sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ANTERO ABREU

"Aqui não há esperança"

Aqui não há esperança
Aqui é tudo espesso igual e morno
Até onde a vista alcança
Ó sombras do caminho
Nada se define em torno
Aqui tudo são brumas

Movediço e ilusório

O que se vê são sombras não as árvores

São imagens não as coisas
E as estrelas após tantos mistérios

Ainda são almas em sonhos merencórios
Tudo aqui é uniforme. Onde se apalpa

Sente-se o decompor dos corpos mortos

E a cada passo - uma barreira

E a cada luz - um véu de trevas

E em cada bússola os ponteiros tortos
Na luta somos desiguais

No amor somos mentiras

Na vida somos estéreis

Se temos coração

É para o rasgarmos dia a dia em tiras

(Ó lobos dos caminhos

Fauces de angústia em ânsias de apetite

Comei-nos a boca e os braços

Imolai-nos de vez à vossa fome

E uivai depois felizes aos espaços)

Aqui tudo é dúbio e vacilante

Num chão de trincheiras os espectros

Andam fugindo de ódios que os corroem

Claras bandeiras de matizes claros

Refugiam-se nas sombras por que doem

Tudo aqui se amortalha nos mistérios

Borbotões de vida que cessaram

Dão passo à serenidade

Caiada e estéril dos cemitérios

Tudo o que se come tem sabor a mastigado

Tudo o que se ouve é como já ouvido

O presente é um fruto descascado

E o futuro é um canto repetido

Andam os répteis a banhar-se em luz

Andam morcegos a comer os fogos

Aninham-se sapos em doçuras moles

E andam as almas a acalentar malogros

(Lobos dos pinhais de fauces tenebrosas

Vinde roer-nos o olhar e a mão

Vinde matar-nos e uivar contentes

À serenidade do tempo na amplidão)

Tudo aqui é derrota sem batalhas

Tudo aqui é um rugir de reses

Tudo aqui são pálidas mortalhas

A fingir de cotas e a fingir de arneses

Andam flores a desabrochar para quê?

Para que andam aves a voar no vale?

Para que andam trigos a doirar ao sol?

Para que brilha na parede a cal?

Sonhos de sonhos a subir alados

Tremulas mãos a tatear os pomos

E enforcados

Secam na árvore os apetecidos gomos

Deitam-se as redes mas o mar é sóbrio

Olha-se a lua mas a lua é morta

Cravam-se os cravos mas o casco é inútil

Bate-se a aldrava mas não se abre a porta

Tudo aqui é tranqüilo como os mortos

Tudo aqui é sonâmbulo e vencido

Tudo aqui é cavo como um sorvo

Imóvel como um olhar estarrecido

(Ó lobos dos caminhos

Que a fauce negra entreabris lasciva

Vinde seguros acabar conosco

E uivar alegres à eternidade altiva)

E não nos dêem uma alma

Para que sobreviva.

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