Caso Itaú: Anúncio de prisão de suspeito mostra clima de competição na polícia paulista
Guilherme Voitch - O Globo
SÃO PAULO - O caso do roubo aos cofres do banco Itaú na Avenida Paulista, em 26 de agosto, tem provocado um verdadeiro mal-estar na cúpula da Polícia Civil de São Paulo. Na ocasião, criminosos renderam vigias e invadiram o local. Após cerca de 10 horas, sem serem incomodados, fugiram levando 170 cofres. O alarme havia sido desligado. Nesta quinta-feira, a polícia prendeu um pedreiro com pedras preciosas, joias e libras esterlinas que teriam sido levados da agência bancária.
O anúncio da prisão de Marco Antônio Rodrigues dos Santos, de 29 anos, irmão de Francisco Rodrigues dos Santos, de 45 anos, um dos suspeitos de participação no assalto, evidenciou ainda mais o 'racha' na polícia. Nesta sexta-feira, o diretor do Departamento de Investigações Sobre o Crime Organizado (Deic), delegado Nélson Silveira Guimarães, iniciou sua entrevista coletiva dizendo que 'levantaria e iria embora' se alguém perguntasse sobre os problemas enfrentados entre o Deic e o 69º Distrito Policial - cujo delegado titular iniciou uma investigação paralela a do departamento sobre o caso. Ao final da entrevista, porém, ele mesmo 'comemorou' a atuação da delegacia no caso.
- O Deic saiu atrás, mas o Deic chegou na frente - disse, celebrando a prisão de um suspeito e a identificação de outros dois na invasão à agência do banco Itaú, ocorrido numa sexta-feira. Um boletim de ocorrência foi registrado no 78º DP (Jardins), delegacia mais próxima ao local do roubo. O delegado do distrito iniciou as investigações, ouviu o banco e, posteriormente, repassou o caso para o Deic, delegacia especializada nesse tipo de crime.
Envolvido na investigação dos assaltos a caixas eletrônicos na Grande SP e na participação de policiais nos crimes, o Deic, inicialmente, não tratou o caso como prioridade. O próprio secretário de Segurança, Antonio Ferreira Pinto, não foi imediatamente informado sobre o crime, que pode ser considerado um dos maiores e mais audaciosos assaltos a bancos da cidade. Embora o Itaú não divulgue a quantia roubada, há informação de que clientes teriam declarado perda de valores superiores a R$ 3 milhões.
O secretário chegou a cobrar o Deic publicamente sobre o atraso nas investigações.
- Posso garantir que o problema está no Deic. Não tem meias palavras. Meu gabinete vai acompanhar essa situação - disse Ferreira Pinto.
Enquanto o Deic recebia o caso do 78º DP, policiais do 69º DP, comandada pelo delegado Rui Ferraz Fontes, ex-chefe da delegacia de roubo a bancos do Deic, iniciava uma 'investigação paralela' sobre o caso. Funcionários do Itaú foram ouvidos pelos policiais do 69º antes que o departamento tomasse o depoimento dos mesmos.
Os policiais do 69º DP afirmaram que vinham investigando uma quadrilha antes do assalto e que havia indícios da participação do grupo no assalto ao Itaú. O argumento, inicialmente, foi aceito pela cúpula da polícia. Na quinta-feira, no entanto, a Secretaria de Segurança anunciou o afastamento de Ferraz Fontes.
- Dizem que ele foi afastado, mas não vi nada no Diário Oficial. Então perguntem para eles sobre o trabalho do 69º DP - disse Guimarães.
Ao ser perguntado qual teria sido o erro dos bandidos, Guimarães respondeu:
- Mexeram com a polícia de São Paulo. Mais do que isso. Mexeram com o Deic.
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