O termo, aplicado a um grupo de armas de fogo vendidas no mercado civil, se tornou tão politizado nas últimas décadas, a ponto da posição das pessoas na questão das armas frequentemente poder ser deduzida a partir do uso ou não do termo.
Nos fóruns de Internet talvez não exista tema mais ferozmente discutido do que a questão do que constitui uma arma de assalto. E alguns argumentam que seria impossível apresentar uma definição abrangente o bastante para remover com eficácia as armas do mercado.
Os defensores da proibição de armas de assalto argumentam que a designação deve se aplicar às armas de fogo como as usadas no massacre de Newtown, Colorado, e outros massacres recentes – rifles semiautomáticos com pentes destacáveis e características "militares", como punho de pistola, supressor de clarão e coronha dobrável.
Essas armas de fogo, eles argumentam, foram projetadas para o campo de batalha, onde a meta é matar rapidamente o maior número possível de soldados inimigos, e que elas não têm lugar na vida civil.
"Quando os militares adotaram essas armas de assalto, todo o contexto mudou", disse Tom Diaz, ex-membro do Centro para Políticas contra Violência, cujo livro sobre a militarização das armas de fogo civis, "The Last Gun", deverá ser publicado nos próximos meses. "A conversa se tornou: ‘Este é o tipo de arma que você deseja no mundo civil?’ E nós que defendemos a regulação dizemos, ‘Não, você não quer’."
Mas os grupos da Segunda Emenda – e muitos donos de armas de fogo – fazem objeção veemente ao uso de "armas de assalto" para descrever armas que eles dizem ser usadas rotineiramente para prática de tiro e caça. O termo, eles argumentam, deve ser usado apenas para armas de fogo totalmente automáticas, como as empregadas pela polícia e pelos militares – eles preferem o termo "fuzil tático" ou "fuzil esportivo moderno" para as versões civis semiautomáticas. E eles argumentam que qualquer tentativa de proibir as "armas de assalto" é equivocada, já que as armas que estão sendo discutidas diferem de muitas outras armas de fogo apenas em seu estilo.
"A realidade é que há muito pouca diferença entre uma arma de fogo esportiva e a chamada arma de assalto", disse Steven C. Howard, um advogado e especialista em armas de fogo de Lansing, Michigan.
A semântica do debate das armas de assalto é tão carregada que pode fazer tropeçar até mesmo pessoas contrárias à proibição.
Phillip Peterson, um vendedor de armas de Indiana e autor de "Gun Digest Buyer’s Guide to Assault Weapons" (2008), disse que brigou com seus editores em torno do uso do termo no título, ciente de apenas atrairia a ira da indústria das armas.
Após a aprovação em 1994 da proibição federal a armas de assalto, disse Peterson, a indústria das armas "buscou envergonhar e ridicularizar" qualquer um que usasse "arma de assalto" para descrever qualquer coisa que não fosse armas de fogo capazes de pleno fogo automático.
Seu instinto provou ser correto: a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) se recusou a vender o livro em seu site, ele disse. Então, em 2010, Peterson produziu outra versão contendo "90% da mesma informação", mas com o novo título "Gun Digest Buyer’s Guide to Tactical Rifles". Esse livro foi vendido pelo site da NRA, ele disse.
Igualmente controversas são as definições pelas quais armas de fogo se qualificam como armas de assalto. A maioria das proibições a armas de assalto visavam principalmente fuzis AR-15, uma versão semiautomática do M-16 militar vendida no mercado civil, apesar de algumas pistolas e espingardas também estarem incluídas.
O critério mais básico está ligado à capacidade da arma de fogo de disparar múltiplos cartuchos rapidamente. Por causa disso, as armas de fogo incluídas em qualquer proibição a armas de assalto geralmente são as semiautomáticas, o que significa que um novo cartucho é automaticamente recarregado na câmara, mas não é disparado até o gatilho ser apertado de novo. As armas também têm pentes destacáveis, permitindo que disparem 10, 20, 30 balas ou mais sem a necessidade de inserir um novo pente.
Depois disso, a definição se torna mais difícil. Ao pedir pela renovação da proibição, Obama destacou na quarta-feira armas de "estilo militar".
Isso poderia incluir características como punho de pistola, projetadas para permitir que a arma seja disparada do quadril; coronha dobrável, que permite que a arma seja encurtada e talvez escondida; supressor de clarão, que impede que o atirador seja ofuscado pelo clarão dos disparos; freio de boca, que ajuda a reduzir o recuo provocado pelo disparo; e um cano rosqueado, que pode aceitar silenciador ou supressor. Baionetas e lançadores de granada também às vezes são incluídos.
