Para o editor-chefe da revista “Russia in Global Affairs”, relação bilateral não melhorará até o fim do mandato de Obama
Vivian Oswald - O Globo

Presidente russo, Vladimir Putin, tenta mostrar isolamento dos EUA na questão síria -Alexander Zemlianichenko / AP
SÃO PETERSBURGO — Presidente do Conselho sobre Políticas de Defesa e Relações Internacionais e editor-chefe da revista “Russia in Global Affairs”, Fyodor Lukyanov diz que impasse sobre a Síria reflete movimento de países que veem os EUA como desestabilizador internacional.
Fyodor Lukyanov: Diferentemente do que aconteceu com o Iraque, dez anos atrás, quando houve um debate fervoroso, com países poderosos contra e a favor da intervenção, agora não há essa discussão apaixonada. A própria reação russa é diferente do que se imaginaria. É claro que a Rússia se manifestou contra. Mas normalmente era para a reação ter sido muito mais histérica e propaganda antiamericana do que agora. O próprio Putin disse numa entrevista que, se houvesse provas, apoiaria a operação. É claro que isso não quer dizer nada, porque ele já anunciou que não acredita nas provas. Mas o discurso tem um tom diferente. E já não são tantos os países expressamente contrários à intervenção. Muitos são favoráveis a que se faça algo, mas quase ninguém está disposto a ajudar os EUA a fazer alguma coisa.
E como buscar apoio dos outros países para legitimar uma intervenção?
Fyodor Lukyanov: Obama está disposto a encontrar qualquer forma de legitimidade. Como sabe que o Conselho de Segurança não iria apoiá-lo, recorre ao Congresso americano. Foi buscar legitimidade internacional no cenário doméstico. Muitos líderes não acham que os americanos seriam bem-sucedidos e venceriam a guerra na Síria para usá-la como exemplo para outros episódios, como Bush tentou fazer com o Iraque. No caso de Obama, é um movimento desesperado e muitos entendem que a lógica por trás da posição dos outros países, da Rússia inclusive, é de deixá-los fazer isso. É uma característica interessante do clima internacional.
É consenso que a relação entre os EUA e a Rússia vive seu pior momento desde a Guerra Fria. Ela tem como melhorar?
Fyodor Lukyanov: A relação não deve mudar pelo menos até o fim da gestão Obama. Não vejo nenhum tipo de confrontação, tampouco passos à frente. É apenas o aumento de um distanciamento que já existia. Pelo lado russo, não se trata diretamente de um discurso antiamericano, que sempre faz sucesso na Rússia. É algo mais na linha de ignorar os EUA. Esse é um fenômeno interessante que podemos a começar a ver a partir da reação de vários líderes, entre eles Putin. Eles não veem os EUA como inimigo, mas como um país que, dado seu tamanho e seu peso no âmbito internacional, é muito perigoso, porque pode produzir problemas para todos. Não para a Rússia em particular. Mas para todos, porque os EUA são uma força de desestabilização. Certo ou não, no caso de Putin, ele vê que a melhor maneira de lidar com eles é minimizar os contatos e não ampliá-los. Tentamos ver tudo pelo modelo da Guerra Fria, mas é diferente agora.
Fyodor Lukyanov: Diferentemente do que aconteceu com o Iraque, dez anos atrás, quando houve um debate fervoroso, com países poderosos contra e a favor da intervenção, agora não há essa discussão apaixonada. A própria reação russa é diferente do que se imaginaria. É claro que a Rússia se manifestou contra. Mas normalmente era para a reação ter sido muito mais histérica e propaganda antiamericana do que agora. O próprio Putin disse numa entrevista que, se houvesse provas, apoiaria a operação. É claro que isso não quer dizer nada, porque ele já anunciou que não acredita nas provas. Mas o discurso tem um tom diferente. E já não são tantos os países expressamente contrários à intervenção. Muitos são favoráveis a que se faça algo, mas quase ninguém está disposto a ajudar os EUA a fazer alguma coisa.
E como buscar apoio dos outros países para legitimar uma intervenção?
Fyodor Lukyanov: Obama está disposto a encontrar qualquer forma de legitimidade. Como sabe que o Conselho de Segurança não iria apoiá-lo, recorre ao Congresso americano. Foi buscar legitimidade internacional no cenário doméstico. Muitos líderes não acham que os americanos seriam bem-sucedidos e venceriam a guerra na Síria para usá-la como exemplo para outros episódios, como Bush tentou fazer com o Iraque. No caso de Obama, é um movimento desesperado e muitos entendem que a lógica por trás da posição dos outros países, da Rússia inclusive, é de deixá-los fazer isso. É uma característica interessante do clima internacional.
É consenso que a relação entre os EUA e a Rússia vive seu pior momento desde a Guerra Fria. Ela tem como melhorar?
Fyodor Lukyanov: A relação não deve mudar pelo menos até o fim da gestão Obama. Não vejo nenhum tipo de confrontação, tampouco passos à frente. É apenas o aumento de um distanciamento que já existia. Pelo lado russo, não se trata diretamente de um discurso antiamericano, que sempre faz sucesso na Rússia. É algo mais na linha de ignorar os EUA. Esse é um fenômeno interessante que podemos a começar a ver a partir da reação de vários líderes, entre eles Putin. Eles não veem os EUA como inimigo, mas como um país que, dado seu tamanho e seu peso no âmbito internacional, é muito perigoso, porque pode produzir problemas para todos. Não para a Rússia em particular. Mas para todos, porque os EUA são uma força de desestabilização. Certo ou não, no caso de Putin, ele vê que a melhor maneira de lidar com eles é minimizar os contatos e não ampliá-los. Tentamos ver tudo pelo modelo da Guerra Fria, mas é diferente agora.
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