Financial Times
John Paul Rathbone
Popularidade de Morales, primeiro presidente indígena da Bolívia, caiu
Há seis anos Evo Morales se tornou o primeiro presidente indígena da Bolívia, nacionalizando as empresas de energia estrangeiras em uma ação dramática ao amanhecer, assombrando o mundo em seu macacão listrado.
O momento marcou o pico do radicalismo latino-americano. Desde então, seu apelo diminuiu. No vizinho Peru, Ollanta Humala, o novo presidente, trocou seu socialismo agitador por políticas centristas, moderadas. Os maiores aliados de Morales também estão desaparecendo: Fidel Castro, de Cuba, quase morreu, e Hugo Chávez, da Venezuela, pode estar morrendo.
Evo Morales permanece em excelente saúde. Mas como seus companheiros políticos estrangeiros restantes, como o presidente esquerdista do Equador, Rafael Correa, a autoproclamada missão de Morales de combater o capitalismo e salvar a Mãe Terra está enfrentando dificuldades sob o peso de suas contradições.
Certamente a Bolívia realizou grandes avanços desde que Morales venceu a eleição de 2005 com uma maioria de 54%. Grande parte dos 10 milhões de habitantes do país ainda se identifica como descendentes dos índios aymara, quéchua e guarani. Após a conquista espanhola, eles foram submetidos a vidas de isolamento odioso e servidão inimaginável; a servidão só foi abolida em 1945.
Uma revolução em 1952 redistribuiu as terras aos camponeses andinos. Mas as posturas coloniais persistiram e, em um dos países mais pobres e mais desiguais da América do Sul, a renda per capita permaneceu abaixo de US$ 1.000 por ano. Sob Morales, a renda mais que dobrou e a pobreza caiu em um quinto.
Esses feitos se devem a três fatores. Primeiro, um tremendo aumento nos impostos recebidos do setor de energia nacionalizado –um processo que está prestes a ser repetido na mineração boliviana. Segundo, a redistribuição desses fundos em projetos sociais. E terceiro, a alta dos preços das commodities –uma bênção que o governo raramente menciona.
De fato, quando Morales chegou ao poder, as exportações da Bolívia, dominadas pelos commodities, rendiam US$ 3 bilhões. Neste ano, a previsão é de que atingirão US$ 8 bilhões. As reservas de moeda estrangeira cresceram e a inflação permanece baixa. Considerando que um mandato presidencial típico na Bolívia é de dois anos, Morales já superou em três vezes a média. Ele provavelmente é o líder mais sortudo que a Bolívia já teve.
Mas agora sua sorte pode estar acabando. Em seu zelo de expulsar as empresas estrangeiras, o governo Morales esqueceu que elas são a principal fonte de capital e know-how técnico que toda economia baseada em commodities precisa para seguir em frente.
Desde 2006, a produção de petróleo caiu e a produção de gás estagnou. A aliada socialista Venezuela tem sido de pouca ajuda: os executivos da indústria local contam como uma plataforma de petróleo enviada pela estatal de petróleo PDVSA foi abandonada para enferrujar em um campo. A corrupção floresceu em meio ao caos de um governo bem-intencionado, mas tecnicamente inexperiente. Os ganhos conseguidos por Morales estão ameaçados. Ele começou a mudar seu modo de agir.
Morales voltou de Pequim no mês passado com planos financiados pela China para construção de uma malha ferroviária que transportará para o exterior o minério de ferro do imenso campo de Mutun, que está sendo desenvolvido pela Jindal Steel da Índia. O vizinho Brasil também está financiando uma nova estrada passando por um parque nacional –uma das várias estradas que cruzarão a Bolívia e ligarão o Brasil aos mercados do Pacífico. As empresas estrangeiras de energia estão sendo cortejadas a investir novamente em exploração. Um presidente antes apelidado de “O Herói Mundial da Mãe Terra” está escavando o país.
Isso está alienando a base política de Morales. Manifestantes indígenas se queixam de preocupações ambientais; ele os chama de “fundamentalistas”. Quando marcham na capital, ele insinua que são espiões americanos. Sua imagem, tanto em casa quanto no exterior, está arranhada. A popularidade de Morales caiu.
De modo interessante, eventos semelhantes estão ocorrendo no Equador, onde o presidente Correa está entrando em choque com as comunidades indígenas. Antes ele alegava ser o campeão dos direitos delas. Agora seu governo as acusa de terrorismo e sabotagem.
Com maioria no Congresso boliviano, um controle cada vez maior dos meios de comunicação e uma votação em outubro que provavelmente lhe assegurará o controle da Suprema Corte, Morales provavelmente vencerá as eleições de 2014 caso as dispute.
Mas em um país com tão poucas estradas pavimentadas, um simples bloqueio de estrada faz tudo parar. A oposição oficial é fragmentada, mas a verdadeira oposição na Bolívia sempre esteve nas ruas. O mesmo vale no Equador, onde o principal partido indígena ajudou a derrubar três governos em 15 anos.
A temperatura política está subindo nos Andes. E os próximos anos serão interessantes.
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