Mas há um desacordo sobre que funções são preocupantes para serem incluídas em uma proibição. E as proibições estaduais existentes diferem em quantas características elas permitem.
Os defensores da proibição de armas de assalto argumentam que elas são simplesmente "cosméticas". Os proprietários recitam marcas e modelos de armas – fuzis feitos pela Saiga e Remington, por exemplo – que são mecanicamente idênticos às armas que podem ser proibidas, mas não têm punho de pistola ou outras características de estilo.
Tentativas anteriores de proibir essas armas provaram ser problemáticas. Brechas na proibição federal a armas de assalto de 1994 a tornaram virtualmente inútil, muitos acreditam. E mesmo em Estados com proibições meticulosamente redigidas, os fabricantes conseguiram encontrar formas de contornar as restrições.
No final, disse George Lakoff, um professor de ciência cognitiva e linguística da Universidade da Califórnia, em Berkeley, os argumentos se restringem à linguagem. "Não importa qual linguagem seja usada a respeito das armas, ela será problemática, porque não se trata apenas de armas, mas de identidade pessoal", ele disse.
Mas como Peterson notou em seu guia de compras, foi a indústria que adotou o termo "arma de assalto" para descrever alguns tipos de armas de fogo semiautomáticas vendidas para civis.
"Fuzil de assalto" foi usado pela primeira vez para descrever uma arma militar, a Sturmgewehr, produzida pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. A Sturmgewehr – literalmente "fuzil de assalto", um nome escolhido por Adolf Hitler – era capaz tanto de fogo automático quanto semiautomático. Ele foi o progenitor de muitos dos fuzis militares modernos.
Mas o termo "fuzil de assalto" foi expandido quando os fabricantes de armas começaram a vender modelos baseados nos novos fuzis militares para civis. Em 1984, a "Guns & Ammo" anunciou um livro chamado "Assault Firearms", que ela dizia ser "repleto dos equipamentos mais badalados disponíveis atualmente".
"A ideia mais popular de que o termo ‘arma de assalto’ nasceu com os ativistas antiarmas, com a mídia ou políticos é equivocada", escreve Peterson. "O termo foi primeiro adotado pelos fabricantes, atacadistas, importadores e comerciantes na indústria americana de armas de fogo para estimular as vendas de certos modelos que não tinham uma aparência familiar para muitos donos de armas. Os fabricantes e escritores de armas da época precisavam de um nome chamativo para identificar esse novo tipo de arma."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
Nos fóruns de Internet talvez não exista tema mais ferozmente discutido do que a questão do que constitui uma arma de assalto. E alguns argumentam que seria impossível apresentar uma definição abrangente o bastante para remover com eficácia as armas do mercado.
Os defensores da proibição de armas de assalto argumentam que a designação deve se aplicar às armas de fogo como as usadas no massacre de Newtown, Colorado, e outros massacres recentes – rifles semiautomáticos com pentes destacáveis e características "militares", como punho de pistola, supressor de clarão e coronha dobrável.
Essas armas de fogo, eles argumentam, foram projetadas para o campo de batalha, onde a meta é matar rapidamente o maior número possível de soldados inimigos, e que elas não têm lugar na vida civil.
"Quando os militares adotaram essas armas de assalto, todo o contexto mudou", disse Tom Diaz, ex-membro do Centro para Políticas contra Violência, cujo livro sobre a militarização das armas de fogo civis, "The Last Gun", deverá ser publicado nos próximos meses. "A conversa se tornou: ‘Este é o tipo de arma que você deseja no mundo civil?’ E nós que defendemos a regulação dizemos, ‘Não, você não quer’."
Mas os grupos da Segunda Emenda – e muitos donos de armas de fogo – fazem objeção veemente ao uso de "armas de assalto" para descrever armas que eles dizem ser usadas rotineiramente para prática de tiro e caça. O termo, eles argumentam, deve ser usado apenas para armas de fogo totalmente automáticas, como as empregadas pela polícia e pelos militares – eles preferem o termo "fuzil tático" ou "fuzil esportivo moderno" para as versões civis semiautomáticas. E eles argumentam que qualquer tentativa de proibir as "armas de assalto" é equivocada, já que as armas que estão sendo discutidas diferem de muitas outras armas de fogo apenas em seu estilo.
"A realidade é que há muito pouca diferença entre uma arma de fogo esportiva e a chamada arma de assalto", disse Steven C. Howard, um advogado e especialista em armas de fogo de Lansing, Michigan.
A semântica do debate das armas de assalto é tão carregada que pode fazer tropeçar até mesmo pessoas contrárias à proibição.
