sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Custo da produção de açúcar no Brasil deve disparar, aponta relatório

Javier Blas - Financial Times

O custo da produção do açúcar no Brasil, o maior exportador mundial deste produto, deverá sofrer um aumento de 85% nas duas próximas décadas, fazendo com que os preços atinjam um piso significativamente mais elevado do que no passado, segundo uma nova pesquisa realizada por uma influente companhia de serviços profissionais na área de açúcar.
O mercado de açúcar – que é há muito tempo um nicho para especialistas como a empresa de comércio e produção de alimentos Cargill e companhias produtoras de refrigerantes como a Coca-Cola – transformou-se em um setor muito importante nos últimos anos à medida que os preços atingiam o patamar mais elevado dos últimos trinta anos. Fundos de pensão atualmente investem em contratos futuros de açúcar por meio de um pacote de commodities como o popular índice S&P GSCI.
A Czarnikow, uma companhia de comércio de açúcar com sede em Londres, e que nesta semana comemorou o seu 150º aniversário, disse em um relatório que o Brasil, que responde por mais da metade das exportações mundiais de açúcar, terá um aumento dos custos de produção de 35 centavos de dólar por libra até 2030.
A previsão supera bastante os atuais preços do açúcar, sugerindo que o preço desse produto continuará subindo nos próximos anos. Nesta quinta-feira (15), em Nova York, as transações comerciais com o açúcar foram negociadas a 29,63 centavos de dólar por libra, um valor um pouco inferior ao maior valor atingido nas últimas três décadas, de 36,08 centavos, registrado no início deste ano.
A Czarnikow prevê que o Brasil precisará investir pelo menos US$ 340 bilhões – e potencialmente até US$ 490 bilhões – nas duas próximas décadas para atender ao crescimento da demanda mundial por açúcar, especialmente nos países em desenvolvimento. A demanda pelo açúcar de cana está aumentando também devido ao uso dessa cultura para a produção de etanol.
“Tendo em vista o fim das oportunidades de crescimento a baixo custo para aumentar a oferta e a pressão que está sendo exercida sobre os mercados agrícolas por uma população crescente e pelas aspirações por melhores padrões de vida, nós acreditamos que o custo marginal de produção brasileiro continuará sendo um forte indicador da tendência geral de alta dos preços do açúcar no mercado global”, disse a Czarnikow no seu relatório. “No decorrer das últimas décadas, os preços globais encontraram uma base sólida quando caíram para os níveis dos custos de produção brasileiros”, acrescentou a Czarnikow.
Toby Cohen, diretor de pesquisas da Czarnikow, diz que o aumento dos custos de produção será impulsionado principalmente pela inflação dos salários, mas também pelo crescimento dos custos associados ao investimento em mecanização e em desenvolvimento de infraestrutura. “Esses dois fatores modificarão a indústria e o mercado global de açúcar”, garante Cohen.
O custo de produção do açúcar transformou-se em um fator político importante já que os preços elevados têm gerado protestos em mercados emergentes como a Índia, o maior consumidor mundial do produto. A Argélia, o maior consumidor do norte da África, que experimentou carência do produto no início deste ano, foi palco de protestos nos quais os manifestantes gritavam “queremos açúcar”, segundo noticiou a imprensa local.
A Czarnikow disse que o Brasil precisará processar até 1,4 bilhão de toneladas de cana-de-açúcar até 2030, em comparação com os 600 milhões de toneladas processadas atualmente. A companhia afirmou que, para atender ao aumento da demanda por açúcar e etanol, o Brasil terá que mais do que dobrar a área agrícola destinada às lavouras de cana-de-açúcar, expandindo-a em quase 9,2 milhões de hectares.

Nenhum comentário: