Crise nuclear: Obama adverte Irã sobre fim da margem para uma solução pacífica
Antonio Caño - El País
Barack Obama e o primeiro-ministro britânico, David Cameron, recomendaram ao governo iraniano que aproveite a ocasião oferecida pelas grandes potências para negociar seu programa nuclear, porque, segundo advertiu o presidente americano, a margem para resolver isso pela via diplomática está se reduzindo. Os dois líderes concordam sobre a necessidade de completar o trabalho de dez anos no Afeganistão, embora Cameron tenha DITo que estão "na fase final da operação militar".
Além do Irã e do Afeganistão, Obama e Cameron discutiram na quarta-feira (14) na Casa Branca soluções para a crise na Síria e a evolução dos problemas econômicos na Europa. Ambos entendem que, embora se dê atenção à redução do déficit orçamentário de cada país, é preciso começar a promover políticas de crescimento econômico nos países europeus. Obama empurra Cameron nessa direção, mas ele reluta nessa questão.
Em relação à Síria, os dois admitiram a carência de opções militares --"este caso não é como o da Líbia", comentaram-- para deter a repressão que o regime exerce sobre a população e se limitaram a prometer manter a pressão diplomática e buscar formas de ajuda humanitária. "Queremos ajudar a promover uma transição, não provocar uma revolução ou uma guerra civil", declarou o primeiro-ministro britânico na entrevista coletiva depois de sua reunião formal.
Cameron voltou à noite para a residência presidencial para participar de um jantar de gala. Essa é uma visita que, além de repassar os diversos interesses que os EUA e o Reino Unido compartilham em todo o mundo, tenta formalizar a excepcional relação que existe entre esses países, sempre unidos, como os dois governantes afirmaram, no bom e no ruim, nas causas mais ambiciosas e nobres, como a libertação da Europa do nazismo, e nas situações mais desesperadas e amargas, como na recente guerra do Iraque.
Essa relação, historicamente definida como "especial", permite que Obama fale com Cameron com maior confiança do que com qualquer outro convidado à Casa Branca. O Irã foi o assunto mais delicado que trataram, diante da tensão que alcançou essa crise, na qual o relógio parece avançar inexoravelmente para a guerra.
Há pouco mais de uma semana passou pelo Salão Oval o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, outro grande aliado, mas de categoria diferente. Com Israel existe uma relação estratégica, necessária, mas incômoda. Com o Reino Unido é uma fraternidade. Em seu encontro com Netanyahu, Obama aproveitou para deixar explícita a ameaça de intervenção militar se o Irã não renunciar voluntariamente à construção de uma bomba atômica. Ontem deu um passo a mais, ao advertir que as possibilidades de paz diminuem.
"Depois de tantas sanções aplicadas, de tanta pressão exercida, deve-se reconhecer que a margem de oportunidade de uma solução diplomática está se reduzindo", manifestou o presidente americano. Entretanto, insistiu que ainda há possibilidades e lembrou que é preciso esperar para comprovar o efeito que surtirão as novas sanções sobre a indústria de petróleo, que os países europeus aplicarão neste ano.
Mas Obama nos pareceu pessimista. Reconheceu que não tem certeza de que o regime iraniano vá aproveitar a ocasião que se oferece. Cameron também apostou na solução diplomática da crise iraniana como primeira opção, mas repetiu depois a frase ritual do governo americano de que "todas as opções estão sobre a mesa", no caso de que a negociação fracasse.
Os dois líderes deram indícios de ter discutido a possibilidade de acelerar o ritmo da retirada do Afeganistão, embora se remetam à cúpula da Otan em Chicago, em maio próximo, para anunciar qualquer novidade. "Não prevejo mudanças no calendário, mas as decisões sobre a próxima fase serão tomadas em Chicago", disse Obama. Ambos defenderam o objetivo da guerra e os progressos que, segundo eles, foram feitos nos últimos três anos, mas deram ênfase à fase de transição para entregar o comando às autoridades da segurança. "É importante o aspecto político; as partes têm de entender a necessidade de chegar a um acordo para pôr fim à guerra", declarou o presidente americano.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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