Há um drama silencioso e silenciado que convive com o drama do desemprego. Chama-se exploração laboral. Em muitos centros de trabalho, as pessoas se acostumaram a vê-lo sentado ao seu lado. A crise faz proliferar uma casta de empregadores sem escrúpulos que aproveitam a conjuntura para espremer e explorar as pessoas a seu encargo.
De cada cem inspeções realizadas pelo Ministério do Trabalho durante 2012 (dados de 30 de novembro), em 23,9% dos casos foram detectadas irregularidades (as situações de exploração laboral são simplesmente uma parte do longo catálogo de irregularidades). No setor de hotelaria, o registro se aproxima de 30%.
"Na Espanha há um sério problema de conscientização social", diz em seu escritório no Ministério do Emprego Juan José Camino Frías, subdiretor-geral para inspeção em matéria de previdência social, economia irregular e imigração. "Há uma tolerância excessiva que é de extrema gravidade", diz, referindo-se às diversas irregularidades que ocorrem.
Queixa-se tanto pelo atentado que representam contra os direitos dos trabalhadores como pela quantidade de contribuições sociais que não são abonadas e que serviriam, entre outras coisas, para enfrentar os crescentes pagamentos em termos de seguro-desemprego.
A crise revela uma era de trabalhadores cada vez mais indefesos, utilizados como descartáveis. O drama da exploração no trabalho ocorre em silêncio. Os trabalhadores não querem denunciar por medo de perder essa valiosa conquista, o emprego.
Quase todos os empregados entrevistados para esta reportagem (com exceção de dois) não quiseram aparecer em fotografias e pediram para ser citados só pelas iniciais dos nomes. Não querem se apresentar como indisciplinados. Por medo de perder o emprego, por medo de que no futuro não queiram empregá-los. Por medo destes tempos de patrões dominadores.
Babá em La Moraleja por 400 euros
J. é dominicana e está há 24 anos na Espanha. Vive em uma casa sem luz nem gás por falta de pagamento. Graças ao apoio da Plataforma de Afetados pela Hipoteca, conseguiu paralisar seu despejo em outubro passado. Pouco antes do Natal, na saída da igreja, uma mulher lhe disse que sabia de uma oferta de trabalho e lhe deu um número de telefone. A empregadora morava no exclusivo condomínio La Moraleja, próximo a Madri.
J. ligou. A oferta consistia em cuidar de um menino de 7 anos, das 15h às 0h30 (o último ônibus de La Moraleja para o centro de Madri, segundo J., sai às 23h30), seis dias por semana. A empregadora lhe oferecia um dia de folga por semana; mas aleatoriamente, não um dia fixo - a cada semana um diferente. A remuneração: 400 euros por mês.
"Essa mulher estava se aproveitando da situação de desespero em que se encontram muitos estrangeiros sem documentos", conta J., sob a tenda instalada diante do escritório central do Bankia em Madri. "Se mora em La Moraleja é porque ganha bem."
Tal é a necessidade de dinheiro de J. que, apesar de aceitar que o trabalho a impediria de cuidar à tarde de sua filha de 13 anos, lhe disse que achava muito pouco, que deveria lhe pagar pelo menos 500 euros. "A mulher, irritada, desligou o telefone."
14 horas diárias na cozinha
Jesús Portillo trabalha há 30 anos em hotelaria, desde os 16. Já lhe fizeram todo tipo de cachorrada. Dentre as recentes, a mais terrível que lembra foi a oferta que lhe fizeram na franquia de uma conhecida rede de bares de "tapas" (aperitivos). O dono estava prestes a abrir um novo estabelecimento dessa franquia e precisava de um cozinheiro.
Portillo, 46, natural da Extremadura, estabelecido em Barcelona, apresentou-se para a entrevista de trabalho. Ofereciam 600 euros por mês por uma jornada entre 12 e 14 horas diárias. Faria um contrato de meia jornada, quatro horas por dia. Mais adiante, se a coisa andasse bem, renegociariam as condições, segundo disseram.
Para se incorporar à rede, teria de fazer um curso em um dos estabelecimentos da mesma. Ali viveu um dos processos de seleção mais abusivos de que se lembra.