Phillip Peterson, um vendedor de armas de Indiana e autor de "Gun Digest Buyer’s Guide to Assault Weapons" (2008), disse que brigou com seus editores em torno do uso do termo no título, ciente de apenas atrairia a ira da indústria das armas.
Após a aprovação em 1994 da proibição federal a armas de assalto, disse Peterson, a indústria das armas "buscou envergonhar e ridicularizar" qualquer um que usasse "arma de assalto" para descrever qualquer coisa que não fosse armas de fogo capazes de pleno fogo automático.
Seu instinto provou ser correto: a Associação Nacional do Rifle (NRA, na sigla em inglês) se recusou a vender o livro em seu site, ele disse. Então, em 2010, Peterson produziu outra versão contendo "90% da mesma informação", mas com o novo título "Gun Digest Buyer’s Guide to Tactical Rifles". Esse livro foi vendido pelo site da NRA, ele disse.
Igualmente controversas são as definições pelas quais armas de fogo se qualificam como armas de assalto. A maioria das proibições a armas de assalto visavam principalmente fuzis AR-15, uma versão semiautomática do M-16 militar vendida no mercado civil, apesar de algumas pistolas e espingardas também estarem incluídas.
O critério mais básico está ligado à capacidade da arma de fogo de disparar múltiplos cartuchos rapidamente. Por causa disso, as armas de fogo incluídas em qualquer proibição a armas de assalto geralmente são as semiautomáticas, o que significa que um novo cartucho é automaticamente recarregado na câmara, mas não é disparado até o gatilho ser apertado de novo. As armas também têm pentes destacáveis, permitindo que disparem 10, 20, 30 balas ou mais sem a necessidade de inserir um novo pente.
Depois disso, a definição se torna mais difícil. Ao pedir pela renovação da proibição, Obama destacou na quarta-feira armas de "estilo militar".
Isso poderia incluir características como punho de pistola, projetadas para permitir que a arma seja disparada do quadril; coronha dobrável, que permite que a arma seja encurtada e talvez escondida; supressor de clarão, que impede que o atirador seja ofuscado pelo clarão dos disparos; freio de boca, que ajuda a reduzir o recuo provocado pelo disparo; e um cano rosqueado, que pode aceitar silenciador ou supressor. Baionetas e lançadores de granada também às vezes são incluídos.
Mas há um desacordo sobre que funções são preocupantes para serem incluídas em uma proibição. E as proibições estaduais existentes diferem em quantas características elas permitem.
Os defensores da proibição de armas de assalto argumentam que elas são simplesmente "cosméticas". Os proprietários recitam marcas e modelos de armas – fuzis feitos pela Saiga e Remington, por exemplo – que são mecanicamente idênticos às armas que podem ser proibidas, mas não têm punho de pistola ou outras características de estilo.
Tentativas anteriores de proibir essas armas provaram ser problemáticas. Brechas na proibição federal a armas de assalto de 1994 a tornaram virtualmente inútil, muitos acreditam. E mesmo em Estados com proibições meticulosamente redigidas, os fabricantes conseguiram encontrar formas de contornar as restrições.
No final, disse George Lakoff, um professor de ciência cognitiva e linguística da Universidade da Califórnia, em Berkeley, os argumentos se restringem à linguagem. "Não importa qual linguagem seja usada a respeito das armas, ela será problemática, porque não se trata apenas de armas, mas de identidade pessoal", ele disse.
Mas como Peterson notou em seu guia de compras, foi a indústria que adotou o termo "arma de assalto" para descrever alguns tipos de armas de fogo semiautomáticas vendidas para civis.
"Fuzil de assalto" foi usado pela primeira vez para descrever uma arma militar, a Sturmgewehr, produzida pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. A Sturmgewehr – literalmente "fuzil de assalto", um nome escolhido por Adolf Hitler – era capaz tanto de fogo automático quanto semiautomático. Ele foi o progenitor de muitos dos fuzis militares modernos.
Mas o termo "fuzil de assalto" foi expandido quando os fabricantes de armas começaram a vender modelos baseados nos novos fuzis militares para civis. Em 1984, a "Guns & Ammo" anunciou um livro chamado "Assault Firearms", que ela dizia ser "repleto dos equipamentos mais badalados disponíveis atualmente".
"A ideia mais popular de que o termo ‘arma de assalto’ nasceu com os ativistas antiarmas, com a mídia ou políticos é equivocada", escreve Peterson. "O termo foi primeiro adotado pelos fabricantes, atacadistas, importadores e comerciantes na indústria americana de armas de fogo para estimular as vendas de certos modelos que não tinham uma aparência familiar para muitos donos de armas. Os fabricantes e escritores de armas da época precisavam de um nome chamativo para identificar esse novo tipo de arma."
Tradutor: George El Khouri Andolfato
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