sexta-feira, 26 de setembro de 2014



Para o Reino Unido, combater o EI pode aumentar o risco em casa
Alan Cowell - NYT
AFP
Vídeo divulgado pelo EI mostra supostamente o fotojornalista britânico John Cantlie em um local secreto, onde estaria sendo mantido em cativeiro Vídeo divulgado pelo EI mostra supostamente o fotojornalista britânico John Cantlie em um local secreto, onde estaria sendo mantido em cativeiro
As imagens se tornaram tão familiares quanto repulsivas: uma vítima, envolta em cor de laranja, ajoelhada, forçada a recitar o roteiro do propagandista; um executor mascarado, vestido de preto, em pé ao seu lado, com faca em punho, declamando sua própria ladainha de queixas anti-Ocidente antes de realizar um assassinato ritualizado diante de uma câmera de vídeo no deserto.
O simbolismo pretendido é inconfundível nesses trechos breves da guerra desigual contra os militantes sunitas do Estado Islâmico (EI): as vítimas, tanto emblemas quanto cidadãos de terras ocidentais, devem se ajoelhar perante o mais novo poder. O ato macabro de decapitação representa a natureza inexorável desse poder.
Com as execuções primeiro dos americanos James Foley, noticiada em 19 de agosto, e Steven J. Sotloff, em 2 de setembro, depois do britânico David Cawthorne Haines, em 13 de setembro, os militantes encenaram uma parábola de seu próprio domínio.
No Reino Unido, há outro elemento sombrio nessa narrativa mortal. Em todas as três decapitações, a figura encapuzada fala com o que parece ser um sotaque britânico. Em outras palavras, um militante britânico é mostrado como colocando um fim à vida de um trabalhador de ajuda humanitária britânico igualmente distante da terra que moldou tanto o sonho jihadista de um quanto a visão filantrópica do outro.
Uma quarta vítima, Alan Henning, um ex-taxista de 47 anos do noroeste da Inglaterra, raptado após entregar suprimentos médicos no norte da Síria em dezembro, aguarda o próximo ato desse drama escabroso. (Na quinta-feira, uma nova cena macabra foi exibida, mostrando outro refém britânico oferecendo uma explicação roteirizada do ponto de vista dos militantes.)
A mensagem inevitável para as autoridades britânicas, enquanto pesam a busca do presidente Obama por aliados em sua guerra aérea contra os militantes, é que devem contemplar não apenas mais uma campanha longínqua como parceiro menor dos Estados Unidos, mas também seu impacto sobre um inimigo interno –os mais novos herdeiros dos terroristas domésticos que atacaram o sistema de transporte público de Londres em 7 de julho de 2005, matando 52 pessoas.
Segundo os serviços de segurança em Londres, até 500 jovens britânicos teriam se juntado às fileiras do Islã militante, no que começou como uma guerra civil contra o governo autoritário do presidente Bashar al-Assad na Síria, e se transformou em uma busca pela restauração do califado islâmico desmontado há 90 anos, após a Primeira Guerra Mundial.
A imagem de um compatriota sendo decapitado deveria inflamar os britânicos, possivelmente sobrepujando a profunda hesitação com aventuras militares no exterior, à medida que suas tropas se preparam para deixar o Afeganistão após sua saída do Iraque, em 2009.
Mas, se o Reino Unido se juntar à guerra aérea contra os militantes do Estado Islâmico, ele travará uma batalha mais complexa pelas percepções, corações e mentes: comparadas às imagens das decapitações, as imagens granuladas de cockpit dos mísseis ocidentais destruindo alvos muçulmanos poderiam persuadir mais jovens britânicos a se juntarem às fileiras militantes. É da natureza da guerra assimétrica na era digital que os vídeos pela Internet ofereçam uma arma potente contra munições guiadas com precisão.
Como em campanhas anteriores, conflagrações distantes podem espalhar suas chamas em casa, onde o serviço doméstico MI5 já aumentou seu alerta de ameaça terrorista para "severo", a segunda categoria mais alta. E a missão poderia mudar: o general Martin E. Dempsey, o mais alto assessor militar do presidente Obama, já falou sobre a possibilidade de uso de forças terrestres.
A interação tóxica de preocupações de segurança domésticas e imperativos de política externa não foi ignorada pelos militantes que escreveram o roteiro de Haines. "Você entrou voluntariamente em uma coalizão com os Estados Unidos contra o Estado Islâmico, assim como fez seu antecessor, Tony Blair", disse o cativo em sua mensagem gravada em vídeo para Cameron. "Infelizmente, seremos nós, o público britânico, que no final pagaremos o preço pelas decisões interesseiras de nosso Parlamento."
A intenção dos militantes poderia ser atrair o Ocidente para um confronto histórico. Mas seu propósito também poderia ser alertar os líderes ocidentais para não se meterem. "Fazendo o papel do cãozinho obediente, Cameron apenas arrastará você e seu povo para outra guerra sangrenta e impossível de vencer", disse o executor no vídeo.  
Tradutor: George El Khouri Andolfato

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