"O curso era basicamente trabalhar de graça durante três dias no estabelecimento", lembra. Quinze pessoas se apresentaram para o suposto curso de formação. A chefe não parava de criticar os candidatos que começavam a empanar e fritar bolinhos.
Cinco candidatos foram embora meia hora depois, cansados de ouvir gritos. Logo começaram a chegar clientes. "Mais depressa, mais depressa", insistia a capataz. Três garotas com pouca experiência desistiram, cansadas dos insultos. Quando o bar estava cheio, dos 15 só restavam quatro. Destes, três, entre os quais se encontrava Portillo, abandonaram antes de terminar o dia. "Mas dessa vez fomos nós que insultamos a dona."
No dia seguinte, o proprietário da nova franquia se desculpou com Portillo e disse que as coisas não funcionariam assim em seu local. O primeiro dia de trabalho durou 14 horas. No final da jornada o proprietário lhe pagou 20 euros, a parte proporcional correspondente a seu contrato de 600 euros: 20 euros por 14 horas de trabalho!
Por jornadas como as que lhe propuseram, disse, deveriam pagar entre 1.200 e 1.300 euros. "Isso não é exploração, isso se chama escravidão", declara indignado por telefone.
Portillo está há sete meses sem ganhar 1 euro, e há dois anos desempregado. Sua mulher, que trabalhava em um ambulatório, também está parada. Na semana passada lhe ofereceram um trabalho no qual pagariam 1.300 euros por mês, mas por 18 horas de trabalho; das 7h à 1h da madrugada, seis dias por semana, de segunda a sábado. Ele conhece um rapaz equatoriano de seu bairro, o Nou Barris (Barcelona), que aceita ganhar 300 euros por mês para trabalhar como garçom pela jornada de trabalho inteira. "Essa é a realidade laboral que vivemos: exploração, humilhação, máfias, extorsão."
Guarda de segurança não recebe há seis meses
Manuel Chicharro, 50, não aguenta mais. É guarda de segurança desde 1988 e já viu de tudo: companheiros em empresas de segurança que recebiam 4 euros por hora; gente trabalhando sem contrato... No cargo que ocupou há alguns anos, em um conhecido museu de Madri, lembra que tinha de levar seu filho durante seu turno porque não lhe permitiam folgar no fim de semana (algo a que tinha direito por lei, pois está separado). Mas nada se compara a ficar sem receber durante seis meses consecutivos.
Manuel está arrasado. Entrando no sétimo mês sem receber um euro, sem poder pagar a pensão de 400 euros para sua ex-mulher, sete meses vivendo do que sua companheira ganha. "O drama é que não há cobertura para o operário", diz, perto de um escritório do Inem nos arredores de Madri. "E as instituições colaboram nesse processo que não faz outra coisa além de arrasar as pessoas." Seu caso é extremo; reflete a fragilidade de um trabalhador quando sua empresa quebra. Reflete esta era do trabalhador descartável.
Manuel Chicharro trabalhava como guarda no Centro de Formação Primeiro de Maio em Leganés. Em 1º de janeiro de 2012, há pouco mais de um ano, a empresa para a qual trabalhava havia 12 anos (Ariete) o substituiu (o que ocorre com frequência no setor de segurança, ele explica). Passou a estar na folha de outra empresa, a Esabe, cuja cúpula diretora foi demitida em 20 de dezembro, acusada, entre outros delitos, de uma fraude de 30 milhões de euros na Previdência Social.
Diversos funcionários da Esabe viveram um autêntico pesadelo nos últimos seis meses de 2012: "Imagine o que é não receber mês após mês, durante cinco meses, mas ter de ir trabalhar todo dia porque senão o demitem". Manuel aguentava, esperando ser novamente transferido para outra empresa.
Mas não foi assim, à diferença do que ocorreu com seus outros companheiros, que foram integrados à Prosegur. Apesar de ter 12 anos de trabalho na empresa anterior, precisava ter trabalhado sete meses na Esabe para poder ser substituído de novo, explica. Faltavam-lhe 25 dias para completar esses sete meses. Agora nem ganha o que lhe devem, nem trabalha, nem tem opção. Por enquanto, recebe como desempregado.
"As administrações públicas recorrem a empresas que são cobram menos, mas o barato sai caro", diz, indignado. Cita seu caso e o da Madrid Arena.
"Não contratam mais profissionais de segurança, procuram o mais barato e depois acontece o que acontece." Diz que as administrações públicas contratam empresas de segurança para fazer o trabalho que os policiais municipais ou os funcionários de carreira não querem fazer: "Usam-nos como porteiros, zeladores, tudo para que as pessoas, que muitas vezes nos pedem para bater o ponto por elas, possam escapar de seus postos".
Pagar por um processo de seleção
O caso de R., mulher de 34 anos, não é de exploração no trabalho. Mas ilustra do que alguns são capazes na hora de aproveitar-se da necessidade de ter um trabalho. No ano passado, em maio, viu uma oferta no site da web Infojobs. Inscreveu-se. A empresa pedia que entregasse um currículo em mãos em um dos escritórios. Para lá ela se dirigiu.
Ao chegar às dependências da empresa, em Valência, viu que na entrada não havia nenhuma placa. "Achei estranho." Entrou no saguão e viu seis garotas esperando. De um pequeno escritório saiu uma mulher que lhe entregou um formulário. Nele se indicava a data de início do processo de seleção: 25 de junho.
Para poder participar seria preciso pagar 50 euros. "Pagar por um processo de seleção! Saí muito irritada, parecia uma brincadeira."
Como R. não fica de braços cruzados, falou com a polícia, com organizações de consumidores, com o Conselho de Emprego do governo valenciano e com a Infojobs, que não demorou para retirar o anúncio. "Não houve processo de seleção em 25 de junho", conclui.
Em julho recebeu uma carta da empresa: comunicavam-lhe que havia sido descartada no processo de seleção.
Entregando pizza a qualquer hora
L. não se queixa. Na realidade, ganhar 210 euros por mês distribuindo pizzas não lhe parece tão ruim. Incomoda lhe não saber a que hora terá de recomeçar no dia seguinte; pode ser a qualquer momento, mas ele se adapta.
Só sabe que trabalhará duas horas por dia entregando pizzas; sua empresa sabe que tem um exército de trabalhadores ambulantes para utilizar à vontade no momento que quiser.
Para conseguir que lhe deem mais horas de trabalho, tem que aumentar a média de entregas do dia. Nos escritórios há uma lista com a classificação de entregadores.
"Há concorrência entre nós. Se eu ganho horas, tiro de algum companheiro", diz esse dominicano de 25 anos em uma cafeteria no centro de Madri.
Ele prefere isto àquela empresa de cachorro-quente a domicílio na qual trabalhou e que lhe pagava conforme o dinheiro que entrava em caixa. Com jornadas de 13 horas.
"Pegava o pedido por telefone, o preparava e o levava a domicílio." Em um dia lhe pagavam 100 euros, três dias depois 150. Assim até completar os 800 euros que representava seu salário. A metade no mercado negro.
O eterno bolsista
J. põe a culpa nas universidades. Diz que são cúmplices da situação de toda uma geração. "Temos que pagar para poder ser bolsistas e ganhar 200 euros", lamenta esse graduado em jornalismo de 23 anos.
E explica como muitos meios de comunicação fazem os estudantes recém-saídos do forno entender que é bom manter alguma relação com a universidade para poder ter acesso a estágios.
"Há alunos que deixam uma matéria pendente de propósito, para assim poder optar por estágios", explica em uma lanchonete de Leganés. "Então você trabalha como mais um na redação, e percebe que na realidade está ali substituindo alguém. Produz como mais uma, mas sem remuneração, sem direitos. Eles enchem seus ouvidos, tecnicamente podem lhe conceder duas bolsas, e quando você volta à rua percebe que não tem um só dia de contribuição na Previdência Social."
As empresas (e não só as jornalísticas, pois segundo ele ocorre com colegas que são físicos ou químicos) não procuram mais licenciados, buscam estudantes. "A universidade é o principal motor de tudo isso. As empresas se aproveitam, pois é a universidade que deveria sair em defesa dos alunos."
O imigrante que olha para o Equador
R. é um equatoriano de 42 anos que está há 14 na Espanha. Ele pensa em fazer as malas e voltar para seu país. Conta isso sob uma chuva fina na saída da agência de empregos do Inem do Paseo de la Esperanza, em Madri. Trabalhou durante nove anos em uma empresa de construção. No início tudo correu bem. Há dois anos reduziram seu salário de 1.300 para 1.100 euros. Depois lhe disseram que continuasse trabalhando, mas que o demitiriam para que pudesse receber o seguro-desemprego e o complementariam com 600 euros por mês, no negro. No ano passado o recontrataram: embora trabalhasse a jornada completa, fizeram um contrato de meio período. "Senti-me explorado. Mas se não aceitasse o trabalho alguma outra pessoa o aceitaria. Para não ficar em casa, a gente aceita o que for: qualquer coisa é melhor que nada."
Ofertas surpreendentes
As páginas de ofertas de emprego são um mundo especial. Nelas pode-se encontrar todo tipo de proposta, algumas no limite do legal ou que oferecem condições abusivas. Marina Calvo, responsável pela seção de desempregados da Federação Regional de Serviços do sindicato UGT em Madri, recebe muitas todos os dias. "Em algumas, você pergunta como a cara deles não cai de vergonha", diz.
Eduardo González, da organização Juventude Sem Futuro, também vê ofertas constantemente. Há um ano essa organização criou a Oficina Precária, onde as pessoas podem denunciar abusos, buscar assessoria jurídica e pendurar os anúncios abusivos que encontram na rede. "Todos os dias vemos ofertas que infringem os direitos dos trabalhadores", declara González.
De vez em quando aparecem algumas que propõem diretamente emprego sem salário.
A página Infojobs publicou há três meses uma oferta que causou um ruído considerável nas redes sociais. Dizia assim:
"Voluntário diretor de comunicação. Descrição: Fundação Alia2 tem como missão proteger o menor na Internet. Este cargo é para um voluntário no departamento de imprensa para ocupar o posto de diretor de comunicação. Esse cargo não tem remuneração. Uma fundação em constante crescimento exige um grande capital humano para seu correto funcionamento, por isso estamos em constante busca de pessoal (...).
Funções. Boletim quinzenal (de acordo com um ritmo de tarefas). Boletim patronos (de acordo com um ritmo de tarefas). Manutenção da rede de contatos (agenda de meios aberta). Analisar a atualidade e telefonar para todos os jornalistas que escreveram sobre temas Alia2 (usar alertas do Google). Preparar as intervenções do diretor da fundação (...). Elaboração de notas de imprensa. Acompanhamento de notícias: Clipping (...) Entrevistas coletivas (de acordo com ritmo de tarefas).
Estar a par das notícias que saem relacionadas com o assunto em que se baseia nossa fundação.
Precisa-se. Pessoa com disponibilidade imediata. Horário a definir na entrevista. Será avaliado positivamente que possua conhecimentos das novas tecnologias relacionadas ao funcionamento das redes sociais (...).
Estudos. Graduado.
Experiência. Pelo menos dois anos. Licenciatura ou bacharelado em jornalismo. Criatividade e dinamismo. Grande capacidade escrita e oral. Alto nível de inglês escrito (...). Vontade."
Em conversa por telefone, o diretor da fundação que publicou o anúncio, Miguel Comín, diz que sabe que a oferta não caiu bem, que foi muito protestada, mas lembra que se trata de algo legal, um trabalho de voluntário para uma fundação.
A federação de serviços madrilenha do sindicato UGT conta com um site para desempregados ao qual certas empresas enviam ofertas. Há alguns meses chegou uma que dizia:
"Preciso, em princípio, de duas pessoas que conheçam/ tenham trabalhado no setor de seguros para trabalhar como agente exclusivo em uma companhia de seguros. É um contrato mercantil, sem salário e por comissão. De preferência que sua localidade seja Alcobendas ou San Sebastián de los Reyes."
