terça-feira, 20 de dezembro de 2011

PROJETO DO GOVERNO PARA DESARMAR OS TROUXAS E ARMAR OS TRAFICANTES

Brasil poderá oferecer entradas para a Copa em troca de armas
Fernando García - La Vanguardia
Você entrega sua pistola e nós lhe damos desconto na Copa. A ideia está escrita no projeto de lei da Copa do Mundo de Futebol 2014, atualmente em debate no Parlamento brasileiro. Embora chamativa, a proposta não figura entre as mais controversas do texto: nesse país com 8 milhões de armas ilegais circulando por aí, qualquer iniciativa para diminuir a violência é tomada com normalidade e consideração.
A troca de armas por ingressos não só precisa obter a aprovação dos deputados e senadores brasileiros e da presidente Dilma Rousseff, como também, assim como todas as disposições que afetam os ingressos e a gestão da Copa, deve ser negociada com a poderosa Fifa.
Até agora a Federação Internacional não impôs inconvenientes aos descontos por desarmamento (isso que em princípio se opôs à redução de 50% que a norma local garante aos aposentados em todo tipo de entradas, mas aí a entidade acabou cedendo). Mas o secretário-geral da Fifa, Jérôme Valcke, não resistiu a fazer uma brincadeira a respeito quando compareceu diante da Câmara dos Deputados brasileira há um mês: "Temo que no Brasil haja tantas armas que não teremos entradas suficientes para responder", disse com suposta ironia.
Em sua versão atual, o rascunho da Lei da Copa inclui os pistoleiros arrependidos entre os beneficiários de uma cota de 300 mil ingressos a preço de ocasião (US$ 25) que também bonificará "estudantes, indígenas e pessoas comprovadamente pobres".
Mas a ideia nasce de uma colocação mais ampla do Ministério da Justiça, que desde 2003 organizou três campanhas de desarmamento. Na última, em meados deste ano, foram oferecidas indenizações entre 42 e 127 euros por arma entregue. Menos é nada, mas os responsáveis do departamento governamental apoiados pelos 70 grupos que integram a ONG Desarme Brasil pensaram que a Copa 2014 ofereceria atrações ainda melhores que dinheiro; seria uma oportunidade única para relançar e ampliar a campanha.
As sugestões do ministério incluem a troca de armas de fogo não só por ingressos ou descontos, mas também por bolas oficiais e camisetas assinadas pelos jogadores. Segundo a mídia do país, outra proposta é empregar o aço obtido com a fundição das armas para fabricar as traves dos gols para a Copa e outras competições da Fifa.
O deputado Renan Filho, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro, afirmou na Câmara que, assim como o tema da África do Sul 2010 foi a luta contra a Aids, no Brasil 2014 o lema deveria ser "Por um mundo sem armas". Parece adequado em um país que nos últimos 30 anos registrou 1 milhão de homicídios e um aumento de 124% no índice de assassinatos. Nada do que se faça para apagar a fumaça das pistolas será excessivo.
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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