Pablo Ordaz - El Pais
13.fev.2013 - Alessandro Bianchi/Reuters

O italiano Tarcisio Bertone
Em 15 de agosto o papa Francisco almoçou com o cardeal Tarcisio Bertone em Castel Gandolfo. À mesa também se sentaram Angelo Sodano, atual decano do colégio cardinalício e antecessor de Bertone à frente da secretaria de Estado do Vaticano, e o bispo Marcelo Semeraro, secretário da comissão de oito cardeais formada por Jorge Mario Bergoglio para reformar a Cúria.Apesar da data --dia da Assunção e festividade italiana de Ferragosto-- e do lugar --a magnífica residência junto ao lago Albano utilizada pelos pontífices para veranear durante três meses e à qual Bergoglio só foi por alguns dias, de visita--, que pareciam convidar a um encontro relaxado, o papa argentino quis aproveitar a presença de três homens que representam o passado, o presente e talvez o futuro da igreja para avançar em seus planos de renovação. Mas Bertone trazia outras tempestades na cabeça.
"Se ninguém no Vaticano me defende dos que me chamam de corrupto, será melhor darmos isto por terminado..."
Alguns dias antes, a imprensa italiana havia divulgado que Francesca Immacolata Chaouqui, uma jovem especialista em comunicação recrutada em julho por Francisco para tentar limpar a imagem do banco do Vaticano, tinha um passado tuiteiro muito pouco amável com o cardeal Bertone. Em fevereiro de 2012, coincidindo com o vazamento dos documentos reservados de Bento 16, Chaouqui, de 27 anos, chegou a escrever em sua conta do Twitter: "Bertone é um corrupto. Parece que estão no meio o arquivo secreto e uma empresa veneta".
Mais que as acusações em questão, o que acabou de aborrecer Bertone, sem dúvida o homem mais poderoso do Vaticano durante os sete anos de papado de Bento 16, foi a tímida --para não dizer inexistente-- reação do Vaticano a seu favor. Nem o papa havia revogado a nomeação de Chaouqui, nem ninguém com peso na Santa Sé quis se manifestar em defesa do ainda secretário de Estado.
Já em 15 de agosto todo mundo dava por certo que Tarcisio Bertone tinha pouco futuro na cúpula da igreja. De fato, os cardeais americanos pediam que o papa nomeasse já o sucessor. O vazamento dos papéis secretos e sobretudo a renúncia de Bento 16 haviam terminado por escrever os últimos capítulos da biografia de Bertone. O governo do cardeal salesiano de 78 anos passaria à história pelos escândalos de pedofilia, as acusações de corrupção no Instituto para as Obras de Religião (IOR) e as encarniçadas disputas entre os diversos grupos de poder no Vaticano. Mais que um homem fiel à sombra de Joseph Ratzinger, o cardeal Bertone já era para muitos o homem que obscureceu Bento 16, que o isolou no apartamento pontifício, o que dilapidou seus desejos de reforma.
Daí que, ao saber de sua destituição e a nomeação para seu lugar do diplomata vaticano Pietro Parolin, o secretário de Estado --ele só deixará oficialmente suas funções em 15 de outubro-- sofresse outro ataque de indignação, desta vez em público. No último domingo, durante uma visita a Siracusa (Sicília), Tarcisio Bertone confirmou oficialmente o que até esse momento não deixavam de ser informações jornalísticas:
"O balanço de minha gestão é positivo, mas é verdade que houve muitos problemas, especialmente nos últimos dois anos. Verteram-se sobre mim algumas acusações... fui vítima de uma rede de corvos e de víboras!"
Com uma única frase, o todo-poderoso Bertone punha o selo oficial nas informações que haviam sido negadas ou minimizadas pela cúpula da igreja até então. Uma trama de corvos - traidores - havia conseguido, mediante o vazamento interessado dos documentos roubados pelo mordomo Paolo Gabriele nos apartamentos de Bento 16, romper o prestígio de um secretário de Estado e, sobretudo, fazer cair um papa. Porque acima do orgulho ferido de Bertone, da ira provocada pela trama que o derrubou, situa-se o conteúdo dos documentos vazados. E aí, quase sempre, o cardeal de Turim sai muito mal.
Da carta que o arcebispo Carlo Maria Viganò, atual núncio nos EUA, escreveu a Ratzinger contando-lhe diversos casos de corrupção nos quais Bertone estaria envolvido, até a destituição fulminante de Ettore Gotti Tedeschi à frente do IOR, o banco do Vaticano. Tanto no caso de Viganò como no de Tedeschi, Ratzinger não teve força nem autoridade para contradizer seu secretário de Estado. Dizem que o velho papa alemão chorou quando, em vez de executar a limpeza que lhe propunha o arcebispo Viganò, assinou seu desterro longe do Vaticano. E que a expulsão de Tedeschi - ao qual se quis fazer passar por corrupto e desequilibrado, fazendo coincidir sua demissão com a detenção do mordomo infiel --também pesou na hora de renunciar ao papado.
Os últimos acontecimentos ao redor do banco do Vaticano --a detenção de monsenhor Nunzio Scarano, acusado de uma milionária operação de lavagem de dinheiro, e a absolvição de Tedeschi por parte da promotoria - voltaram a deixar em má situação o cardeal Bertone, o qual só pôde enfrentar a hostilidade da diplomacia vaticana, que sempre o considerou um intruso, com fortes golpes de autoridade. O cardeal teceu uma rede de interesses muito italiana com personagens muito poderosas da vida empresarial e política. Documentos que agora vêm à luz demonstram que o governo da igreja havia sucumbido na última década e meia - à enfermidade de João Paulo 2º sucedeu a espiritualidade ausente de Bento 16 - à tentação do poder.
O papa Francisco, que não dá ponto sem nó inclusive quando fala "off the record", referiu-se em várias ocasiões aos lobbies --independentemente de sua afinidade-- como um dos males que assolam o Vaticano. E nesta mesma semana, durante uma de suas missas na residência de Santa Marta, pôs na mira as "falações", outro dos vícios mais populares nos arredores da Praça de São Pedro. "Estamos acostumados com os boatos", admitiu Bergoglio, "e muitas vezes transformamos nossas comunidades, e também nossas famílias, em um inferno onde se mata o irmão com nossa língua."
Nos últimos anos o Vaticano foi vítima --utilizando as mesmas palavras de Bertone-- dos "corvos e das víboras" que, em busca do poder, se destruíram mutuamente. Suas principais armas foram exatamente os boatos e a chantagem, os relatórios reservados, o silêncio calculado. Cabe ao papa argentino desativar essa complexa e poderosa rede de interesses, sem perder a vida nisso.
Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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