Marina Calvo, que supervisiona esse site e está atenta para as ofertas que aparecem, conta que prolifera, sobretudo no setor dos comerciais, a oferta de contratos por comissão pelos quais o trabalhador, se não alcançar os objetivos definidos pela empresa, não ganha nada. Não só isso: também se gasta dinheiro em transporte, em visitas. Isto é, paga-se para trabalhar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
De cada cem inspeções realizadas pelo Ministério do Trabalho durante 2012 (dados de 30 de novembro), em 23,9% dos casos foram detectadas irregularidades (as situações de exploração laboral são simplesmente uma parte do longo catálogo de irregularidades). No setor de hotelaria, o registro se aproxima de 30%.
"Na Espanha há um sério problema de conscientização social", diz em seu escritório no Ministério do Emprego Juan José Camino Frías, subdiretor-geral para inspeção em matéria de previdência social, economia irregular e imigração. "Há uma tolerância excessiva que é de extrema gravidade", diz, referindo-se às diversas irregularidades que ocorrem.
Queixa-se tanto pelo atentado que representam contra os direitos dos trabalhadores como pela quantidade de contribuições sociais que não são abonadas e que serviriam, entre outras coisas, para enfrentar os crescentes pagamentos em termos de seguro-desemprego.
A crise revela uma era de trabalhadores cada vez mais indefesos, utilizados como descartáveis. O drama da exploração no trabalho ocorre em silêncio. Os trabalhadores não querem denunciar por medo de perder essa valiosa conquista, o emprego.
Quase todos os empregados entrevistados para esta reportagem (com exceção de dois) não quiseram aparecer em fotografias e pediram para ser citados só pelas iniciais dos nomes. Não querem se apresentar como indisciplinados. Por medo de perder o emprego, por medo de que no futuro não queiram empregá-los. Por medo destes tempos de patrões dominadores.
Babá em La Moraleja por 400 euros
J. é dominicana e está há 24 anos na Espanha. Vive em uma casa sem luz nem gás por falta de pagamento. Graças ao apoio da Plataforma de Afetados pela Hipoteca, conseguiu paralisar seu despejo em outubro passado. Pouco antes do Natal, na saída da igreja, uma mulher lhe disse que sabia de uma oferta de trabalho e lhe deu um número de telefone. A empregadora morava no exclusivo condomínio La Moraleja, próximo a Madri.
J. ligou. A oferta consistia em cuidar de um menino de 7 anos, das 15h às 0h30 (o último ônibus de La Moraleja para o centro de Madri, segundo J., sai às 23h30), seis dias por semana. A empregadora lhe oferecia um dia de folga por semana; mas aleatoriamente, não um dia fixo - a cada semana um diferente. A remuneração: 400 euros por mês.
"Essa mulher estava se aproveitando da situação de desespero em que se encontram muitos estrangeiros sem documentos", conta J., sob a tenda instalada diante do escritório central do Bankia em Madri. "Se mora em La Moraleja é porque ganha bem."
Tal é a necessidade de dinheiro de J. que, apesar de aceitar que o trabalho a impediria de cuidar à tarde de sua filha de 13 anos, lhe disse que achava muito pouco, que deveria lhe pagar pelo menos 500 euros. "A mulher, irritada, desligou o telefone."
14 horas diárias na cozinha
Jesús Portillo trabalha há 30 anos em hotelaria, desde os 16. Já lhe fizeram todo tipo de cachorrada. Dentre as recentes, a mais terrível que lembra foi a oferta que lhe fizeram na franquia de uma conhecida rede de bares de "tapas" (aperitivos). O dono estava prestes a abrir um novo estabelecimento dessa franquia e precisava de um cozinheiro.
Portillo, 46, natural da Extremadura, estabelecido em Barcelona, apresentou-se para a entrevista de trabalho. Ofereciam 600 euros por mês por uma jornada entre 12 e 14 horas diárias. Faria um contrato de meia jornada, quatro horas por dia. Mais adiante, se a coisa andasse bem, renegociariam as condições, segundo disseram.
Para se incorporar à rede, teria de fazer um curso em um dos estabelecimentos da mesma. Ali viveu um dos processos de seleção mais abusivos de que se lembra.
"O curso era basicamente trabalhar de graça durante três dias no estabelecimento", lembra. Quinze pessoas se apresentaram para o suposto curso de formação. A chefe não parava de criticar os candidatos que começavam a empanar e fritar bolinhos.
