À medida que a possibilidade de ataques americanos contra a Síria dominam as manchetes, a União Europeia está mantendo discretamente sua atenção no Egito, onde há dois meses um golpe militar derrubou Mohammed Mursi, o presidente islamita e um dos líderes da Irmandade Muçulmana.
A grande violência antes e depois da remoção de Mursi foi um golpe amargo para Catherine Ashton, chefe da política externa da UE. Ela e seu emissário especial para a região, Bernardino León, investiram muitos meses no desenvolvimento de um relacionamento com os principais atores políticos. Com promessas de assistência financeira, investimento e comércio vinculadas à promessa do novo governo egípcio de respeito aos direitos humanos, Ashton esperava que a estratégia de poder "soft" da UE teria algum impacto na superação da polarização profunda e perigosa do ano anterior.
Mas a violência, a remoção de Mursi e, agora, a supressão da Irmandade Muçulmana colocaram em dúvida se ainda resta à estratégia de poder soft da UE algum papel para exercer no Egito e na região.
"Durante dois anos inteiros, a UE foi vista como uma mediadora honesta. Talvez Ashton pudesse ter usado mais essa influência do que usou", disse Rem Korteweg, um analista de política externa do Centro para Reforma Europeia, uma organização de pesquisa em Londres.
De fato, Ashton conquistou tamanha confiança dos principais atores políticos que, quando Mursi foi preso, ela foi a única diplomata ocidental com autorização para visitá-lo. Isso confirma o quanto a abordagem da UE mudou desde a revolução egípcia de fevereiro de 2011. Até então, a UE e a maioria de seus países membros ficavam satisfeitos em lidar com os regimes autoritários na região em vez de apoiar os direitos humanos e a sociedade civil.
"No começo de 2011, nós demos início a um diálogo com todos os principais atores políticos e com a sociedade civil", disse León por telefone. "Quando Mursi se tornou presidente, nós explicamos o motivo para a importância do desenvolvimento de confiança, do engajamento de todos os partidos políticos, em vez da polarização da sociedade."
"Mas Mursi fracassou em seguir o conselho", acrescentou León. Como resultado, a polarização política se tornou mais profunda e mais perigosa.
O general Abdul-Fattah al-Sissi, o líder de fato do Egito, que disse que a derrubada de Mursi foi necessária para impedir que o país mergulhasse em uma guerra civil, parece igualmente não disposto a ser inclusivo.
Ele está reprimindo ainda mais a Irmandade Muçulmana, prendendo seus líderes. No domingo, o procurador-geral do Egito ordenou que Mursi e outros líderes da Irmandade Muçulmana sejam julgados por acusações que incluem incitação a homicídio.
"A grande questão agora é como superar a polarização", disse León.
Mas o que a UE pode fazer? Alguns analistas dizem acreditar que as ferramentas de poder soft da Europa estão esgotadas. Mas Ashton ainda tem esperança.
Enquanto o secretário de Estado americano, John Kerry, diz que as ações do general Al-Sissi "irão restaurar a democracia", Ashton tem se manifestado vigorosamente contra a derrubada de Mursi e o uso da força. Ela diz acreditar que a repressão à Irmandade Muçulmana trará no máximo estabilidade a curto prazo, mas prejudicará as futuras perspectivas de desenvolvimento de uma democracia.
"A ordem de Sissi não é uma ordem real, é uma estabilidade a curto prazo", disse León. E, apesar de a Arábia Saudita e outros países terem dado ao Egito US$ 12 bilhões para pagamento de salários e subsídios, León disse que isso não basta para recolocar o Egito nos trilhos. "O dinheiro não vai estabilizar o país a longo prazo. O maior risco é a polarização", acrescentou.
Esse é o motivo para Ashton não estar preparada para desistir do uso do poder soft da UE no Egito. Ela disse aos ministros das Relações Exteriores da UE no mês passado que pretende tentar promover um diálogo político.
