Sob ameaças moradores dizem que são obrigados a levar armas e drogas para traficantes no Alemão
O Globo
RIO - Depois da reunião com o Comandante Militar do Leste, general Adriano Pereira Júnior, membros do Ministério Público Militar (MPM) afirmaram ter notícias de denúncias dos moradores do Complexo do Alemão de que estariam sendo obrigados a levar armas e drogas para dentro da comunidade. Segundo o promotor Antônio Facuri, crianças e idosas estariam fazendo o transporte das drogas, pois eram ameaçadas caso se negassem. A informação vem à tona no mesmo dia em que o secretário de Segurança do Rio, José Mariano Beltrame, anunciou que começará em março do ano de 2011 a implantação da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na comunidade .
- É aquela punição do tráfico que já conhecemos. Vamos voltar e vocês vão morrer - contou o promotor Antônio Facuri.
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Facuri acrescentou que a Polícia Militar não teria "competência" para revistar os moradores:
- A PM não tem efetivo feminino para revistar mulheres, por exemplo. Então não tem quem faça e eles aproveitam isso.
Os representantes do MPM estão no complexo desde segunda-feira, quando foi aberto o Inquérito Policial Militar (IPM) para investigar a atuação dos soldados da Força de Pacificação do Alemão e saber se eles cometeram excessos no episódio do último domingo, em que pessoas foram feridas por balas de borracha.
Na quarta-feira, o comandante Adriano Pereira Júnior admitiu que traficantes ainda vendem drogas em bocas de fumo "itinerantes" no Morro do Alemão . Ele afirmou ainda que os militares voltarão a revistar suspeitos de tráfico de drogas na comunidade.
- Vamos voltar a fazer revistas em pessoas que possam estar fazendo algo errado. Naquela semana, havia sido divulgado que o Exército permaneceria no local. As ações dos bandidos foram uma reação à permanência do Exército lá - disse o general, em entrevista no Comando Militar do Leste (CML), acrescentando que o traficante Paulo Rogério de Souza Paz, o Mica, foragido da Vila Cruzeiro, está por trás do ataque.
Adriano Pereira Júnior afirmou também que quatro militares envolvidos na confusão de domingo foram afastados. Um inquérito foi aberto para apurar as responsabilidades.
Nesta quinta-feira, Beltrame disse, em entrevista à Rádio CBN, que começará em março do ano que vem a implantação da UPP no Complexo do Alemão. Segundo ele, serão destacados 500 policiais, inicialmente. Em maio e abril, mais mil homens serão deslocados para o Alemão e, em junho, mais 700, totalizando um efetivo de 2.200 soldados que atuarão em todo o complexo. Beltrame também voltou a afirmar que as tropas do Exército, responsáveis pela Força de Pacificação do Alemão e na Vila Cruzeiro, continuarão nas comunidades até a instalação da UPP.
- Nós não podemos abrir mão de parceiros que têm objetivos concretos. A manutenção do Exército naquela área é maior que qualquer coisa. A permanência da tropa naquela região nos permite avançar nas soluções dos problemas. Nós vamos em frente nesse plano. A situação é complexa, mas é necessária. O Estado chegou ali através do Exército, abrindo uma janela de oportunidades. Não vamos nos arredar dessa proposta - afirmou o secretário à CBN.
Durante reunião com os comandantes das 18 Unidades de Polícia Pacificadora num hotel no Centro do Rio, Beltrame disse ainda que a previsão do Governo do Estado é instalar 40 UPPs até 2014.
- O programa encontra-se praticamente na metade. Beltrame acredita que o momento é oportuno para uma avaliação interna do projeto, que obteve grande aprovação popular, mas, como se evidenciou nos últimos dias, ainda convive com problemas em seu processo de consolidação - disse o secretário, lembrou ainda que nos próximos dias será inaugurada a 19ª, no Morro da Mangueira.