Cinco candidatos foram embora meia hora depois, cansados de ouvir gritos. Logo começaram a chegar clientes. "Mais depressa, mais depressa", insistia a capataz. Três garotas com pouca experiência desistiram, cansadas dos insultos. Quando o bar estava cheio, dos 15 só restavam quatro. Destes, três, entre os quais se encontrava Portillo, abandonaram antes de terminar o dia. "Mas dessa vez fomos nós que insultamos a dona."
No dia seguinte, o proprietário da nova franquia se desculpou com Portillo e disse que as coisas não funcionariam assim em seu local. O primeiro dia de trabalho durou 14 horas. No final da jornada o proprietário lhe pagou 20 euros, a parte proporcional correspondente a seu contrato de 600 euros: 20 euros por 14 horas de trabalho!
Por jornadas como as que lhe propuseram, disse, deveriam pagar entre 1.200 e 1.300 euros. "Isso não é exploração, isso se chama escravidão", declara indignado por telefone.
Portillo está há sete meses sem ganhar 1 euro, e há dois anos desempregado. Sua mulher, que trabalhava em um ambulatório, também está parada. Na semana passada lhe ofereceram um trabalho no qual pagariam 1.300 euros por mês, mas por 18 horas de trabalho; das 7h à 1h da madrugada, seis dias por semana, de segunda a sábado. Ele conhece um rapaz equatoriano de seu bairro, o Nou Barris (Barcelona), que aceita ganhar 300 euros por mês para trabalhar como garçom pela jornada de trabalho inteira. "Essa é a realidade laboral que vivemos: exploração, humilhação, máfias, extorsão."
Guarda de segurança não recebe há seis meses
Manuel Chicharro, 50, não aguenta mais. É guarda de segurança desde 1988 e já viu de tudo: companheiros em empresas de segurança que recebiam 4 euros por hora; gente trabalhando sem contrato... No cargo que ocupou há alguns anos, em um conhecido museu de Madri, lembra que tinha de levar seu filho durante seu turno porque não lhe permitiam folgar no fim de semana (algo a que tinha direito por lei, pois está separado). Mas nada se compara a ficar sem receber durante seis meses consecutivos.
Manuel está arrasado. Entrando no sétimo mês sem receber um euro, sem poder pagar a pensão de 400 euros para sua ex-mulher, sete meses vivendo do que sua companheira ganha. "O drama é que não há cobertura para o operário", diz, perto de um escritório do Inem nos arredores de Madri. "E as instituições colaboram nesse processo que não faz outra coisa além de arrasar as pessoas." Seu caso é extremo; reflete a fragilidade de um trabalhador quando sua empresa quebra. Reflete esta era do trabalhador descartável.
Manuel Chicharro trabalhava como guarda no Centro de Formação Primeiro de Maio em Leganés. Em 1º de janeiro de 2012, há pouco mais de um ano, a empresa para a qual trabalhava havia 12 anos (Ariete) o substituiu (o que ocorre com frequência no setor de segurança, ele explica). Passou a estar na folha de outra empresa, a Esabe, cuja cúpula diretora foi demitida em 20 de dezembro, acusada, entre outros delitos, de uma fraude de 30 milhões de euros na Previdência Social.
Diversos funcionários da Esabe viveram um autêntico pesadelo nos últimos seis meses de 2012: "Imagine o que é não receber mês após mês, durante cinco meses, mas ter de ir trabalhar todo dia porque senão o demitem". Manuel aguentava, esperando ser novamente transferido para outra empresa.
Mas não foi assim, à diferença do que ocorreu com seus outros companheiros, que foram integrados à Prosegur. Apesar de ter 12 anos de trabalho na empresa anterior, precisava ter trabalhado sete meses na Esabe para poder ser substituído de novo, explica. Faltavam-lhe 25 dias para completar esses sete meses. Agora nem ganha o que lhe devem, nem trabalha, nem tem opção. Por enquanto, recebe como desempregado.
"As administrações públicas recorrem a empresas que são cobram menos, mas o barato sai caro", diz, indignado. Cita seu caso e o da Madrid Arena.
