Sai Vale do Silício, entra gigante chinês
Sylvie Kauffmann - Le Monde
Brendan McDermid/Reuters
Jack
Ma (terceiro da esq. para a dir.), fundador da empresa de comércio
eletrônico Alibaba, posa com funcionários ao chegar à Bolsa de Nova York
para celebrar o início da comercialização das ações do grupoBye-bye, Larry! Hello, Jack! Foi totalmente emblemático: no dia em que o americano Larry Ellison, gênio do Vale do Silício, fundador da segunda maior empresa de software empresarial do mundo, a Oracle, anunciou sua aposentadoria, o chinês Jack Ma, fundador do Alibaba, número um do comércio eletrônico mundial, dava os toques finais em uma espetacular entrada na Bolsa de Valores, na sexta-feira (19), que bateria todos os recordes em Wall Street.
Já Jack Ma é da geração seguinte --ele tem 49 anos--, mas, para os chineses, faz parte da primeira onda de titãs da alta tecnologia. Sua empresa não nasceu em uma garagem da Califórnia, mas sim em seu próprio apartamento em Hangzhou (Zhejiang), a duas horas de Xangai, em 1999. Ele, na verdade, se chama Ma Yun e sua verdadeira profissão, no início, era professor de inglês (e por isso o nome que ele adotou, Jack).
Tudo isso é coisa do passado. Hoje, assim como Larry Ellison e Steve Jobs na época deles, Jack Ma, um homem de porte franzino mas de presença intensa, tem fascinado analistas e investidores. Em Nova York, ainda se fala sobre a fila de espera de centenas de pessoas que se espalharam pela calçada do hotel Waldorf Astoria no início de setembro para conseguir um lugar no show de Jack Ma, que foi fazer a promoção do Alibaba dez dias antes de entrar na Bolsa.
Essa fascinação pela ascensão do grupo chinês se concretizou na sexta-feira, através de uma entrada histórica em Wall Street: as ações estrearam com um preço inicial de US$ 68, subindo para US$ 92,70 já na abertura, encerrando em US$ 93,80 depois de resvalar o teto psicológico dos US$ 100. No final do dia, o Alibaba havia captado mais de US$ 25 bilhões e valia quase US$ 230 bilhões, ou seja, mais do que eBay e Amazon juntas, mas menos que o Google.
A título de comparação, a empresa alemã de e-commerce Zalando, principal distribuidora europeia de roupas e sapatos online, que também se prepara para entrar na Bolsa no dia 1º de outubro, estabeleceu um preço de US$ 25 por ação, ou seja, uma valorização máxima de US$ 7,1 bilhões. Em outras palavras, o chinês Alibaba vale US$ 226 bilhões e a europeia Zalando, US$ 7 bilhões.
O que significam todos esses números? Primeiro, que o mundo conta com algumas centenas de novos milionários e até mesmo bilionários, a começar por Jack Ma, que tirou a sorte grande graças aos 7,8% de capital que ele detém. De forma geral, esse sucesso do Alibaba em Wall Street é mais um sinal da ascensão das empresas chinesas nos mercados financeiros mundiais, uma vez que o recorde anterior da captação de fundos na entrada na Bolsa em Wall Street era de um outro chinês, o AGBank, em 2010.
Jovem guarda
Contudo, o simbolismo da aposentadoria de um gigante do Vale do Silício no mesmo dia em que o gigante de Hangzhou toma conta de Wall Street, não seria o de uma velha guarda substituído por uma jovem. Larry Ellison tomou o cuidado de organizar sua sucessão, e a Oracle continuará no mesmo ritmo. Esse simbolismo é o de uma formidável conquista tecnológica, industrial e financeira, a da costa oeste americana, cuidadosamente imitada pelos gênios do Império do Meio. Jack Ma não esconde isso: ele buscou suas receitas nas melhores fontes, uma vez que foi uma viagem ao Vale do Silício, em meados dos anos 1990, que o inspirou.Então, o discípulo chinês está prestes a superar o mestre americano? Ainda não. Apesar de todas as suas proezas, os grupos asiáticos ainda não conseguiram competir com a força, a imagem e o prestígio de uma marca como a Apple. Isso vale para muitas marcas coreanas e taiwanesas, e ainda mais para as marcas chinesas. Apesar da confiança evidente depositada por investidores do mundo inteiro no Alibaba, também existem as dúvidas que persistem sobre certos aspectos de sua governança.
"É difícil não falar nas relações do Alibaba com as autoridades chinesas", observa o banqueiro Georges Ugeux, em seu instrutivo blog "Desmistificando o mercado financeiro". "Tudo que diz respeito à internet continua sendo não somente regulamentado, como censurado." Por esse motivo, entre outros, que ele compartilha com alguns céticos em Wall Street, ele "não investiu no Alibaba". Os entusiastas são mais seduzidos pelas perspectivas de crescimento do e-commerce em um mercado de 1,3 bilhão de indivíduos, onde a classe média está em plena expansão, do que por sua transparência, que deixa a desejar.
O sucesso do Alibaba também carrega outras conclusões. Primeiro, as empresas chinesas que se saem melhor no mercado mundial não são as enormes estatais, mas sim as empresas do setor privado. Uma espécie de homenagem ao capitalismo democrático em relação ao capitalismo autocrático, no qual certos regimes querem ver um modelo alternativo.
Segundo, que o soft power chinês é muito mais bem representado por esses empreendedores que adotam com talento o modelo ocidental do que pelo China Daily, pela CCTV ou pelas centenas de institutos Confúcio que Pequim espalha pelo mundo. É verdade que estes tiveram o mérito de difundir o ensino do mandarim. Mas, em um ambiente muito mais controlado do que Wall Street.
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