Intervenção francesa
Gilles Lapouge - OESP
A França debate a intervenção francesa no
Iraque. É uma boa ideia. Numa democracia, é legítimo que o Executivo não
envolva seu Exército numa guerra sem prévia anuência do Legislativo (na
França, a Câmara é a Assembleia Nacional). Mas é o caso deplorar que
esse debate pelos deputados se faça quando a França já está bombardeando
posições jihadistas do Estado Islâmico (EI) no norte do Iraque. Em
outras palavras, o presidente François Hollande primeiro entra na guerra
para depois consultar seus deputados. Uma inversão.
A
história recente nos ensina que as operações de manutenção da ordem num
país estrangeiro, mesmo se forem benignas, passam rapidamente por uma
"mutação" (como os vírus) e provocam guerras enormes.
Na
Argélia, a França primeiro despachou alguns soldados antes de se ver
atolada num conflito pavoroso que deu origem, em 1962, a uma novo
Estado. No Vietnã e no Afeganistão, os americanos conheceram desastres
sangrentos. No Iraque, o Ocidente, sob a liderança americana, começa
agora sua terceira guerra em menos de 25 anos: em 1990, durante a
presidência de George H. Bush, em 2003, instigada pelo infeliz George W.
Bush, em 2014, sob a chefia do presidente "pacifista" Barack Obama.
É
sabido como terminaram as epopeias no Vietnã, no Afeganistão e no
Iraque. Isso não significa que se deva assistir à ignomínia dos
jihadistas sem reagir. Mas exige que se reflita bem sobre as dimensões
da aventura. Tanto para Obama como para Hollande, não haverá tropas de
seus países no terreno. Excelente. Mas qualquer general ou soldado sabe
que não se entra numa guerra somente com aviões.
Outra
promessa: Hollande, após ter adotado ao menos uma voz solene, informou
que a França atacará jihadistas no Iraque, mas jamais na Síria. Mas, 48
horas mais tarde, o chanceler francês, Laurent Fabius, deu a entender
que a posição de Paris, neste ponto, estava evoluindo. Não é de
estranhar: o EI estende sua empreitada tanto sobre a Síria quanto sobre o
Iraque. Seus combatentes não reconhecem fronteiras. Eles saltam do
Iraque para a Síria e da Síria para o Iraque. Como se abster de atacar
na Síria?
Se atacarmos o EI na Síria, enfiaremos a mão num
outro ninho de escorpiões, pois atacaremos o inimigo desse outro
inimigo que é o chefe de Estado sírio, Bashar Assad. Sairíamos em
socorro desse Assad que todo o Ocidente busca, legitimamente, destronar
há três anos. Meu Deus, quem nos ajudará a desfazer essa confusão?
Outro
sinal da ampliação do conflito: as primeiras incursões americanas
contra o EI na Síria tiveram a participação de cinco países árabes -
Arábia Saudita, Bahrein, Jordânia, Emirados Árabes Unidos e Catar. São
países que no passado tiveram uma atitude dúbia pois manobraram e
possivelmente sustentaram as fileiras dos radicais islâmicos.
Além
disso, esses cinco países do Golfo são sunitas, como são as legiões do
Estado Islâmico. Portanto, ter conseguido mobilizar esses países sunitas
na coalizão montada contra os sunitas do EI foi uma proeza e uma
brilhante façanha da coalizão de Obama. No entanto, ao mesmo tempo, a
entrada desses países árabes nos combates atesta que estamos longe de
uma pequena operação policial e à beira de uma guerra possivelmente
devastadora.
TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK
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