A nação desmoralizada que se tornaram os EUA após o 11 de Setembro
Gerhard Spörl - Der Spiegel
Os EUA mudaram após 11 de Setembro
As batalhas travadas pelos EUA após os ataques terroristas de 11 de setembro de 2011 são prova de que, desde a Segunda Guerra Mundial, o país travou guerras erradas nos lugares errados em momentos errados. A guerra do Iraque foi como um último suspiro. Agora, restou para Obama administrar os anos do crepúsculo da hegemonia americana.
Eu realmente estava antecipando o dia 11 de setembro. Eu tinha ido morar nos EUA e estava lá apenas três semanas, realizando meu sonho, mesmo que não fosse mais jovem, de me tornar um correspondente na capital da superpotência mundial. Meus quadros ainda nem estavam pendurados na parede de nosso escritório e a televisão ainda nem funcionava, o que acabou se tornando um problema naquele dia. O sol estava brilhando e era um dia fantástico de verão. Que lindo, que agradável e que inspiração para nossos espíritos.
A cidade toda e o país estavam ansiosos para ver se ele realmente ia fazer aquilo. Ele, é claro, era o maior jogador de basquete de todos os tempos. Aos 38 anos, Michael Jordan estava planejando anunciar seu segundo retorno. Como eu, Jordan morava em Washington. Ele tinha convocado uma conferência com a imprensa e ia fazer sua declaração. Afinal, naquele momento, o mundo ainda estava em ordem.
Eu sabia um pouco sobre Osama Bin Laden, mas resistia em mergulhar em sua biografia. Anos antes, eu havia escrito bastante sobre terrorismo, sobre o terrorismo alemão, uma parte sombria do meu trabalho. Escrevi sobre pessoas fanáticas, maléficas, que estavam dispostas a sacrificar suas próprias vidas para matar o máximo de outras. Eu não queria ter mais nada a ver com o assunto. Mas como eu estava errado.
O céu azul sobre Nova York e Washington. Os aviões. Os acidentes. Pessoas pulando das torres, pessoas cujo último ato de liberdade era escolher uma forma diferente de morte do que a imolação. O presidente vagando grotescamente pelos céus em seu jato, o único que ainda tinha permissão de voar. A transformação de George W. Bush de um avoado para um presidente em guerra que liderou duas delas – uma compreensível e outra construída sobre mentiras. Ilhas totalitárias, no país percebido como o mais livre do mundo.
Muitos americanos sonham em dominar o mundo.
Os EUA mudaram após 11 de setembro. Por vezes, achei o país irreconhecível. Mas algumas coisas continuaram as mesmas. A fé religiosa ainda é a raiz da democracia americana. A forma de o país pensar o bem e o mal cria cisões que não conhecemos na Europa. A guerra é percebida como um instrumento político, e muitos americanos ainda sonham em controlar o mundo – e não apenas os neoconservadores que assumiram a hegemonia cultural após 11 de setembro.
Aos meus olhos, os EUA sempre foram o país que trouxe democracia ao meu país, apesar de Hitler, apesar de Auschwitz e apesar da República de Weimar. Era um vitorioso magnânimo e uma potência mundial generosa. Poderia ter tomado um curso diferente em 1945. Poderia ter repetido, por exemplo, o que fez em 1918.
Mas minha opinião sobre os EUA mudaram com as experiências de 11 de setembro. Os EUA continuam para mim um país incrivelmente lindo, onde vivem e moram as pessoas mais inteligentes que se pode achar na terra de Deus. E ainda é verdade que esta superpotência salvou a Europa da autodestruição nas duas guerras mundiais. Mas o que aconteceu depois de 1945?
As guerras erradas na hora errada pelas razões erradas
Depois de 1945, os EUA na verdade só travaram as guerras erradas nos lugares errados e pelas razões erradas. Houve as duas guerras da era do macarthismo na Coreia e no Vietnã. Na Coreia, os governantes absolutos do Norte e do Sul queriam lutar um contra o outro de qualquer jeito. Nem a União Soviética nem os EUA tinham qualquer desejo de voltar ao campo de batalha apenas cinco anos após o fim da Segunda Guerra, com suas perdas e terríveis experiências. Os EUA estavam desarmados e o exército nem podia enviar tropas. Ainda assim, foi atraído para uma guerra por procuração que as duas potências mundiais poderiam usar para medir uma a outra.
No final, o custo em sangue aos americanos foi horrivelmente alto. A União Soviética permaneceu por trás das cenas, mas a China recém unificada saiu em socorro da Coreia do Norte. O raciocínio na época era o mesmo de hoje. A China quer, em qualquer circunstância, manter os EUA longe de suas fronteiras, e por isso permite que a louca família Kim fique no poder em seu país assolado pela fome.
Joseph McCarthy era um senador, mas acima de tudo um dos piores agitadores anticomunistas que se possa imaginar. Ele era um fanático que, no início dos anos 50, foi capaz de levar seu país a um desvario. Após alguns anos, ele desapareceu na obscuridade, mas deixou um legado – inclusive na política externa norte-americana. Ele era antagonista do diplomata antigo George Kennan, pragmático de cabeça fria que recomendou limitar a influência do comunismo em vez de travar guerras. McCarthy venceu, Kennan perdeu.
O Vietnã foi meramente um agravamento da guerra coreana. A teoria de dominó dizia que o Vietnã cairia primeiro, seguido do resto do sudeste asiático. Havia um temor horrendo do poderio militar e da capacidade política daqueles no poder em Moscou e em Pequim, que na realidade eram rivais. Depois, os EUA se tornaram um país desmoralizado, enlouquecido por um mundo que lhe roubara seu papel hegemônico.
Os EUA caem na armadilha do Afeganistão
O Afeganistão também entra nessa categoria de guerras erradas nos lugares errados na hora errada. É um país que pode ser conquistado, mas não pode ser governado. Por isso os conquistadores sempre se retiraram em algum momento. Quando os EUA caíram na armadilha, entraram para uma longa lista de países que fizeram o mesmo erro.
Naturalmente que a guerra no Iraque me fez rever as anteriores com outros olhos. Os neoconservadores queriam fazer tudo certo e tinham muitas coisas em mente. Eles pensavam que a teoria do dominó ia funcionar em seu benefício: primeiro o Iraque se tornaria uma democracia, depois a Síria e assim por diante. Eles queriam mudar o mundo e impor ativamente sua ideologia sobre os outros. Era provavelmente a última vez que os EUA iam tentar cumprir sua missão histórica de formatar o mundo de acordo com sua própria visão do que deveria ser.
Hoje, sabemos que foi o último suspiro da superpotência mundial. Foi um grande drama, e o ponto de virada já passou. Que grande pena que a Barack Obama só restou administrar o declínio gradual do país. Ele vai entrar para a história como o presidente que terminou duas guerras, no Afeganistão e no Iraque. E provavelmente também como o presidente que não conseguiu tirar seu país da recessão (e também foi impedido de fazê-lo).
O dia 11 de setembro e suas consequências mudaram minha opinião dos EUA. Foram 10 anos estranhos. O mundo foi transformado. As revoltas árabes estão acontecendo por causas muito diferentes. Será a Primavera Árabe também um resultado de 11 de setembro? Teremos que esperar para ver o que pensaremos, daqui a 10 anos.
Trad.: Deborah Weinberg
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