sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Para 74% dos franceses, islã é incompatível com os valores republicanos
Stéphanie Le Bars - Le Monde
Raramente a desconfiança contra o islã foi tão claramente expressa pela população francesa: 74% das pessoas interrogadas pelo instituto de pesquisas Ipsos estimam que o islamismo é uma religião "intolerante", incompatível com os valores da sociedade francesa. Um número ainda mais radical, oito em cada dez franceses, consideram que a religião muçulmana tenta "impor seu modo de funcionamento às outras". Enfim, mais da metade acredita que os muçulmanos são "na maioria" (10%) ou "em parte" (44%) "fundamentalistas", sem que saibamos o que esse qualificativo abrange.
Essas proporções variam certamente em função da idade e da afiliação política dos pesquisados, mas, demonstrando o enraizamento dessas opiniões no imaginário coletivo, elas permanecem amplamente majoritárias em todas as categorias. Assim, 61% dos simpatizantes de esquerda e 66% dos menores de 35 anos consideram que o islã não é compatível com os valores republicanos.
Pesquisa após pesquisa, os resultados mostram que a imagem do islã se degrada intensamente há cerca de dez anos. Os motivos dessa rejeição maciça são ao mesmo tempo externos e internos, comportam uma parte de fantasmas, mas também repousam em preocupações objetivas. A maior visibilidade dos muçulmanos na sociedade ao longo dos anos, a emergência de novas reivindicações se fizeram acompanhar de discursos alarmistas sobre a suposta "islamização" da Europa e uma instrumentalização política dessas questões.
Além das demandas consideradas legítimas pelos poderes públicos - construção de mesquitas, reconhecimento do islã no exército, prisões, hospitais, condenação de atos antimuçulmanos... -, outras ainda são consideradas exorbitantes por uma parte da opinião pública, pois percebidas como um atentado à laicidade: o uso do lenço na cabeça, exigência de restaurantes "halal", prática religiosa no local de trabalho... Assim, 72% dos pesquisados se opõem às refeições adaptadas às convicções religiosas na escola.
"Amálgama"
A situação geopolítica e acontecimentos tais como o caso Merah também alimentam as preocupações diante das inclinações terroristas de grupos que se denominam islâmicos. Até hoje, as autoridades muçulmanas se contentaram em pedir que se evite "o amálgama entre o islã moderado e o islamismo", chegando a reivindicar recentemente o abandono desse termo no discurso público.
"Além de um contexto de angústia difusa ou de um fundo irredutível de intolerância, esses números constituem uma advertência aos muçulmanos; eles devem se interrogar de modo crítico sobre o islã", considera o filósofo especializado em islã e em laicidade Abdennour Bidar. "Mas eles também são o resultado da mentalidade multicultural, que deixou a extrema-direita se apoderar desses assuntos. No entanto, a esquerda e a direita republicana podem encontrar um equilíbrio entre a recusa a estigmatizar os muçulmanos e o fato de pedir justificativas ao islã com relação à tradição republicana."
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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