Brasil busca resposta para destruição da Amazônia pela pecuária de fronteira
Joe Leahy - Financial Times
Nunca sem seu chapéu de caubói, Mauro Lúcio escutava música sertaneja enquanto dirigia sua picape pelo município de Paragominas, no Estado criador de gado do Pará, na Amazônia brasileira, enquanto recontava a história de uma juventude desperdiçada no circuito de rodeio.
Mas sua natureza engraçada esconde seu papel em um movimento que poderia transformar a criação de gado no Brasil, o maior exportador de carne bovina do mundo, e consequentemente a indústria mundial de carne. Ele está provando que a Amazônia pode ser uma das áreas mais produtivas do mundo para criação de gado - sem a necessidade de desmatamento.
“As melhores condições no mundo para produção de carne no pasto estão aqui”, disse Lúcio, citando a luz solar e chuvas abundantes da região, enquanto mostrava os verdes pastos de sua fazenda Marupiara.
As lições de Lúcio e outros fazendeiros em Paragominas chegam enquanto o Senado brasileiro, no início deste mês, aprovava uma revisão controversa do código florestal do país, que deverá ser sancionada pela presidente Dilma Rousseff no ano novo.
O código é fundamental para o futuro da Amazônia brasileira, que é não somente um dos baluartes mais importantes contra o aquecimento global, como também um dos ecossistemas mais vulneráveis a ele.
A versão do Senado do código florestal mantém uma regra de que os fazendeiros na Amazônia devem manter entre 50% e 80% de suas terras como floresta. Mas anistia bilhões de dólares em multas para aqueles que desmataram ilegalmente antes de julho de 2008, desde que reflorestem parte dessas áreas.
Os ambientalistas dizem que a anistia encorajará os fazendeiros a desmatar novamente. Os fazendeiros argumentam que as exigências anteriores eram injustas.
Mas há algo em que todos concordam. O Brasil, com quase 28% do país, ou 236 milhões de hectares –uma área que equivale a mais da metade do tamanho da União Europeia– dedicados à criação de animais, já possui terra suficiente para criação de gado. O problema é que os criadores brasileiros não são produtivos o suficiente.
“Nesta área, nós poderíamos ter uma criação de gado três vezes maior sem necessidade de desmatamento”, disse a senadora Katia Abreu, presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária.
É aí onde entram Lúcio e Paragominas. Do tamanho da Bélgica, Paragominas já foi notória pelo desmatamento ilegal por criadores de gado, madeireiras e produtores de carvão. As disputas de terras entre esses grupos eram tão violentas que o município foi apelidado de “Paragobalas”.
Então, em 2008, o município foi colocado em uma lista negra do governo federal para repressão ao desmatamento. Os fazendeiros locais perderam acesso a crédito bancário público - uma perspectiva potencialmente ruinosa.
“Imagine uma cidade em uma lista negra – o dano econômico, a perda de empregos, a autoestima de uma cidade arruinada”, disse o prefeito Adnan Demachki.
Ele persuadiu os fazendeiros da região a concordarem em uma suspensão total do desmatamento. Isso custou cerca de 2.700 empregos em dois anos, entre uma população de 100 mil. Ocorreu um distúrbio, onde trabalhadores desempregados incendiaram o escritório local de um órgão ambiental. Mas a moratória foi mantida.
Lúcio Demachki, que lidera o sindicato dos fazendeiros locais, e o Nature Conservancy, um grupo ambiental, deu início ao trabalho para retirada do município da lista negra.
Para isso, Paragominas precisou apresentar imagens de alta definição por satélite de mais de 80% das propriedades do município, mostrando as áreas que precisavam ser preservadas ou reflorestadas, e então colocando essa informação no registro público de terras. Em 2010, o município se tornou o primeiro no Brasil a sair da lista negra.
Enquanto isso, Lúcio está liderando os esforços para ensinar os fazendeiros da região a se tornarem mais produtivos. Tradicionalmente, a terra é tão abundante na fronteira amazônica que os fazendeiros expandiam por meio do desmatamento de novas áreas de floresta e queimadas. Eles passavam a criar gado lá antes de vender as terras por quatro vezes o preço original e então passarem para outras terras.
“Eles realmente viviam da ampliação da fronteira”, disse o professor Gerd Sparovek, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo.
Isso deixou a Amazônia com menos de uma cabeça de gado por hectare. Em comparação, as terras de Lúcio, que contam com 80% de floresta, produzem mais de três cabeças por hectare. Ele fez isso usando novas técnicas, como a movimentação do gado por cercados menores, para permitir um uso mais eficiente do pasto. Ele está atualmente trabalhando com cientistas para atingir sete cabeças por hectare.
O professor Sparovek estima que se todas as fazendas brasileiras forem tão produtivas quanto as de Paragominas, o espaço usado pelo gado poderia ser reduzido em cerca de dois terços.
“O Brasil exporta muito pouco de sua carne bovina, apenas cerca de 18% a 20%”, ele disse. “Certamente, caso se torne mais eficiente e mais produtiva, além de contar com um padrão sanitário mais alto, então ela também se tornaria mais competitiva no mercado global.”
Tradução: George El Khouri Andolfato
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