"Não contratam mais profissionais de segurança, procuram o mais barato e depois acontece o que acontece." Diz que as administrações públicas contratam empresas de segurança para fazer o trabalho que os policiais municipais ou os funcionários de carreira não querem fazer: "Usam-nos como porteiros, zeladores, tudo para que as pessoas, que muitas vezes nos pedem para bater o ponto por elas, possam escapar de seus postos".
Pagar por um processo de seleção
O caso de R., mulher de 34 anos, não é de exploração no trabalho. Mas ilustra do que alguns são capazes na hora de aproveitar-se da necessidade de ter um trabalho. No ano passado, em maio, viu uma oferta no site da web Infojobs. Inscreveu-se. A empresa pedia que entregasse um currículo em mãos em um dos escritórios. Para lá ela se dirigiu.
Ao chegar às dependências da empresa, em Valência, viu que na entrada não havia nenhuma placa. "Achei estranho." Entrou no saguão e viu seis garotas esperando. De um pequeno escritório saiu uma mulher que lhe entregou um formulário. Nele se indicava a data de início do processo de seleção: 25 de junho.
Para poder participar seria preciso pagar 50 euros. "Pagar por um processo de seleção! Saí muito irritada, parecia uma brincadeira."
Como R. não fica de braços cruzados, falou com a polícia, com organizações de consumidores, com o Conselho de Emprego do governo valenciano e com a Infojobs, que não demorou para retirar o anúncio. "Não houve processo de seleção em 25 de junho", conclui.
Em julho recebeu uma carta da empresa: comunicavam-lhe que havia sido descartada no processo de seleção.
Entregando pizza a qualquer hora
L. não se queixa. Na realidade, ganhar 210 euros por mês distribuindo pizzas não lhe parece tão ruim. Incomoda lhe não saber a que hora terá de recomeçar no dia seguinte; pode ser a qualquer momento, mas ele se adapta.
Só sabe que trabalhará duas horas por dia entregando pizzas; sua empresa sabe que tem um exército de trabalhadores ambulantes para utilizar à vontade no momento que quiser.
Para conseguir que lhe deem mais horas de trabalho, tem que aumentar a média de entregas do dia. Nos escritórios há uma lista com a classificação de entregadores.
"Há concorrência entre nós. Se eu ganho horas, tiro de algum companheiro", diz esse dominicano de 25 anos em uma cafeteria no centro de Madri.
Ele prefere isto àquela empresa de cachorro-quente a domicílio na qual trabalhou e que lhe pagava conforme o dinheiro que entrava em caixa. Com jornadas de 13 horas.
"Pegava o pedido por telefone, o preparava e o levava a domicílio." Em um dia lhe pagavam 100 euros, três dias depois 150. Assim até completar os 800 euros que representava seu salário. A metade no mercado negro.
O eterno bolsista
J. põe a culpa nas universidades. Diz que são cúmplices da situação de toda uma geração. "Temos que pagar para poder ser bolsistas e ganhar 200 euros", lamenta esse graduado em jornalismo de 23 anos.
E explica como muitos meios de comunicação fazem os estudantes recém-saídos do forno entender que é bom manter alguma relação com a universidade para poder ter acesso a estágios.
"Há alunos que deixam uma matéria pendente de propósito, para assim poder optar por estágios", explica em uma lanchonete de Leganés. "Então você trabalha como mais um na redação, e percebe que na realidade está ali substituindo alguém. Produz como mais uma, mas sem remuneração, sem direitos. Eles enchem seus ouvidos, tecnicamente podem lhe conceder duas bolsas, e quando você volta à rua percebe que não tem um só dia de contribuição na Previdência Social."
As empresas (e não só as jornalísticas, pois segundo ele ocorre com colegas que são físicos ou químicos) não procuram mais licenciados, buscam estudantes. "A universidade é o principal motor de tudo isso. As empresas se aproveitam, pois é a universidade que deveria sair em defesa dos alunos."
