sexta-feira, 16 de março de 2012

DRONES NA SÍRIA

Exército sírio usa aviões não tripulados contra insurgentes
Cristophe Ayad - Le Monde
É um ruído característico, que todos aqueles que trabalharam um dia em Gaza conhecem bem: o barulho persistente de um cortador de grama invisível que vai e volta no céu. Javier Espinosa, enviado especial do jornal espanhol “El Mundo” durante o cerco a Homs, não teve dúvidas: ele reconheceu o zunido de um avião não tripulado [drone] no céu sírio. O uso desse tipo de avião na repressão à insurreição por parte do exército sírio é confirmado por fontes diplomáticas, testemunhas sírias e estrangeiras, bem como por especialistas militares.
Graças à rebelião, que começou há um ano, o exército sírio parece estar usando-os pela primeira vez em sua história. Esses aviões não tripulados podem ter sido utilizados também para guiar o bombardeio do centro de imprensa improvisado no bairro de Baba Amro, em Homs, no dia 22 de fevereiro, causando a morte de Marie Colvin e de Rémi Ochlik, além de ferir Edith Bouvier e Paul Conroy. Para isso seria preciso que as aeronaves utilizadas pudessem transmitir imagens ao vivo. Uma informação impossível de confirmar por enquanto, bem como o fato de estarem armados ou não, embora seja pouco provável.
É difícil de estabelecer a origem desses aviões não tripulados. Teriam sido eles fabricados localmente ou comprados no exterior? E de quem? Segundo o “The Aviationist”, um blog especializado no assunto, que reproduz informações do site israelense Ynetnews.com, a Síria produz seus próprios aviões não tripulados, que na verdade não passam de réplicas de modelos iranianos. O Irã, aliado estratégico da Síria, tenha ele fornecido a tecnologia ou os próprios aviões não tripulados, possui uma experiência reconhecida no assunto. Teerã fabrica vários tipos de drones, tais como o Mohajer-4 --visto sobrevoando Homs--, o Ababil, o Mirsad-1 e o Pahpad (acrônimo de “avião não tripulado” em persa), filmado em Kafr Batna, no subúrbio de Damasco.
Não é a primeira vez que a tecnologia iraniana é empregada na região. Alguns anos atrás, o Hezbollah, partido xiita libanês, havia conseguido enviar um Mirsad-1 para sobrevoar o norte de Israel. Depois, em 2005, a milícia armada aliada no Irã chegara a interceptar comunicações de imagens entre drones israelenses que sobrevoavam Beirute e sua base em Israel. Portanto, pode ser que os aviões não tripulados utilizados na Síria sejam acionados por técnicos iranianos ou libaneses.
A imprensa árabe, especialmente o site de oposição all4syria, levantou a hipótese de que a Rússia pode ter entregue à Síria drones comprados em Israel. Para Emile Hokayem, especialista em questões de segurança no Oriente Médio para o International Institute for Strategic Studies (IISS), há poucas chances de que o material usado seja de origem russa: “A Rússia toma muito cuidado com o tipo de material que fornece à Síria. Ela possui drones israelenses, mas revendê-los prejudicaria seriamente sua reputação”.
Outros veículos de imprensa árabes contrários ao regime sírio, mas também fontes militares francesas, mencionam a possibilidade de os aparelhos terem sido comprados diretamente de Israel, que, apesar de estar em estado de guerra com a Síria, é o principal produtor mundial desse tipo de aeronave.
Um desses aviões sem piloto equipados de câmeras caiu em Homs, em fevereiro; os rebeldes do Exército Sírio Livre (ESL) garantem que o abateram. Depois que o exército entrou em Baba Amro, a televisão oficial síria se apressou para mostrar os restos calcinados, apresentando-os como prova do “apoio sionista” à causa das “gangues terroristas” que banham a Síria em sangue, segundo a versão oficial do regime. Como no caso de certos massacres e dos bombardeios de zonas civis, o regime devolve contra seus inimigos acusações das quais é alvo, em uma estranha forma de confissão.
É provável que aviões não tripulados americanos e provavelmente israelenses estejam operando no espaço aéreo sírio. Mas eles voam a uma altitude na qual são difíceis de atingir e impossíveis de ver ou ouvir. Resta saber por que o regime tem recorrido a drones, sendo que dispõe de muitos aviões de caça e helicópteros. “Uma das coisas que Bashar al-Assad aprendeu com Gaddafi foi que usar aviação militar contra civis poderia provocar uma mobilização internacional”, observa Hokayem. “Então é uma prudência”. Além disso, se os rebeldes conseguissem abater um helicóptero de combate, isso teria consequências desastrosas para o moral das tropas.
Tradutor: Lana Lim

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