Thomas L. Friedman
No século 21, qual versão do capitalismo vencerá?
David Rothkopf, o presidente-executivo e editor-geral da revista “Foreign Policy”, acabou de lançar um novo livro inteligente, intitulado “Power Inc.”, sobre a rivalidade épica entre as grandes empresas e o governo, que captura, de muitas formas, sobre o que a eleição de 2012 deveria tratar --e não é “contracepção”, apesar da palavra começar com “c”. É o futuro do “capitalismo” e se ele será moldado nos Estados Unidos ou em outro lugar.
Rothkopf argumenta que, apesar de por grande parte do século 20 a grande luta no palco mundial ter sido entre o capitalismo e o comunismo, que foi vencida pelo capitalismo, a grande luta no século 21 será em torno de que versão do capitalismo vencerá, qual provará ser a mais eficaz na geração de crescimento e se tornará a mais copiada.
“Será o capitalismo de Pequim, com características chinesas?” pergunta Rothkopf. “Será o capitalismo de desenvolvimento democrático da Índia e do Brasil? Será o capitalismo de Estado pequeno e empresarial de Cingapura e Israel? Será o capitalismo com rede de segurança social europeu? Ou será o capitalismo americano?” É uma pergunta intrigante, que levanta outra: qual é o capitalismo americano atualmente e o que permitirá que ele prospere no século 21?
A visão de Rothkopf, que eu compartilho, é de que aquilo que os outros mais admiravam e tentavam copiar a respeito do capitalismo americano é precisamente o que estamos ignorando: o sucesso dos Estados Unidos por mais de 200 anos ocorreu devido à sua saudável e equilibrada parceria público-privada --onde o governo fornecia as instituições, regras, redes de segurança, educação, pesquisa e infraestrutura para empoderar o setor privado a inovar, investir e assumir os riscos que geram crescimento e empregos.
Quando o setor privado sobrecarrega o público, você tem a crise das hipotecas de risco de 2008. Quando o setor público sobrecarrega o privado, você tem regulamentações sufocantes. É preciso equilíbrio, o motivo para termos que superar essa tola “discussão que a escolha é entre tudo governo ou tudo mercado”, argumenta Rothkopf. A lição da história, ele acrescenta, é que o capitalismo mais prospera quando há esse equilíbrio, e “quando o equilíbrio é perdido, você fica em apuros”.
Por esse motivo, a eleição ideal de 2012 seria aquela que oferecesse as versões públicas concorrentes conservadora e liberal das grandes barganhas-chave, os elementos-chave, que os Estados Unidos precisam forjar para adaptar seu capitalismo a este século.
A primeira é a grande barganha para consertar nosso déficit estrutural de longo prazo, implantando gradualmente US$ 1 em aumento de impostos, via reforma tributária, para cada US$ 3 ou US$ 4 em cortes de direitos adquiridos e defesa ao longo da próxima década. Se o Partido Republicano continuar defendendo a visão de que não há necessidade de aumento de impostos, nós estamos perdidos. O capitalismo não funciona sem redes de segurança ou sem prudência fiscal e precisamos de ambas em um equilíbrio sustentável.
Como parte disso, nós precisamos de uma grande barganha intergerações para não terminarmos em uma guerra civil intergerações. Nós precisamos de um equilíbrio apropriado entre gastos públicos em casas de repouso e creches --nos últimos seis meses de vida e nos primeiros seis meses de vida. Outra grande barganha que precisamos é entre a comunidade ambiental e a indústria de petróleo e gás, sobre como fazer duas coisas ao mesmo tempo: explorar com segurança as riquezas recém-descobertas dos Estados Unidos em gás natural, construindo simultaneamente uma ponte para uma economia de energia de baixo carbono, com maior ênfase em eficiência de energia.
Outra grande barganha que precisamos é na infraestrutura. Nós temos mais de US$ 2 trilhões em déficit de pontes, estradas, aeroportos, portos e banda larga, e o governo não tem dinheiro para isso. Nós precisamos de uma barganha que permita ao governo tanto alistar quanto fazer parceria com o setor privado para realizar os investimentos privados em infraestrutura, que servirão ao público e oferecerão aos investidores o retorno apropriado.
Tanto na educação quanto na saúde, nós precisamos de grandes barganhas para melhor alocação de recursos entre ações remediativas e preventivas. Tanto na saúde quanto na educação, nós gastamos mais do que qualquer outro no mundo --sem resultados melhores. Nós desperdiçamos dinheiro demais tratando pessoas por doenças preveníveis e reensinando aos alunos na faculdade aquilo que deveriam ter aprendido no colégio. O capitalismo moderno exige trabalhadores capacitados e trabalhadores com planos de saúde com portabilidade, que lhes permitam levá-lo para qualquer novo emprego.
Nós também precisamos de uma grande barganha entre empregadores, empregados e governo --como na Alemanha, onde o governo fornece os incentivos para os empregadores contratarem, treinarem e manterem a mão de obra.
Mas nós não podemos ter nenhuma dessas grandes barganhas sem um debate público mais informado. A “grande coisa que está faltando” na política americana atualmente, me disse Bill Gates em uma entrevista recente, “é esse entendimento tecnocrático dos fatos e sobre onde as coisas estão funcionando e onde não estão”, para que o debate seja movido por dados, não ideologia.
O capitalismo e os sistemas políticos --como as empresas-- devem evoluir constantemente para permanecerem vitais. As pessoas estão observando como evoluímos e se nossa versão do capitalismo democrático pode continuar a prosperar. Há muito em jogo aqui. Mas se “continuarmos tratando a política como um reality show visando teatralidade barata”, argumenta Rothkopf, “nós aumentamos a probabilidade de que o próximo capítulo da história em andamento do capitalismo será escrito em outro lugar”.
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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