sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Chineses mais ricos sonham em fazer as malas
Harold Thibault - Le Monde
Para os chineses mais ricos, sucesso é poder fazer as malas. Segundo uma pesquisa publicada na segunda-feira (15) pelo Barclays, 47% dos mais afortunados do Império do Meio consideram ir viver no exterior dentro dos próximos cinco anos. Em termos de comparação, somente 20% dos britânicos, 6% dos americanos e 5% dos indianos mais ricos pensam em sair do país.
O banco britânico entrevistou 2.000 pessoas de 23 países cujo patrimônio é superior a US$ 1,5 milhão. Entre elas, 200 possuem mais de US$ 15 milhões.
O destino favorito dos chineses continua sendo Hong Kong, para onde 30% deles querem ir. Reanexada em 1997 à República Popular da China, a ex-colônia britânica tem o status de região administrativa especial. A qualidade de seus serviços de educação e de saúde, assim como seu Estado de direito, atraem os bilionários da China continental.
Em compensação, os habitantes de Hong Kong, que já estão preocupados em ver Pequim voltando atrás em sua promessa de instaurar o voto universal, temem que o afluxo de seus vizinhos sufoque seus privilégios.

Partir pelos filhos

Na ordem de preferência dos chineses, depois vêm os países que atribuem com certa facilidade a cidadania, sobretudo o Canadá, citado por 23% dos entrevistados. Todavia, Ottawa reduziu em muito o número de processos nos últimos meses, devido ao excesso de pedidos de cidadãos chineses.
Entre as motivações para ir embora, a educação e as oportunidades de emprego para os filhos estão em primeiro lugar, citadas por 78% dos entrevistados, seguidas pelo clima econômico e pela segurança (73%), à frente da qualidade de serviços de saúde e dos serviços públicos.
No entanto, as avaliações realizadas pela OCDE sobre o nível escolar dos jovens de 15 anos em matemática, ciência e leitura colocam a cidade de Xangai na primeira colocação mundial, à frente de Hong Kong e de Cingapura. Mas os próprios chineses são céticos a respeito da validade de tais classificações.
Eles costumam criticar suas escolas pelo excesso de rigor, pelo enfoque no ato de decorar em detrimento da criatividade e pela obsessão com as notas em provas em vez do desenvolvimento pessoal.

Corrida com o talão de cheques

Nesse contexto, estão aqueles que podem se permitir oferecer à sua prole uma vaga em uma universidade estrangeira. Xi Mingze, a filha do atual secretário do Partido Comunista (PCC), Xi Jinping, efetuou parte de seus estudos em Harvard, o que não impediu seu pai de fazer um apelo pelo reforço da ideologia do partido único nos campi chineses.
Em julho, o "Diário do Povo", órgão do Partido, alertou que a Academia de Ciências Sociais, uma das instituições mais respeitadas do país, deveria selecionar seus membros considerando sua lealdade à doutrina marxista. Já os três estabelecimentos de ensino superior mais prestigiosos do país --a Universidade de Pequim, a de Fudan, em Xangai, e a Universidade Sun Yat-sen de Cantão-- prometeram, no início de setembro, "reforçar a conscientização política dos professores e alunos", monitorando mais suas opções.
A corrida chinesa pelas melhores universidades americanas tem sido feita através do talão de cheques. O casal fundador do império imobiliário Soho, Zhang Xin e Pan Shiyi, bilionários muito midiatizados, fez uma doação de US$ 15 milhões para Harvard durante o verão. Embora muitos na blogosfera os tenham acusado de comprar, dessa forma, o acesso à melhor universidade do mundo para seus herdeiros, muitos reconheceram que fariam o mesmo no lugar deles.

"Os oficiais nus"

A questão da segurança, que é melhor em outros países, também se tornou uma prioridade para os chineses ricos. A segunda maior economia do mundo pode ter oferecido aos empresários e oficiais as oportunidades de enriquecimento, mas a falta de uma garantia de direitos não permite que eles durmam tranquilos. Ainda mais porque é particularmente difícil na China enriquecer sem tomar parte da corrupção endêmica.
Essa situação gerou o fenômeno dos "luo guan", literalmente os "oficiais nus", apelidados assim por já terem enviado esposa e filhos para morar no exterior, e eles mesmos estão prontos para correr até o aeroporto caso o sistema se volte contra eles.
O Partido agora está atacando essa prática. Em julho, só a província de Guangdong (no sudeste) anunciou ter identificado 2.190 funcionários "nus", sendo que 866 deles foram demitidos no ato.

"Em busca de uma vida segura"

Para Andrew Lin, responsável pelo desenvolvimento na Ásia da Access the USA, uma agência que oferece aos candidatos à imigração programas de investimento nos Estados Unidos, "é a busca por uma vida segura que leva os chineses a irem embora". A degradação ambiental, os escândalos alimentares são outros fatores que os levam a fazerem as malas.
Só que a reserva de crescimento logo chama de volta seus cidadãos à pátria-mãe. Eles procuram antes de tudo as vantagens associadas ao passaporte estrangeiro, mas pretendem continuar seus negócios nesse indispensável mercado.
"A verdade é que a maior parte dos indivíduos que possuem um patrimônio muito elevado na China provavelmente está ganhando seu dinheiro no país, por enquanto. Isso impede algumas pessoas de irem embora", explica Liam Bailey, analista da Knight Frank em Londres, associada ao estudo da Barclays.

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