O professor Volker Perthes, diretor do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim, diz acreditar que os instrumentos de poder soft da UE possam fazer a diferença no Egito, mas precisam ser mais bem calibrados.
Ele disse que o pacote de dinheiro, mercados e mobilidade (vinculado a direitos humanos) da UE para seus vizinhos do sul e do leste poderia ser utilizado de uma forma melhor. "Dinheiro é bom, mas seus usos são exagerados, e os mercados sempre podem ser expandidos", disse Perthes em uma entrevista. O aspecto mais importante, ele argumentou, é a mobilidade.
Isso significa permitir às pessoas viajar, viver e estudar no exterior em sociedades tão abertas quanto as da Europa, para que vejam como elas funcionam e como coalizões políticas e acordos são acertados. "Eu não acho que a UE fez uso suficiente desse aspecto de seu poder soft", acrescentou Perthes.
Várias fundações europeias estão buscando seu próprio tipo de poder soft. A Fundação Anna Lindh, com sede na cidade egípcia de Alexandria, tem um programa que convida jovens para um ambiente neutro.
"Um desafio é unir ONGs, autoridades locais e líderes políticos", disse Paul Walton, chefe de assuntos internacionais e comunicações da fundação. "Isso significa criar espaços seguros e neutros, onde os grupos possam dialogar e debater sem serem rotulados."
Perthes vê méritos nesses espaços abertos e seguros para encorajamento do discurso político. Mas ele é pessimista a respeito de quão longe podem ser usados sob as circunstâncias atuais.
"O Egito está tão polarizado que nem os líderes, nem a oposição desejam neutralidade. Esses lugares seguros podem estar em risco", ele acrescentou. De fato, desde fevereiro de 2011, os líderes do Egito tentaram fechar várias fundações europeias e americanas.
Mas Ashton e as fundações não estão preparadas para desistir. Elas estão convencidas de que a única forma do Egito seguir em frente é aprender a fazer concessões políticas. Ajudar o Egito e outros países divididos na região a seguirem por esse caminho pode ser uma das melhores formas de a Europa usar seu poder soft.Tradutor: George El Khouri Andolfato
A grande violência antes e depois da remoção de Mursi foi um golpe amargo para Catherine Ashton, chefe da política externa da UE. Ela e seu emissário especial para a região, Bernardino León, investiram muitos meses no desenvolvimento de um relacionamento com os principais atores políticos. Com promessas de assistência financeira, investimento e comércio vinculadas à promessa do novo governo egípcio de respeito aos direitos humanos, Ashton esperava que a estratégia de poder "soft" da UE teria algum impacto na superação da polarização profunda e perigosa do ano anterior.
Mas a violência, a remoção de Mursi e, agora, a supressão da Irmandade Muçulmana colocaram em dúvida se ainda resta à estratégia de poder soft da UE algum papel para exercer no Egito e na região.
"Durante dois anos inteiros, a UE foi vista como uma mediadora honesta. Talvez Ashton pudesse ter usado mais essa influência do que usou", disse Rem Korteweg, um analista de política externa do Centro para Reforma Europeia, uma organização de pesquisa em Londres.
De fato, Ashton conquistou tamanha confiança dos principais atores políticos que, quando Mursi foi preso, ela foi a única diplomata ocidental com autorização para visitá-lo. Isso confirma o quanto a abordagem da UE mudou desde a revolução egípcia de fevereiro de 2011. Até então, a UE e a maioria de seus países membros ficavam satisfeitos em lidar com os regimes autoritários na região em vez de apoiar os direitos humanos e a sociedade civil.
"No começo de 2011, nós demos início a um diálogo com todos os principais atores políticos e com a sociedade civil", disse León por telefone. "Quando Mursi se tornou presidente, nós explicamos o motivo para a importância do desenvolvimento de confiança, do engajamento de todos os partidos políticos, em vez da polarização da sociedade."
"Mas Mursi fracassou em seguir o conselho", acrescentou León. Como resultado, a polarização política se tornou mais profunda e mais perigosa.