O imigrante que olha para o Equador
R. é um equatoriano de 42 anos que está há 14 na Espanha. Ele pensa em fazer as malas e voltar para seu país. Conta isso sob uma chuva fina na saída da agência de empregos do Inem do Paseo de la Esperanza, em Madri. Trabalhou durante nove anos em uma empresa de construção. No início tudo correu bem. Há dois anos reduziram seu salário de 1.300 para 1.100 euros. Depois lhe disseram que continuasse trabalhando, mas que o demitiriam para que pudesse receber o seguro-desemprego e o complementariam com 600 euros por mês, no negro. No ano passado o recontrataram: embora trabalhasse a jornada completa, fizeram um contrato de meio período. "Senti-me explorado. Mas se não aceitasse o trabalho alguma outra pessoa o aceitaria. Para não ficar em casa, a gente aceita o que for: qualquer coisa é melhor que nada."
Ofertas surpreendentes
As páginas de ofertas de emprego são um mundo especial. Nelas pode-se encontrar todo tipo de proposta, algumas no limite do legal ou que oferecem condições abusivas. Marina Calvo, responsável pela seção de desempregados da Federação Regional de Serviços do sindicato UGT em Madri, recebe muitas todos os dias. "Em algumas, você pergunta como a cara deles não cai de vergonha", diz.
Eduardo González, da organização Juventude Sem Futuro, também vê ofertas constantemente. Há um ano essa organização criou a Oficina Precária, onde as pessoas podem denunciar abusos, buscar assessoria jurídica e pendurar os anúncios abusivos que encontram na rede. "Todos os dias vemos ofertas que infringem os direitos dos trabalhadores", declara González.
De vez em quando aparecem algumas que propõem diretamente emprego sem salário.
A página Infojobs publicou há três meses uma oferta que causou um ruído considerável nas redes sociais. Dizia assim:
"Voluntário diretor de comunicação. Descrição: Fundação Alia2 tem como missão proteger o menor na Internet. Este cargo é para um voluntário no departamento de imprensa para ocupar o posto de diretor de comunicação. Esse cargo não tem remuneração. Uma fundação em constante crescimento exige um grande capital humano para seu correto funcionamento, por isso estamos em constante busca de pessoal (...).
Funções. Boletim quinzenal (de acordo com um ritmo de tarefas). Boletim patronos (de acordo com um ritmo de tarefas). Manutenção da rede de contatos (agenda de meios aberta). Analisar a atualidade e telefonar para todos os jornalistas que escreveram sobre temas Alia2 (usar alertas do Google). Preparar as intervenções do diretor da fundação (...). Elaboração de notas de imprensa. Acompanhamento de notícias: Clipping (...) Entrevistas coletivas (de acordo com ritmo de tarefas).
Estar a par das notícias que saem relacionadas com o assunto em que se baseia nossa fundação.
Precisa-se. Pessoa com disponibilidade imediata. Horário a definir na entrevista. Será avaliado positivamente que possua conhecimentos das novas tecnologias relacionadas ao funcionamento das redes sociais (...).
Estudos. Graduado.
Experiência. Pelo menos dois anos. Licenciatura ou bacharelado em jornalismo. Criatividade e dinamismo. Grande capacidade escrita e oral. Alto nível de inglês escrito (...). Vontade."
Em conversa por telefone, o diretor da fundação que publicou o anúncio, Miguel Comín, diz que sabe que a oferta não caiu bem, que foi muito protestada, mas lembra que se trata de algo legal, um trabalho de voluntário para uma fundação.
A federação de serviços madrilenha do sindicato UGT conta com um site para desempregados ao qual certas empresas enviam ofertas. Há alguns meses chegou uma que dizia:
"Preciso, em princípio, de duas pessoas que conheçam/ tenham trabalhado no setor de seguros para trabalhar como agente exclusivo em uma companhia de seguros. É um contrato mercantil, sem salário e por comissão. De preferência que sua localidade seja Alcobendas ou San Sebastián de los Reyes."
Marina Calvo, que supervisiona esse site e está atenta para as ofertas que aparecem, conta que prolifera, sobretudo no setor dos comerciais, a oferta de contratos por comissão pelos quais o trabalhador, se não alcançar os objetivos definidos pela empresa, não ganha nada. Não só isso: também se gasta dinheiro em transporte, em visitas. Isto é, paga-se para trabalhar.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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