era bem mais fácil se aliar aos líderes conservadores da comunidade, que por sua vez mantinham o poder ficando do lado direito da comunidade.
Essa dinâmica ajuda a explicar por que tão poucas pessoas falaram sobre a cultura que produziu os crimes --uma cultura de misoginia, criticada em 2012 pela baronesa Sayeeda Warsi, uma política conservadora que foi criada perto de Rotherham. Segundo ela, essa cultura permite que alguns homens paquistaneses considerem as jovens brancas "presas fáceis". Seria necessário um líder corajoso, paquistanês ou não, para dizer à comunidade paquistanesa que ela precisa lidar com essas questões, ou que o caminho para o progresso exigiria que os pais paquistaneses fossem menos rígidos e permitissem que seus filhos e filhas se casem.
Se os paquistaneses britânicos da classe trabalhadora tivessem sido mais bem representados nos grupos que os abandonaram --a classe política, a polícia, a mídia e as agências de proteção a menores--, pode-se argumentar que teria havido uma atitude menos melindrosa em relação ao multiculturalismo. Os paquistaneses britânicos podem estar atrasados por conta do racismo e da pobreza, mas, ao permanecerem fieis a preconceitos ultrapassados e temerem tanto a cultura dominante ao seu redor, eles segregam a si mesmos.
Eu devo muito ao fato de minha família ter deixado a monocultura paquistanesa de Luton e se mudado para um bairro de maioria branca, onde aprendi a questionar muitas das atitudes e expectativas que meus pais haviam instilado em mim. Uma brisa esclarecedora de modernidade precisa soprar por aqueles bolsões da Inglaterra que permanecem para sempre paquistaneses.
O repugnante em relação ao abuso sexual de menores é que ele não está limitado a um país, comunidade ou credo --veja os casos de astros brancos famosos da televisão que foram condenados pelo crime na Inglaterra e a experiência da Igreja Católica na Irlanda e nos Estados Unidos. A maioria dos homens paquistaneses, em Rotherham ou em outros lugares, não busca a criminalidade e nem decide viver abusando de menores. Mas os abusadores de Rotherham descobriram que sua etnicidade os protegia porque eles pertenciam a uma comunidade que poucos desejavam confrontar.
O que pode parecer uma história de raça e religião, contudo, está muito mais relacionada com poder, classe e gênero. Os paquistaneses que estupraram e atuaram como gigolôs saíram impunes porque tinham como alvo uma comunidade ainda mais marginal e vulnerável que a deles, uma comunidade com pouca voz e menos força: as jovens brancas da classe trabalhadora.
Na pressa em denunciar o multiculturalismo, seria mais sábio considerar não só o que deu aos perpetradores a licença para cometer os abusos, mas também refletir sobre o que levou as vítimas a serem tão desvalorizadas a ponto de seus gritos serem ignorados.
Tradutor: Eloise De Vylder
Nenhum comentário:
Postar um comentário