O general Abdul-Fattah al-Sissi, o líder de fato do Egito, que disse que a derrubada de Mursi foi necessária para impedir que o país mergulhasse em uma guerra civil, parece igualmente não disposto a ser inclusivo.
Ele está reprimindo ainda mais a Irmandade Muçulmana, prendendo seus líderes. No domingo, o procurador-geral do Egito ordenou que Mursi e outros líderes da Irmandade Muçulmana sejam julgados por acusações que incluem incitação a homicídio.
"A grande questão agora é como superar a polarização", disse León.
Mas o que a UE pode fazer? Alguns analistas dizem acreditar que as ferramentas de poder soft da Europa estão esgotadas. Mas Ashton ainda tem esperança.
Enquanto o secretário de Estado americano, John Kerry, diz que as ações do general Al-Sissi "irão restaurar a democracia", Ashton tem se manifestado vigorosamente contra a derrubada de Mursi e o uso da força. Ela diz acreditar que a repressão à Irmandade Muçulmana trará no máximo estabilidade a curto prazo, mas prejudicará as futuras perspectivas de desenvolvimento de uma democracia.
"A ordem de Sissi não é uma ordem real, é uma estabilidade a curto prazo", disse León. E, apesar de a Arábia Saudita e outros países terem dado ao Egito US$ 12 bilhões para pagamento de salários e subsídios, León disse que isso não basta para recolocar o Egito nos trilhos. "O dinheiro não vai estabilizar o país a longo prazo. O maior risco é a polarização", acrescentou.
Esse é o motivo para Ashton não estar preparada para desistir do uso do poder soft da UE no Egito. Ela disse aos ministros das Relações Exteriores da UE no mês passado que pretende tentar promover um diálogo político.
O professor Volker Perthes, diretor do Instituto Alemão para Assuntos Internacionais e de Segurança, em Berlim, diz acreditar que os instrumentos de poder soft da UE possam fazer a diferença no Egito, mas precisam ser mais bem calibrados.
Ele disse que o pacote de dinheiro, mercados e mobilidade (vinculado a direitos humanos) da UE para seus vizinhos do sul e do leste poderia ser utilizado de uma forma melhor. "Dinheiro é bom, mas seus usos são exagerados, e os mercados sempre podem ser expandidos", disse Perthes em uma entrevista. O aspecto mais importante, ele argumentou, é a mobilidade.
Isso significa permitir às pessoas viajar, viver e estudar no exterior em sociedades tão abertas quanto as da Europa, para que vejam como elas funcionam e como coalizões políticas e acordos são acertados. "Eu não acho que a UE fez uso suficiente desse aspecto de seu poder soft", acrescentou Perthes.
Várias fundações europeias estão buscando seu próprio tipo de poder soft. A Fundação Anna Lindh, com sede na cidade egípcia de Alexandria, tem um programa que convida jovens para um ambiente neutro.
"Um desafio é unir ONGs, autoridades locais e líderes políticos", disse Paul Walton, chefe de assuntos internacionais e comunicações da fundação. "Isso significa criar espaços seguros e neutros, onde os grupos possam dialogar e debater sem serem rotulados."
Perthes vê méritos nesses espaços abertos e seguros para encorajamento do discurso político. Mas ele é pessimista a respeito de quão longe podem ser usados sob as circunstâncias atuais.
"O Egito está tão polarizado que nem os líderes, nem a oposição desejam neutralidade. Esses lugares seguros podem estar em risco", ele acrescentou. De fato, desde fevereiro de 2011, os líderes do Egito tentaram fechar várias fundações europeias e americanas.
Mas Ashton e as fundações não estão preparadas para desistir. Elas estão convencidas de que a única forma do Egito seguir em frente é aprender a fazer concessões políticas. Ajudar o Egito e outros países divididos na região a seguirem por esse caminho pode ser uma das melhores formas de a Europa usar seu poder soft.Tradutor: George El Khouri Andolfato
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