segunda-feira, 5 de setembro de 2011

György Somlyó (1920/2006)

Ferida e faca
A relação entre faca e ferida é variável. A ferida sangra. A faca se ensangüenta. A ferida dói. A faca se embota. A ferida se lembra dolorosamente da faca. A faca não se lembra da ferida. A ferida cicatriza. A ferida da faca é duradoura. Algum dia até mesmo a ferida há de esquecer a faca. A faca não tem o que esquecer. A faca se deleita com a ferida como com um corpo que se abra. A ferida também pode se deleitar com a faca assim como com um corpo que a penetre. A ferida tem horror à faca. A faca também pode ter horror à ferida. Há quem tenha horror à ferida. Há quem o tenha à faca. Há quem tenha horror a ambas. A ferida pode também amar a faca. A faca também pode amar a ferida. Pode ser que a faca sinta dor como a ferida. Pode ser que a ferida seja insensível como a faca. A ferida há de sarar um dia. A faca pode se quebrar na ferida. A faca diz freqüentemente: Eu sou a Ferida. A ferida pode vir a dizer um dia: Eu sou a Faca. A relação entre ferida e faca é variável. Só uma coisa não varia. Que há ferida e há faca. A faca é a faca da ferida. A ferida é a ferida da faca. Uma não existe sem a outra.


Trad. Nelson Ascher

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