O chefe do Comando Militar do Leste, general Adriano Pereira Junior, esteve no início da tarde desta quinta-feira, na sede da Força Pacificadora no Complexo do Alemão, onde participou de uma reunião com oficiais responsáveis pela área. O general disse que ficou acertado que, a partir de agora, o Exército fará uma reaproximação com a comunidade para tentar restabelecer a confiança com a população do Complexo do Alemão. Ele aproveitou a reunião para parabenizar os oficiais porque, durante o confronto de terça-feira, não houve feridos, mortos ou atingidos por bala perdida.
Após ter ficado o paralisado durante o feriado do Dia da Independência do Brasil, o serviço de teleférico do Alemão voltou a funcionar normalmente a partir das 15h desta quinta até as 20h. A operação foi interrompida para que técnicos fizessem uma inspeção rigorosa e verificassem que o meio de transporte não foi atingido pelo tiroteio da terça. A partir da próxima segunda-feira, o teleférico vai passar a operar de 7h às 19h, de segunda a sexta, e vai dar início à cobrança do bilhete unitário de R$ 1. Moradores do Complexo do Alemão cadastrados poderão utilizar o RioCard, que somente será debitado após duas viagens diárias.
A situação foi de aparente tranquilidade na região na manhã desta quinta-feira. De acordo com o relações públicas das tropas de pacificação, major Marcos Vinícius Bouças, foram montados quatro pontos fixos de patrulhamento dentro das comunidades que integram o complexo. Os pontos, chamados de "fortes" pelo major, permitem que os soldados fiquem em bases avançadas dentro da favela, ao contrário do patrulhamento móvel que era feito anteriormente.
De acordo com o major, ao todo são 1.700 militares espalhados pelos complexos do Alemão e Vila Cruzeiro. Nesta quinta, as equipes poderão fazer novas operações nos acessos às favelas, utilizando veículos blindados do tipo Urutu. O major explicou ainda que houve uma inquietação no início da semana por causa da tentativa de ataque do tráfico, mas afirmou que a situação já está voltando ao normal. O militar acrescentou que as forças vão continuar recebendo denúncias de moradores pela ouvidoria, pelo telefone e por e-mail.
Em entrevista à rádio CBN, o deputado estadual Marcelo Freixo ressaltou que o tráfico ainda é uma ameaça para a comunidade . Mas afirmou que não recebeu de nenhum morador denúncias sobre supostas chantagens de criminosos para que a população fosse hostil com militares.
- Há uma tensão muito forte dentro daquela comunidade. E a própria falta de tato de alguns militares pode ocasionar conflitos. Não recebi nenhuma denúncia de pessoas dizendo que receberam pressão do tráfico para causar problemas às forças de pacificação. Os moradores querem sim é a presença da polícia, mas há queixas sobre o tratamento - reforçou Freixo.
Presidente da OAB-RJ faz críticas ao Exército
O presidente da OAB-RJ, Wadih Damous, fez duras críticas à ação do Exército no Complexo do Alemão, onde afirmou ter sido estabelecido um "estado de exceção".
- A primeira lição a ser extraída é reconhecer que o Exército tem funcionado como força de ocupação militar e não como integrante de um projeto de pacificação social. Não se pode aceitar a substituição de um estado de exceção, promovido pelos bandos armados, por outro estado de exceção, organizado pelo Exército - disse Damous, que defendeu prioridade para o projeto de UPP do Alemão.
Para Ignácio Cano, sociólogo do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, o Complexo do Alemão nunca foi plenamente pacificado. Cano criticou a atitude do Exército em relação aos protestos dos moradores:
- É positivo o reconhecimento do comandante das Forças de Pacificação do Alemão sobre erros cometidos. Mas não se pode repetir um comportamento da polícia no passado, declarando que manifestações são insufladas pelo tráfico. Se são insufladas ou não, o que interessa é se elas são verdadeiras.
Do Blog:
Quem conheceu o Rio de Janeiro na década de 40 ou 50 do século passado não conseguiria imaginar o caos reinante na Cidade Maravilhosa.
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